DE NÁPOLES A NOVA YORK (Crítica)

A experiência da imigração pelo olhar infantil

Por Pablo Rodrigues*

O sentimento do não pertencimento, do deslocamento, perpassa a experiência da imigração. Foi assim com milhares de imigrantes europeus que saíram de seus países de origem após o fim da Segunda Guerra Mundial para tentar uma vida melhor nas Américas, em especial nos Estados Unidos. Nesse contexto, a Itália foi um dos países mais atingidos pelo conflito, forçando muitos de sua população a deixarem sua terra natal, atravessando o oceano, em busca da terra das oportunidades. Em DE NÁPOLES A NOVA YORK (2024), novo filme do cineasta Gabriele Salvatores, que integra o Festival do Cinema Italiano 2025, esse cenário nos é apresentado por uma perspectiva diferente, a saber, o olhar infantil.

Baseado num argumento escrito pelo grande cineasta Federico Felini e por Tulio Pinelli, DE NÁPOLES A NOVA YORK mescla elementos do Neorrealismo Italiano com o cinema clássico hollywoodiano para fazer um melodrama épico sobre a experiência imigratória e tudo o que ela traz para quem a vivencia. A trama se passa em 1949 e acompanha as crianças Carmine e Celestina, dois amigos órfãos que tentam sobreviver pelas ruínas de uma Nápoles devastada pela guerra, até que entram como clandestinos em um navio rumo a Nova York, onde irão tentar encontrar a irmã de Celestina, a qual foi para os Estados Unidos anos antes.

A direção de Salavatores faz diferentes escolhas estéticas para os diferentes segmentos do roteiro, ainda que, no geral, mantenha uma linguagem estilística mais clássica. Na primeira parte da trama, que se passa em Nápoles, o diretor adota uma abordagem próxima do Neorrealismo Italiano (movimento cinematográfico iniciado na Itália nos anos 1940), destacando a miséria e a desigualdade da cidade no pós-guerra, além de incluir algumas referências ao cinema de Federico Fellini. Já na segunda parte, quando as personagens estão no navio, a abordagem neorrealista ainda se faz presente, porém, vai dando lugar a um tom fabular à medida que os protagonistas vão chegando aos Estados Unidos, refletindo a idealização destes acerca do país. Por sua vez, a direção vai se tornando mais clássica, mais hollywoodiana.

Contudo, é na terceira parte (a maior em duração) que o roteiro intensifica sua crítica social ao desconstruir a visão idealizada das personagens acerca dos Estados Unidos e, consequentemente, do ideal do sonho americano (american way of flife). A princípio, para as personagens, a Nova York dos anos 1940 parece um lugar do futuro, um outro universo, cheia de luzes, grandes prédios e sempre em movimento. E o filme reflete isso ao recriar a cidade em estúdio e também com efeitos visuais (CGI), dando um tom fantástico e um tanto artificial para aquele cenário. Por sua vez, a direção passa a utilizar de uma linguagem mais clássica

Todavia, essa imagem romantizada da cidade logo é desconstruída pois, desde que pisam em solo estadunidense, Carmine e Celestina se deparam com um país desigual, corrupto, segregado pelo racismo contra os negros e pela xenofobia contra imigrantes como eles. Assim, ambos terão que continuar tentando sobreviver às desigualdades, agora em um território onde não são bem-vindos. Destaque para a linda cena onde Celestina consegue entrar num cinema para assistir uma sessão do filme PAISÁ (1946), de Roberto Rosselini, numa belíssima homenagem ao Neorrealismo Italiano.

No entanto, embora traga temas densos, estes são apresentados com certa leveza, dada a perspectiva infanto-juvenil de seus protagonistas. Nesse sentido, o filme se aproxima de uma abordagem chapliniana de sua história, inclusive fazendo referência ao curta O IMIGRANTE (1918) de Charles Chaplin. Porém, embora a crítica social proposta pela obra seja interessante, seu desenvolvimento nem sempre é eficiente, principalmente na terceira parte. Algumas das temáticas trazidas pelo roteiro, como a segregação racial, a luta do movimento feminista, são inseridas na trama de modo pouco orgânicas, não sendo bem amarradas umas com as outras.

Para além dessas questões, o longa ainda traz um bom trabalho de reconstrução de época, com um design de produção competente que aposta em cenários mais coloridos, refletindo a visão das crianças, do mesmo modo faz a fotografia de Diego Indraccolo, que ressalta o colorido e as cores quentes, porém, com mais intensidade na primeira parte da trama, em Nápoles. Já quando as personagens chegam aos Estados Unidos, a fotografia ganha uma leve desaturação que só sairá de cena ao final. Por sua vez, as músicas anacrônicas inseridas ao longo da trama nem sempre funcionam para as cenas, a exemplo do uso de Be My Baby, sucesso dos anos 1960 da banda The Ronettes .

Mas o grande destaque do filme fica por conta de sua dupla de protagonistas. O cinema italiano possui um histórico de bons personagens infantis, a exemplo de Pasquale e Giuseppe de VÍTIMAS DA TORMENTA (1946), o Bruno de LADRÕES DE BICICLETA (1948) ou o Totó de CINEMA PARADISO (1988). Carmine e Celestina também reafirmam esse histórico. Ambos são personagens apaixonantes e bem construídos. Crianças que são forçadas a viverem experiências dolorosas precocemente e que tentam sobreviver juntos à miséria e desigualdade ao seu redor. Contudo, as personagens não seriam o que são sem o talento e o carisma de seus jovens atores Antonio Guerra (Carmine) e Dea Lanzaro (Celestina). Ambos estão ótimos em seus papéis, demonstrando uma desenvoltura e naturalidade de quem já é experiente (Lanzaro, por sinal, é uma fofura).

Enfim, DE NÁPOLES A NOVA YORK é um melodrama épico que aborda temáticas políticas e sociais ainda atuais e relevantes acerca da experiência da imigração, principalmente considerando o atual cenário do novo governo Trump nos Estados Unidos, onde a xenofobia e o racismo ganharam ainda mais força. Tudo isso de forma leve, aquecendo o coração de seu público com personagens cativantes e uma boa história. Mesmo com alguns probleminhas aqui e ali, é um filme que nos deixa feliz e satisfeitos pela jornada que acompanhamos.

O filme está sendo exibido atualmente na 20ª edição do Festival de Cinema Italiano no Brasil /2025. De 29/10 a 29/11/2025.  Toda a programação é gratuita no site.

*Psicólogo formado pela Universidade Federal de Alagoas, especialista em Saúde Mental, militante de esquerda, cinéfilo, crítico de cinema, criador do canal do YouTube, podcast e página do Instagram Cinema em Movimento e colaborador do site Tem Que Ver..

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