Uma joia em homenagem às mulheres, à arte do figurino e ao poder do cinema.
Por Viviane Monteiro*
Diamantes (em italiano: Diamanti) é um filme italiano de comédia dramática de 2024, coescrito e dirigido pelo turco-italiano Ferzan Özpetek, que se inspirou em seu início de carreira como assistente de direção, quando costumava visitar a Sartoria Tirelli, uma renomada casa de figurinos de cinema italiana, conhecida por criar figurinos icônicos para filmes como “O Leopardo”(1963) e “Ludwig Ludwig – A Paixão de um Rei”(1963), e liderada pelo famoso figurinista italiano Piero Tosi.
Özpetek é um cineasta que produz muito, e “Diamantes” marca o décimo quinto filme de sua carreira, escrito em parceria com Carlotta Corradi e Elisa Casseri. Estreou com grande sucesso na Itália, tornando-se a obra de maior reconhecimento comercial do diretor até o momento. O filme recebeu duas indicações ao prêmio David di Donatello e ganhou o David dello Spettatore, um prêmio atribuído ao filme mais querido pelo público.
A obra cinematográfica consiste em uma comédia dramática que homenageia as mulheres e atrizes que marcaram a vida e trajetória profissional do diretor. As filmagens ocorreram em Roma, de julho a agosto de 2024, e estreou nos cinemas em dezembro. A produção ficou a cargo da GreenBoo Production, Faros Film e Vision Distribution, com o apoio do Ministério da Cultura Italiano. Tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria na Itália em 2024.
Ferzan Özpetek dedica o filme Diamante a três grandes atrizes italianas, Mariangela Melato (“A Classe Operária Vai para o Paraíso”, 1971), Virna Lisi (“O Segredo de Santa Vitória”, 1969) e Monica Vitti (“O Fantasma da Liberdade”, 1974). Sendo uma celebração ao extraordinário talento e influência que tiveram na sétima arte.
Uma trama ambientada entre os dias atuais e a década de 1970, em que um diretor reúne atrizes para ler o roteiro de seu próximo filme. A respeito das vidas de um grupo de costureiras que estão ligadas às irmãs Alberta e Gabriella Canova, donas de uma prestigiada empresa de figurinos cinematográficos em Roma.

Com a narrativa girando em torno do dia a dia delas e de seus relacionamentos amorosos, histórias que constituem aquele microcosmo feminino, ao passo em que enfrentam os desafios diários com determinação, coragem, paixão e determinação a cada novo projeto de alfaiataria que chega ao ateliê. Uma dinâmica repleta de tensões nas criações de figurinos para o cinema, mas também com grande demanda para atender aos espetáculos de teatro. Tudo se torna mais estimulante com a chegada de uma figurinista vencedora do Oscar, encarregada de criar figurinos para um grande filme de época.
Destaque para o equilíbrio entre as atuações, Ozeptel consegue trabalhar bem na distribuição do elenco, fazendo com que cada história tenha seu tempo de tela e desenvolvimento sem deixar lacunas, ou uma narrativa com drama excessivo. Estamos falando de 18 atrizes de renome, e cada uma com personagem importante. Todo o elenco consegue estar bem em cena, desde as intérpretes das irmãs Canova, as costureiras, até mesmo as pequenas participações dos homens, onde eles são inseridos como coadjuvantes ou até figuras caricatas.
Para contar a história de Diamanti, o cineasta resolveu fazer uso da técnica chamada de “narrativa enquadrada”, também conhecida como “Mise en abyme”, um termo francês que significa “narrativa em abismo”, trata-se de um filme colocar uma cópia de uma outra obra dentro de si mesmo. No caso de Diamanti, é um filme dentro de outro filme, que pode ser notado com a leitura de um roteiro de um filme assim que somos apresentados aos personagens. Algo comum de encontrar em outras produções, como nos filmes ” 8¹/² “(1963), de Federico Fellini, em que um diretor que sofre de bloqueio criativo tenta fazer um filme, e o filme que ele está tentando fazer é o próprio filme que estamos assistindo, ou em “A Noite Americana” (1973), de François Truffaut, que faz um filme sobre os bastidores da produção de um filme, apresentando as dificuldades e complexidades que envolvem um processo de filmagem. Em Diamanti, temos a leitura do roteiro por um diretor e um grupo de atrizes, e o cinema é contado sob a perspectiva dos figurinos, desde as criações dos esboços, dos desenhos, da composição e inspiração para os tecidos, assim como as texturas e cores que vão contribuir para a representação das personalidades dos personagens na cena de um filme ou peça de teatro.
Em linguagem cinematográfica, Özpetek opta por utilizar tomadas de plano fechado (close-up médio) para abordar os conflitos das irmãs Canova e faz escolhas por planos gerais para captar as costureiras nos momentos de leveza durante as refeições, assim como também quando se despedem para voltar para suas residências. Vale ressaltar o uso de paletas de cores vibrantes nos figurinos criados por elas ao longo do filme.
O longa consegue explorar temas variados e alcançar assuntos que vão desde o luto, mãe solo, violência doméstica, sororidade, etarismo, manifestações políticas nas ruas, saúde mental, feminismo, além de outros subtemas importantes. Segundo Mohsen Makhmalbaf, renomado cineasta, escritor e ativista iraniano, o cinema possui a capacidade de redirecionar o olhar do espectador, levando-o a refletir sobre si mesmo e a questionar suas crenças. Essa mudança de perspectiva permite que a sociedade se reconheça na tela, promovendo a introspecção e o autoconhecimento, o que pode gerar transformações profundas, tanto individuais quanto coletivas. Ao se deparar com sua própria imagem, o público é levado a analisar criticamente suas realidades e preconceitos, o que pode resultar em mudanças significativas.
“Diamanti” não é somente um título para o filme, representa cada uma daquelas mulheres. Um cristal do mais duro material de ocorrência natural existente na natureza, que vai ao longo do tempo sendo lapidado, se tornando pedras preciosas e que possuem um alto valor.
O filme está sendo exibido atualmente na 20ª edição do Festival de Cinema Italiano no Brasil /2025. De 29/10 a 29/11/2025. Toda a programação é gratuita no site.
*Psicóloga pela Universidade Federal de Alagoas. Atua como psicóloga clínica e defensora do SUS, dos movimentos sociais e da educação pública. Integra o podcast Cinema em Movimento e o Tem Que Ver.
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