ANTES DA REVOLUÇÃO (1964)

Por Felipe de Souza*

Realizado em 1964, quando Bertolucci tinha apenas 22 anos, “Antes da Revolução” é considerado uma obra semiautobiográfica, na qual o protagonista, Fabrizio, atua como um alter ego do próprio diretor. O título deriva de uma frase de Talleyrand: “Só aqueles que viveram antes da revolução sabiam como a vida pode ser tão doce”, uma epígrafe que define perfeitamente o clima de melancolia e impotência que paira sobre o longa-metragem.

A narrativa tem como foco Fabrizio (Francesco Barilli), um jovem estudante de Parma (cidade natal de Bertolucci), que pertence a uma família burguesa, mas desenvolve uma adesão apaixonada e romântica ao marxismo. A sua crise ideológica aprofunda-se com a morte trágica, provavelmente por suicídio, do seu melhor amigo, Agostino (Allen Midgette). Neste turbilhão emocional, entra Gina (Adriana Asti), a sua tia, ligeiramente mais velha, que chega de Milão com os seus próprios problemas psicológicos. Os dois iniciam um caso intenso e proibido, uma relação que serve de transgressão sexual num ambiente socialmente asfixiante. No entanto, tal como a sua revolução política, este amor também está condenado.

O romance incestuoso com a tia é a tentativa desesperada de Fabrizio de encontrar uma verdade interior e uma autenticidade que a política, por si só, não consegue fornecer. Bertolucci utiliza o corpo e a paixão como um campo de batalha onde se joga a liberdade do indivíduo, um tema que exploraria de forma mais explícita em obras posteriores como “O Último Tango em Paris” e “Os Sonhadores”. No entanto, esta relação está longe de ser idealizada; Gina é retratada como uma figura instável e complexa, e a busca por afeto é comovente em muitos momentos. A incapacidade de Fabrizio de compreender e de gerir o seu comportamento revela a imaturidade do personagem.

Um dos temas da obra é o conflito entre ideologia e classe social. Fabrizio é o arquétipo do jovem intelectual oriundo da burguesia que tenta, em vão, negar as suas origens. A sua militância no Partido Comunista é mais um gesto existencial, uma busca por um “sentido na vida” para a sua revolta individual, do que uma ação política concreta. A sua desilusão torna-se palpável durante a cena do comício no Parco Ducale, onde percebe que o partido adotou um modelo “pequeno-burguês” e que “o povo cegamente aceita o que lhe dão”, típico discurso de culpar a classe trabalhadora. Esta percepção, unida à desilusão amorosa, leva-o a uma capitulação pessimista.

A linguagem cinematográfica de “Antes da Revolução” é um manifesto estético. Bertolucci bebeu diretamente da fonte da Nouvelle Vague francesa, em particular do cinema de Jean-Luc Godard. Esta influência traduz-se numa montagem solta, que desrespeita propositadamente as regras de continuidade, criando sequências que surgem aos saltos e que quebram a linearidade. Esta opção estilística reflete o estado psicológico do protagonista e a confusão de ideias que o consome.

O filme é uma reflexão sobre a inação e o desencanto. Acaba por ser uma crítica e uma autocrítica à burguesia italiana e à sua relação com a política e a sociedade. O diretor explora a tensão entre a ideologia política e a realidade pessoal, mostrando como a luta para reconciliar as suas convicções com a sua vida privilegiada acaba por paralisar e levá-lo para caminhos conservadores. Bertolucci faz um veredicto sobre si próprio e sobre toda uma geração de jovens que, poucos anos antes dos protestos de Maio de 68, sentiam um mal-estar profundo, porém não encontravam um canal eficaz para a sua revolta. O filme é, assim, um precursor da agitação que se avizinha, mas também um diagnóstico da sua eventual falência.

Aclamado pela crítica internacional após a sua estreia na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 1964, onde conquistou o Prémio Jeune Critique. A sua reputação não parou de crescer, sendo hoje considerado um dos marcos do novo cinema italiano e sempre muito bem lembrado pelo diretor estadunidense Martin Scorsese, uma das vozes mais respeitadas do cinema mundial. O facto de Bertolucci, ainda muito jovem, ter criado uma obra de liberdade técnica e profundidade temática é um feito comparável ao de Orson Welles e outros grandes mestres.

“Antes da Revolução” é um filme profundamente relevante. A sua análise não se esgota na Parma dos anos 60, até hoje encontramos “Fabrizio’s” pela internet, armados de ideais e de uma angústia difusa, debatendo-se contra o mundo que herdaram. Bertolucci capturou com uma mestria precoce a tragédia íntima de uma pequena-burguesia que aspira a mudar tudo, mas acaba por não conseguir mudar a si mesma. É um filme sobre a doce ilusão de viver sempre no “antes”, sem nunca ter de enfrentar o fracasso ou a complexidade do “depois”. Uma obra que continua a falar, com uma voz clara e comovente, a todos os que alguma vez se sentiram divididos entre o que são e o que gostariam de ser.

*Nascido em 1989, morador de Itaguaí (RJ), militante comunista, cinéfilo, membro do podcast Cinema em Movimento e colaborador do Tem Que Ver.

O filme está sendo exibido atualmente na 20ª edição do Festival de Cinema Italiano no Brasil /2025. De 29/10 a 29/11/2025.  Toda a programação é gratuita no site.

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