Hedda

Nia DaCosta e Tessa Thompson reafirmam sintonia em nova colaboração

Por Sthefaniy Henriques*

NOTA 7

As pessoas têm uma ideia do que você é capaz, mas nunca imaginam até onde você pode chegar para conseguir o que deseja. Essa frase resume bem a impressão que os outros personagens têm da protagonista, Hedda (Tessa Thompson). No entanto, essa percepção não é universal, ela se restringe ao olhar das figuras do universo fílmico. Nós, espectadores, ao contrário, sabemos exatamente do que Hedda é capaz e as ambições que alimentam suas ações.  

O filme se passa em apenas um cenário, em um período de poucas horas. Hedda e seu marido, George (Tom Bateman), ofertam uma festa para uma sociedade nobre, intelecual, mas também para boêmios associados a Hedda. Embora abrir as portas de sua casa seja, por si só, um ato de interesse do anfitrião da época – seja para ser bem visto e etc; existe um objetivo muito claro no evento: garantir que George se torne um professor universitário. Embora seja encarado por ambos como um emprego garantido, a festa seria um evento para confirmar seu favoritismo indiscutível ao cargo.

O interesse é gravemente perturbado quando Eileen Lovborg (Nina Hoss) marca presença no evento. Lovborg, além de ex-amante de Hedda, é a principal concorrente de George pelo emprego. Com um livro promissor prestes a ser lançado, uma nova parceira romântica, sóbria há três meses e se tornando uma grande favorita pelo cargo, Eileen provoca Hedda desde sua simples presença a ignorância de subestima-la.  Em um determinado momento, Eileen afirma que Hedda não está mais no poder e isso dá inicio a uma noite onde os acontecimentos são decorridos justamente devido ao contrário. Hedda está no poder e, embora repleta de emoções, calcula bem seus atos.

Nesse contexto, compreende-se que, desde o início, o espectador já sabe quem é Hedda – embora suas atitudes ao longo do filme ainda possam causar alguma surpresa, o que, sinceramente, considero difícil. Assim, o filme deixa claro, desde o princípio, o tom que pretende adotar: direto, transparente em relação às intenções e à natureza de sua protagonista. Com isso, Nia DaCosta, a diretora, se distancia de filmes como Garota Exemplar ou A Criada, cujas protagonistas são apresentadas sob o olhar de terceiros, tendo sua natureza e seus interesses revelados apenas no ponto de virada na narrativa. Em vez disso, DaCosta aproxima-se de narrativas como a de A Favorita, de Yorgos Lanthimos, que assume desde o início essa disputa de poder, sem deixar margem para duvidarmos das intenções e da astúcia de suas personagens. Porém há uma grande diferença entre ambos filmes: Na produção de DaCosta, não há quem disputar com Hedda.

DaCosta deixa claro que Hedda tem total controle sobre todos e que todas as complicações da noite são causadas pelos seus atos em relação a terceiros: eles perdem a cabeça, eles se prejudicam. No entanto, deixo claro que não estamos diante de uma personagem odiosa. Pelo contrário, Hedda é um encanto e supreendentemente humana, fazendo uma combinação perfeita com o ambiente ao seu redor. Se DaCosta cria um ambiente de glamour – embora de fachada para alguns – e investe na captura de vícios e transgressões durante a noite, isso também é sobre Hedda. A protagonista combina com o ambiente criado, dá vida a ele – seria uma profunda ofensa sequer mencionar a palavra realimentação entre ambos, inclusive. E embora tenha dedo de toda uma equipe, quando em tela, o resultado é que aquele mundo só existe porque Hedda existe, que aquele glamour e as transgressões só existem porque Hedda os criou.

Esse definitivamente é o grande acerto de DaCosta. Embora a cena inicial me contradiga, defendo que o filme não é sobre quem atirou e quem foi alvejado, muito menos um suspense onde esses indícios serão buscados o tempo inteiro. O filme é sobre Hedda, uma bon-vivant às escondidas e alpinista social, que entendeu muito bem o mundo das aparências onde vive, que os segue, mas sem deixar os seus prazeres carnais e materiais de lado. 

*Formada em História pela Universidade Federal Fluminense e crítica de cinema. Por meio da página E O Cinema Levou (@eocinemalevou) no Instagram, discute a relação da História com o Cinema a partir de filmes.

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