Pasolini e o tropos geossocial do Cristo na contemporaneidade
Por Leonardo Lima*
Nota: 7,0
Cineasta, poeta, escritor, crítico de arte e militante comunista, Pier Paolo Pasolini mantém-se como um das figuras emblemáticas da intelligentsia italiana no século XX. Como nenhum outro intelectual orgânico de sua época, o ragazzo oriundo de Bologna, ateu fervoroso, paradoxalmente logrou êxito em sua tentativa de imprimir na película cinematográfica a natureza da espiritualidade imanente aos ideais de justiça social e bem-aventurança da alma, defendidos por Jesus de Nazaré há pouco mais de 2 mil anos. O Evangelho segundo São Mateus, lançado em 1964, é reconhecido pelo Vaticano como o melhor filme já lançado sobre a história social do Cristo.
Poucos, no entanto, são sabedores do quão difícil fora para Pasolini dirigir uma obra que testemunhasse, na contemporaneidade, a grandeza da passagem desse homem, divino para tantos, pelas áridas terras da Palestina, região de forte instabilidade sociopolítica e alvo de disputas infames e sangrentas ao longo dos séculos. Para ele, não bastava ligar a câmera e filmar um simulacro de paisagens geográficas e ambiente social que remetesse, de algum modo, aos tempos bíblicos do Novo Testamento. Sua expectativa, acima de tudo, era fazer com que o público vivesse uma experiência realmente singular, capaz de anunciar a mensagem evangelista de Mateus, narrativamente voltada para os discursos de Jesus às multidões, como um chamado potente à ação no mundo, com vistas à busca material da justiça, rechaçando, assim, o conformismo frente à ordem das coisas.
Não à toa, o diretor italiano, na fase de pré-produção de O Evangelho segundo São Mateus, viajou à Terra Santa certo de que, ali, encontraria os cenários ideais para as gravações de seu longa de inspirações neorrealistas. Os registros dessa breve excursão constituem o substrato do média-metragem documental Locações na Palestina, cujos minutos iniciais expõem um Pasolini otimista com as situações com as quais se depara, instantaneamente evocadoras de memórias milenares daquele local. Não tarda para que ele perceba o inexorável peso do tempo, implacável e alheio às construções idealizadas de uma perspectiva orientalista, como diria Edward Said, que atribuem uma certa primitividade, um exotismo essencial, àquilo que não se encaixa no cânone sociocultural do Ocidente.

Daí por diante, o que se observa é uma andança melancólica do diretor pelo território de Israel, sempre na companhia de um eloquente sacerdote católico. A percepção de Pasolini é a de que, contrariando suas concepções primárias, aquelas localidades alcançaram um estágio tal de modernidade, demasiadamente avançado, que as tornavam impróprias aos seus propósitos cinematográficos. Essa constatação se mostra fundamental, uma vez que permite a Pasolini reconhecer que a sua terra natal, particularmente o sul da Itália, apresentava, então, características mais condizentes com o período em que Jesus andara pregando em solo palestino. Tal conclusão traz consigo um entendimento bastante apurado do ponto de vista dialético, pois tira o intelectual da zona de conforto na qual ele via os lugares segundo sua imaginação colonial, e o recoloca numa posição que força uma adaptação da imaginação aos lugares pensados como locação para sua obra mais famosa.
De todo modo, a dialética desse movimento não impede Pasolini de assumir um olhar eurocêntrico frente às comunidades que ia encontrando enquanto visitava os locais em que Jesus vivera no passado, a exemplo do Lago Tiberíades e do Rio Jordão, ou mesmo as cidades de Belém, Nazaré, Cafarnaum, Jerusalém etc. Surpreende – e provavelmente decepciona – o mais incauto espectador a maneira como o cineasta tece reflexões bastante distintas em relação a judeus e árabes. Enquanto os primeiros são inequivocadamente percebidos como modernos, estes são vistos como “faces que não foram tocadas pela pregação do Cristo. Elas são faces pré-cristãs, pagãs, indiferentes, felizes, selvagens”.
Ora, esse é um discurso que estabelece uma clara hierarquia entre os dois principais grupos étnicos viventes dentro das fronteiras do Estado de Israel, àquela altura com menos de duas décadas de existência. Não bastasse isso, ao exaltar o trabalho realizado por judeus nos inúmeros kibutzim espalhados pelo país, chamados por ele de “colonos”, Pasolini desconsidera, de maneira acrítica, o fato de que, até meados da década de 1930, a população da Palestina era majoritariamente árabe. Essa situação foi alterada com a leniência do Reino Unido, então mandatário do território, que possibilitou o ingresso de centenas de milhares de cidadãos de origem judaica num curto espaço temporal – isso é evidenciado no recém-lançado Palestine 36, da diretora palestina Annemarie Jacir.
Para além das qualidades documentais que lhe são intrínsecas, sobretudo a natureza crua e intimista das imagens em preto e branco, propícias à reflexão contemplativa, Locações na Palestina destaca-se pelo tom confessional impresso narrativamente pelo seu diretor protagonista. Trata-se, em última instância, de uma rara oportunidade de conhecer mais profundamente o universo particular de ideias do indivíduo por detrás das câmeras. Ainda que sujeito a críticas – talvez extemporâneas, é verdade –, Pier Paolo Pasolini se desnuda, aqui, de uma maneira poucas vezes observada no cinema. A sua busca do tropos geossocial do Cristo na contemporaneidade revela, ao mesmo tempo, o homem – aquele que age e pensa condicionado pela praxeologia de sua época – e o autor – aquele que ambiciona, por meio da arte, influenciar os rumos do tempo futuro, domando a imprevisibilidade ondulatória de suas bordas abauladas.
O filme está sendo exibido atualmente na 20ª edição do Festival de Cinema Italiano no Brasil /2025. De 29/10 a 29/11/2025. Toda a programação é gratuita no site.
*Recifense, 40 anos, sociólogo, antirracista, aliado do feminismo e torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, administra o Cine Mulholland no Instagram e integra o podcast Cinema em Movimento, além de colaborar com o TemQueVer e o Clube do Filme.
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