A RENA BRANCA

Terror folclórico finlandês

Por Leonardo Lima*

Nota: 9,0

Filmes do gênero terror/horror costumam estar associados a uma busca – até certo ponto fetichista – por composições mais gráficas, capazes de evidenciar aspectos mais chocantes da ação de entidades (humanas, animais ou sobrenaturais) tomadas por um certo ímpeto mortal, fundamentado racional ou irracionalmente em termos narrativos. No entanto, há obras que contrariam tais convenções sem precisar apelar para algo mais expositivo, conseguindo, ainda assim, ser efetivas em seu intento de provocar inquietude e tensão frente às situações expostas. Esse é justamente o caso de A Rena Branca (Valkoinen Peura, no título original), filme finlandês de 1952 dirigido por Erik Blomberg.

A Rena Branca trata-se de um folk horror que recorre à tradição mítica do povo Sámi, habitante do território que se convencionou chamar de Lapônia – composto pelas terras mais setentrionais da Europa, divididas entre Finlândia, Noruega, Rússia e Suécia. Mais do que a suposta terra de Papai Noel, a Lapônia é a fonte de um rico legado de histórias orais transmitidas de geração em geração pelos Sámi. Nesses relatos, é bastante notório o intricado cruzamento de aspectos relacionados à desoladora natureza local – cenário de paisagens com densa camada de neve, do sol da meia-noite, da aurora boreal e de hordas de renas –, bem como à peculiar ordem societária ali vigente, estruturada em torno do seminomadismo e do xamanismo.

Desde o início do filme, tais aspectos são muito bem explorados por Blomberg, que se mostra habilidoso em contextualizar o público com relação à origem de Pirita (Mirjami Kuosmanen), uma bonita jovem que, em seu passado quase umbilical, já trazia consigo um envolvimento profundo com as forças do sobrenatural que se fazem presentes naquela região selvagem. Agora adulta, ela conhece Aslak (Kalervo Nissilä), um destemido pastor de renas – estas, aqui domesticadas e a serviço das atividades humanas de deslocamento e alimentação, assumem relevante peso simbólico em meio à narrativa. Ambos se casam, mas o que aparentava ter tudo para ser um relacionamento exitoso, torna-se um vazio perene, uma vez que o esposo forçosamente passa longas temporadas fora do lar.

Triste e desesperada, Pirita decide procurar um xamã com o intuito de Aslak não resistisse aos encantos de sua beleza e ficasse por mais tempo ao seu lado em casa. Para isso, ela não apenas participa de um ritual de aproximação com o sagrado primitivo, através do qual ficaria irresistível para qualquer pastor de renas, mas também deve sacrificar uma rena branca no altar do deus pedra como forma de selar aquele pacto e obter a dádiva almejada. O que se vê depois não foge àquilo esperado de um filme do gênero, já que a anunciada transformação da protagonista e as consequências resultantes disso transformam-se no mote narrativo da obra.

Vale salientar que, no caso de A Rena Branca, subjaz ao roteiro uma sagacidade ímpar, pois ele propicia uma leitura sobremaneira denotativa acerca dos acontecimentos que se sucedem com Pirita, ao mesmo tempo em que brinca, de maneira conotativa, com a metamorfose sofrida por ela a cada raiar lunar. De fato, acaba se tornando irresistível para todos os homens do povoado que lidam com as renas em seu dia a dia. Infelizmente, isso a faz entrar, conscientemente, numa espiral macabra que coloca em risco não apenas a vida daqueles indivíduos seduzidos, mas, também, a sua própria sobrevivência.

As planícies alvas e geladas das locações servem como uma luva para estabelecer o pano de fundo dessa história de tons folclóricos, pondo em miniatura o elemento humano e realçando esse lado mais imponderável e ameaçador daquilo que vem da natureza. Sem se esforçar muito, o diretor tem a seu favor, assim, as condições adequadas para o afloramento desse medo coletivo – particularmente masculino – a diante de uma criatura cuja aparência nada tinha de perigosa, mas era capaz de levar à perdição qualquer um que por ela se encantasse. É um feito e tanto, até mesmo por conta das adversidades do clima, e do que isso representava em termos do trabalho específico a ser feito considerando-se cada elemento da linguagem cinematográfica (fotografia, som, iluminação etc.), que um filme como A Rena Branca tenha saído do papel e alcançado um patamar tão elevado de qualidade técnica e narrativa. Uma obra que merece muito ser vista e devidamente reconhecida.

 Título original: Valkoinen Peura

Direção: Erik Blomberg

Ano de lançamento: 1952

País: Finlândia

Duração: 68 minutos

Disponibilidade: VK

*Recifense, 40 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígenas e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland e um perfil no Letterboxd. Integrante do Podcast Cinema em Movimento e dos sites TemQueVer Cinema e Club do Filme.

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