Por Sthefaniy Henriques*
Com distribuição da Synapse Distribution, o filme indicado a categoria de Melhor Filme Internacional estreia nos cinemas brasileiros em 29 de janeiro.
Nota: 4/5
Kaouther Ben Hania definitivamente não é um nome tão conhecido entre os cinéfilos e isso chama atenção. Mesmo com três indicações ao Oscar – duas na categoria de Filme Internacional e uma em Documentário – a diretora tunisiana ainda não recebeu o reconhecimento que, a essa altura, já deveria ter.
Não é meu objetivo fazer um estudo de caso sobre a falta de apelo de Ben Hania em Hollywood ou até mesmo nos confins do Film Twitter, este último que costuma aclamar qualquer diretor que surja fora do eixo estadunidense. Ainda assim, tenho inclinação em acreditar que os temas levantados em seus filmes simplesmente não interessam a esses grupos. Ben Hania é uma voz questionadora que não nasce no suposto “coração da democracia” (os Estados Unidos) nem em algum dos países mais “civilizados” da Europa. Ela é tunisiana, vem do Norte de África e, até seu filme mais recente, tratava de questões profundamente conectadas ao mundo árabe.
A Bela e os Cães (2017), um dos melhores filmes da década de 2010, é baseado em fatos e faz uma crítica à posição da mulher no mundo árabe. Em 2020, Ben Hania volta a se inspirar em uma história real para narrar a trajetória de um sírio que, após fugir da guerra e enfrentar a fome na Europa, decide vender a própria pele para obter um visto que lhe permita permanecer legalmente no continente. Três anos depois, lança Quatro Filhas (2023), seu trabalho mais próximo da realidade até então. Não se trata de algo “levemente baseado em fatos”, mas de uma abordagem que coloca frente a frente as próprias pessoas envolvidas no acontecimento: uma mãe em desespero após duas de suas filhas adolescentes deixarem a Tunísia para lutar ao lado do Estado Islâmico na Líbia.
Até esse ponto, a diretora abordava temas pouco conhecidos no mundo ocidental. A Voz de Hind Rajab, porém, traz à tona um conflito amplamente popular no Ocidente e que divide opiniões em dois polos extremos: a guerra entre Israel e Hamas. De um lado, há quem defenda Israel incondicionalmente; de outro, quem apoie a causa palestina e compreende a atuação do Hamas como consequência direta da própria criação do Estado de Israel. Independentemente da posição adotada, é difícil negar que as principais vítimas do conflito, em números e em sofrimento, são os palestinos concentrados em Gaza.
Nesse novo filme de Ben Hania, é a voz real de Hind Rajab – uma criança de seis anos assassinada pelo exército israelense em Gaza – que guia os acontecimentos. A diretora reconstrói a atuação dos voluntários do Crescente Vermelho, que passaram horas tentando, de todas as formas possíveis, salvar a menina. O cenário da ligação era simplesmente desolador, Hind estava no carro, com outros seis familiares, todos baleados por um tanque do exército de Israel, que disparou, no total, 335 tiros. Ela e seus familiares não foram as únicas vítimas. Yusuf al-Zeino e Ahmed al-Madhoun, paramédicos palestinos que estavam em uma ambulância para salvar Hind, foram bombardeados por forças também israelenses assim que se aproximaram do carro.

Para conduzir a narrativa, Ben Hania aposta na mesma abordagem adotada em A Bela e os Cães: uma mise-en-scène inteiramente voltada para transmitir desespero, perturbação e nervosismo, ou qualquer outra palavra que dê conta desse campo de sentimentos negativos. Os raros momentos de alívio, por exemplo, surgem justamente como consequência dessa intensidade, que traduz com precisão tanto o tom da ligação quanto o nível extremo de estresse enfrentado pelos voluntários.
O trabalho de Ben Hania se torna ainda mais incômodo – no melhor sentido – nas escolhas formais que constroem essas sensações. O filme se passa em um único cenário e conta com poucos atores, mas que, naquele ambiente, parecem ocupar espaço demais. A recorrência de corpos curvados, mesmo quando o gesto é apenas ouvir o telefone, amplia a impressão de superlotação e reforça a ideia de que há mais interferência do que ajuda no resgate. As escolhas de filmar com frequência em close-ups, valorizando as expressões dos atores, intensificam ainda mais o desespero. Somos lançados para dentro daquela situação, como se também ocupássemos um espaço a mais e, assim como eles, fôssemos incapazes de fazer algo efetivo para salvar a criança.
Com A Voz de Hind Rajab, Kaouther Ben Hania se firma de maneira dupla: como uma grande cineasta, mas também como um grande ser humano. Há em seu gesto algo que parece raro nos últimos anos: sensibilidade, a capacidade de sentir dor, empatia e de se solidarizar com aquilo que deveria tocar tudo que é humano. Hind Rajab era uma criança: inocente, desarmada e confusa, buscando por um lugar seguro para existir. Ela foi morta por homens que carregam em sua etnia/religião a marca profunda da morte de milhares de outras pessoas que, assim como ela, também eram inocentes, estavam desarmadas e igualmente confusas, fugindo da Alemanha em direção a um lugar onde pudessem simplesmente existir.
*Historiadora formada pela Universidade Federal Fluminense, professora e crítica de cinema. Administra o perfil E o Cinema Levou e participa do podcast Cinema em Movimento e do site Tem Que Ver.
***
PARTICIPE DE CONVERSAS SOBRE CINEMA E CULTURA NO NOSSO GRUPO DO WHATSAPP (Clique aqui)
SEGUE NO INSTAGRAM
Quer escrever para o TemQueVer? Entre em contato conosco através do chat de nossas redes sociais (Instagram e Facebook) ou pelo email temquevercinema@gmail.com











