Por Viviane Monteiro*
Conclave palavra que vem do latim “cum clave”, que significa “fechado a chave”. Essa expressão remete à votação secreta que é realizada na Capela Sistina, no Vaticano, onde os cardeais se reúnem para eleger o novo Papa. Um fato histórico interessante e que é visto como o primeiro conclave ocorreu entre os anos de 1268 e 1271, conhecido como o “Conclave de Viterbo”, considerado o mais longo processo de escolha de um papa, durando cerca de três anos devido a divisões políticas do colégio dos cardeais. A população local, impaciente com a demora, trancou todos no mesmo ambiente e reduziu as refeições a pão e água, removendo também o telhado para forçar uma decisão. Esse evento foi responsável pela criação das regras de confinamento e sigilo nas eleições para escolha do novo Sumo Pontífice, com os anos foram atualizadas, mas manteve a essência original.
Os mistérios dos ritos religiosos que envolvem a eleição papal prendem a atenção do mundo há mais de oito séculos, e isso atraiu o interesse do diretor Edward Berger. Nascido na Alemanha, com cidadania suíça e austríaca, Berger é conhecido por filmes como “Jack” (2014), “Todo o Meu Amor” (2019) e “Nada de Novo no Front” (2022), além de séries como “Deutschland 83” (2015) e “Patrick Melrose” (2018). Em 2024, ele lança “Conclave”, um filme que explora esse mundo de segredos e poder. Por Conclave, Berger recebeu diversos reconhecimentos, incluindo sua primeira indicação ao Globo de Ouro de Melhor Diretor e um prêmio BAFTA de Melhor Filme Britânico. Sendo sua primeira estreia numa produção em inglês.
O cineasta possui trabalhos marcados por focar mais em temas humanistas, trauma de guerra, questões sociais e políticas. Uma direção caracterizada por um método meticuloso e realista, com foco na criação de uma atmosfera tensa e imersiva que coloca o público diretamente na perspectiva dos personagens. Frequentemente utiliza uma abordagem subjetiva, como a câmera próxima ao rosto do protagonista, para forçar o público a se identificar com a experiência interna do personagem.
Em Conclave, sua precisão e planejamento rigorosos ficam bem evidentes nas questões técnicas, design de produção e figurino, são alguns dos elementos que se destacam com perfeição. Apresenta também uma perspectiva estruturada em vez de filmagens espontâneas. Desenvolvendo bem os momentos da fé ou falta dela em situações que precisa conectar cada elemento visual e temático envolvidos no jogo de poder entre os cardeais.
Baseado no romance homônimo de Robert Harris (2016), apresenta um roteiro de Peter Straughan que se desdobra em um drama e suspense político-eclesiástico. Com uma mistura de ficção e precisão ritualística, a trama explora as intrigas, segredos e disputas de poder dentro do Vaticano durante a eleição de um novo Papa, funcionando como um verdadeiro thriller político.
Com a morte repentina do Papa, o cardeal Lawrence (interpretado por Ralph Fiennes) é incumbido da árdua tarefa de organizar o Conclave e reunir um grupo de sacerdotes para eleger o novo Papa. Ao caminhar pelos corredores do Vaticano, rodeado por cardeais de todo o mundo, Lawrence se depara com as intrigas, conspirações e jogo de poder, que levam a reviravoltas muito bem conduzidas pela direção de Edward Berger, que consegue manter o clima de suspense até os momentos finais da história.
Embora “Conclave” seja uma obra de ficção, é uma adaptação do livro homônimo de Robert Harris, que se aprofundou em pesquisas sobre o processo de eleição papal e as dinâmicas políticas da Igreja Católica. Alguns personagens têm traços inspirados em figuras reais, como o cardeal Aldo Bellini (inspirado em Giovanni Benelli) e o cardeal Goffredo Tedesco (inspirado em Raymond Leo Burke). Em maio de 2025, Harris concedeu uma entrevista à NPR (National Public Radio/Estados Unidos), relatando suas observações sobre as dinâmicas políticas e os tipos de cardeais: conservador, liberal e outsider (alguém não favorito a se tornar Papa). Essas categorias inspiraram os personagens de sua obra.
Harris reforça que, embora o livro contenha elementos reais do processo eleitoral papal, a narrativa e os eventos de “Conclave” são ficcionais. No prefácio, ele negou que o papa fictício tenha sido baseado no Papa Francisco, reconhecendo apenas similaridades, e citou João Paulo II e Bento XVI no livro.
Um ponto importante do filme está em sua trilha sonora incrível, composição de Volker Bertelmann, que utilizou o cristal baschet, um instrumento acústico, para tocá-lo; os músicos esfregam hastes de vidro suavemente, friccionando com as pontas dos dedos molhadas. A intenção era experimentar instrumentos menos conhecidos, evitando assim que a música se tornasse clássica ou sacra. O Cristal Baschet já foi usado em várias outras músicas de filmes como “A Marcha dos Pinguins” (2005), “Tráfego” (2000), “Solaris” (2002) e “O Testamento de Orfeu” (1960).
O elenco de “Conclave” entrega atuações impressionantes. Ralph Fiennes brilha como um cardeal dividido entre a articulação política e o futuro do Vaticano. O restante do elenco, incluindo Stanley Tucci, John Lithgow, Sergio Castellitto e Isabella Rossellini, também se destaca, revelando a vulnerabilidade dos líderes eclesiásticos às intrigas e abusos de poder dentro do Vaticano. Juntos, eles entregam desempenhos que expõem os véus da instituição.
