Drama explora profissão inusitada no Terceiro Reich.
Por Sthefaniy Henriques*
Nota: 7
Uma das maiores questões para a História e para os próprios historiadores, é que o passado não pode ser completamente reconstruído. Dele restam apenas fragmentos que, pouco a pouco, reunimos até que comecem a fazer sentido. Podemos ler, analisar e compreender determinados períodos ou eventos, mas sempre de modo incompleto. Com o tempo, surge para nós novas evidências, que permitem preencher algumas destas lacunas, como em um quebra-cabeça interminável, que jamais ficará por completo.
A Segunda Guerra Mundial é, provavelmente, o evento histórico mais conhecido pela população mundial atual. Esse amplo conhecimento resulta da mobilização dos países envolvidos em escala global e também do impacto devastador do conflito. Foram milhões de mortes, além do uso inédito de armas nucleares e a realização do Holocausto. Embora essa guerra seja muito lembrada, explorada e pesquisada, novos pedaços sobre o evento podem ainda surgir, como aconteceu em 2012 e deu origem a história de As Provadoras de Hitler.
Adaptação do livro Na Mesa do Lobo, de Rosella Postorino, a história de origem pertence a Margot Wölk, uma mulher alemã que foi degustadora durante os últimos anos de guerra. Sobre sua profissão em tempos de conflito e sua própria história, Wölk se manteve calada até 2012, até seu nonagésimo quinto aniversário e um ano antes de vir a óbito. Existiram outras quatorze mulheres na profissão, estas que não sobreviveram para contar suas histórias, o que resultou em décadas de desconhecimento quanto a esse fragmento do Terceiro Reich em tempos de guerra.
Uma vez contextualizado, é inquestionável que, Silvio Soldini, diretor e também roteirista do filme, possuiu um material promissor em mãos, principalmente pela singularidade da profissão – se é que podemos considerar isso uma profissão – e para quem degustavam. É fácil, por fim, concluir que este trabalho fosse tão desafiador e perigoso quanto nos cercos, afinal, Hitler definitivamente adquiriu muitos inimigos em pouco tempo.
Embora o fato de degustar mova a história – está no título, capa e sinopse –, a dramatização de pôr a própria vida em risco a cada garfada acaba não sendo o grande foco narrativo. Eu, enquanto espectadora, confesso que imaginava uma produção mais próxima de O Poço, que transformaria almoços e jantares em uma espécie de roleta-russa repleta de estímulos e tensões. O filme, no entanto, me surpreendeu ao se revelar como um drama que dialoga com as convenções do romance e drama de guerra.
Essa mudança pode causar estranhamento em quem espera da premissa um suspense centrado em ‘‘qual mulher será envenenada hoje?’’. A diferença entre o que a obra aparenta vender e o que efetivamente entrega pode gerar algum distanciamento. Ainda assim, quando se supera essa expectativa inicial, o resultado é positivo. Mesmo que não aconteça envenenamentos diários, as mulheres vivem sob risco constante: trabalham para o Führer, sofrem violência nas mãos dos militares quando desobedecem e enfrentam o perigo real de morrer a cada refeição.
O filme, porém, escolhe acompanhar apenas uma delas: Rosa Sauer (Elisa Schlott). Ela é a protagonista inquestionável e, por isso, não surpreende que viva com mais intensidade que suas colegas. A produção a projeta como aquela que está mais próxima dos perigos cotidianos que vão muito além do envenenamento por comida.
Nesse contexto, o romance com um tenente nazista, o medo de engravidar, a proteção de uma amiga judia e, posteriormente, o temor de sofrer nas mãos dos soviéticos movem a narrativa de Rosa. Nesse contexto, as Provadoras de Hitler me remente bastante a Suíte Francesa, tanto pelo romance proibido quanto ao próprio redespertar emocional feminino. Embora Rosa também fosse alemã, o romance entre ela e o Tenente é posicionado como proibido, revelando assim, uma tensão clássica entre moralidade e desejo. O que leva ao segundo tópico mencionado: o redespertar emocional e sexual de uma mulher que teve seu matrimônio interrompido pela guerra e que encontrou o que necessitava nos braços de seu carrasco.
Assim, esses elementos combinam e completam a história de uma protagonista em meio a um coletivo. Faz sentido que o filme seja assim, principalmente se considerarmos as similaridades com a vida de Margot Wölk. Rosa Sauer é uma sobrevivente solitária, que testemunha a história e dissemina a memória. Algo que a mulher que deu inspirou a personagem fez, mesmo que tardiamente.
O filme está sendo exibido atualmente na 20ª edição do Festival de Cinema Italiano no Brasil /2025. De 29/10 a 29/11/2025. Toda a programação é gratuita no site.
*Historiadora formada pela Universidade Federal Fluminense, professora e crítica de cinema. Administra o perfil E o Cinema Levou e participa do podcast Cinema em Movimento e do site Tem Que Ver.
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