Por falar em Isabella Rossellini, é importante destacar o seu papel como Irmã Agnes, a governanta e chefe de serviços de alimentação dos cardeais. Ao pensarmos em outras produções sobre os bastidores do Vaticano, em que muitas apresentam uma abordagem diferente em relação à participação da figura da mulher no ambiente que envolve a igreja, temos “As Sandálias do Pescador” (1968), “O Conclave” (2006), “Dois Papas” (2019), “O Nome da Rosa” (1986), “Anjos e Demônios” (2009), “Habemus Papam” (2011) e “Amém” (2002). Filmes em que os personagens femininos pertencentes à Santa Sé não apresentam uma participação ativa, em muitos casos nem aparecem figuras femininas em cena, obras em que as narrativas giram todas em torno dos personagens masculinos. Talvez esse seja o grande diferencial de “Conclave” (2024), uma freira que trabalha no Vaticano durante o tumultuado processo de eleição de um novo Papa. Seu olhar, mesmo nos silêncios, tem algo a nos dizer, um ambiente em que se ressalta muito bem a sociedade patriarcal do Vaticano e o papel submisso das mulheres, que estão presentes, mas nunca falam, são como sombras em cada ambiente. Circulam pelo filme sem dizer uma palavra, como seres invisíveis, mas, quando há pequenos espaços de falas, têm força. Mulheres que não podem votar, nem se tornar Papa ou mesmo Cardeais, não fazem parte da luta pelo poder, mas ainda assim têm grande autoridade quando é necessário no filme. Num universo de 120 cardeais, homens vestidos de vermelho de seus trajes eclesiásticos, fazendo manobras políticas em busca do cargo mais importante da Igreja Católica. Uma monarquia absoluta teocrática de um país, que assume grande influência local e de orientação religiosa em cerca de 1,4 bilhão de fiéis católicos no mundo, algo que representa aproximadamente 17,7% da população global; isso é muito poder em jogo.
Ao assistir ao filme Conclave, foi quase impossível não fazer um paralelo sobre as reformas realizadas pelo Papa Francisco ao longo do seu pontificado, quanto à participação das mulheres na Igreja Católica, com destaque para a abertura de novos cargos de liderança no Vaticano e, em 2023, a permissão histórica para que mulheres votassem no Sínodo dos Bispos. Houve também autorização para as funções litúrgicas como leitoras e distribuidoras de Eucaristia. Mesmo com tantas aberturas, ainda manteve a proibição do sacerdócio feminino, focando na “dimensão feminina” e “mariana” da Igreja, apesar das pressões por mudanças mais amplas.
Há lendas medievais acerca de mulheres assumindo cargos na igreja, mas para isso elas se vestiam de homens com o objetivo de obter uma educação universitária, algumas conseguindo destaques acadêmicos, como no caso da lenda sobre a primeira mulher papisa que chamava a si mesma de John (João). Era uma mulher educada e inteligente que se disfarçou de homem para ascender na hierarquia da Igreja Católica e se tornou Papa no século IX. A história conta que Joana foi eleita Papa entre 855 e 857, mas seu papado foi interrompido quando foi descoberto que era uma mulher, inclusive dando à luz em público. Algumas versões da lenda dizem que ela pode ter morrido por assassinato ou talvez por causas naturais. Todo o pontificado dela teria durado dois anos.
Embora a maioria dos estudiosos rejeite a história e trate tudo como uma ficção, o que se sabe é que essa lenda da Papisa Joana foi usada ao longo dos séculos como uma ferramenta para criticar a Igreja Católica e o poder de Roma, mas também como uma forma de advertência para as mulheres que desafiam os papéis tradicionais. Há exemplos de filmes como a produção alemã “A Papisa Joana” (2009) e “Joana, a Mulher que Foi Papa” (1972). Recentemente, o drama francês “Disfarce Divino”, de 2023, dirigido por Virginie Sauveur, traz a descoberta de que um padre falecido era, na verdade, uma mulher que atuou por anos, chocando a diocese local.
Conclave me deixou refletindo por um bom tempo, vi o nosso sistema político espelhados nos acordos entre os cardeais, o que no filme chamam de simonia (uma prática eclesiástica medieval que envolvia a compra e venda de bens de natureza espiritual, incluindo cargos eclesiásticos), aqui no Brasil podemos chamar de emendas parlamentar ( uma forma de destinação de recursos do orçamento público) os parlamentares direcionam os recursos para obras e projetos específicos em suas bases eleitorais nos Estados, muito importante para se reeleger em cada ano eleitoral, e para conseguir tais recursos há diversos jogos políticos na liberação do dinheiro, desde barrar votações, retirar temas de pautas, votar projetos polêmicos, entre outros, tudo para forçar o governo a liberar cada vez mais recursos. Nesse meio há trocas de cargos no governo federal, acordos para alinhamentos com as bases aliadas; nem o céu é o limite em ambos os casos.
Assim, temos em Conclave uma comprovação de como a sétima arte pode ser uma ferramenta de conscientização poderosa, capaz de trazer provocações a respeito de política, gênero, sociedade e da importância de mudanças e adaptações em sistemas tradicionais e por vezes arcaicos. Ao refletir sobre transformações sociais, o filme se apresenta como um espelho para a realidade, questionando o status quo e desafiando o espectador a pensar criticamente.
*Psicóloga pela Universidade Federal de Alagoas. Atua como psicóloga clínica e defensora do SUS, dos movimentos sociais e da educação pública. Integra o podcast Cinema em Movimento e o Tem Que Ver.
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