La Vita de Grandi

Um curso intensivo, terno e comovente, sobre como se tornar um “adulto”.

Por Viviane Monteiro *

O filme italiano “La Vita de Grandi”, no Brasil, “Irmão”, é a estreia da cineasta Greta Scarono, conhecida por inúmeros papéis como atriz em filmes e séries italianas. Em seu currículo, ainda conta com a direção do premiado curta-metragem ” Feliz Navidad” (2022). Seu primeiro longa é inspirado na história real dos irmãos Margherita e Damiano Tercon. A diretora conheceu a história deles em 2020, quando viu na TV a audição para o programa Italia’s Got Talent e depois procurou o livro sobre a história dos irmãos Tercon, que tem o título de “Mia sorella mi rompe le balle” (traduzido para o português como “Minha irmã me enche o saco”), publicado em 2020 pela editora italiana Mondadori. A autobiografia impressionou Greta, que decidiu fazer a produção cinematográfica sobre os mesmos. O filme venceu dois Nastri D’ Argento em 2025, prêmio importante de cinema na Itália, Greta Scarono como melhor diretora estreante e melhor ator comédia para Yuri Tuci, teve uma boa recepção desde o lançamento, conquistando o público e alguns críticos da sétima arte.

A trama acompanha a história de Irene, interpretada por Matilda De Angelis, que é obrigada a voltar à cidade natal para cuidar de seu irmão Omar, um jovem diagnosticado com autismo, um homem gentil, sábio, direto, que adora dirigir, e escapa à noite para cantar trap  em espaço para apresentações de amadores, enquanto sonha em casar, ter três filhos, e participar de um grande show de talentos na TV. A relação dos irmãos torna-se mais próxima quando os pais precisam se ausentar para fazer exames médicos. Nesse meio tempo de uma semana, Irene tenta ensinar ao irmão o que significa ser “adulto”, pois Omar sempre foi muito dependente dos pais em tudo.

Com a chegada de Irene, começa um curso intensivo e emocionante, em que juntos, descobrem que às vezes é preciso dois para amadurecer. Mesmo relutante no início, Irene, nesse processo, acaba descobrindo novas verdades sobre si mesma e a respeito da vida, uma relação que viaja por memórias da infância que refletem as escolhas da vida adulta.

A atriz Matilda De Angelis está muito bem no papel de Irene, mas é interessante destacar a atuação do talentoso ator Yuri Tuci como Omar, que assim como o personagem no filme também tem autismo, e traz uma atuação tocante e com sensibilidade, além de leveza para as cenas de humor. O elenco ainda conta com grandes nomes do cinema italiano como Adriano Pantaleo, Maria Amelia Monti e contou com a participação do diretor Ferzan Özepetek, um dos maiores nomes do cinema italiano atual, conhecido por filmes como “Diamante” (2024) e “A Janela da frente” (2003).

A estreante cineasta conseguiu equilibrar os conflitos e afetos, os medos e descobertas nas camadas que compõem as relações familiares, sem deixar de lado o tema principal, tudo de forma leve, sem estereótipos ou clichês. Um bom trabalho de direção, que coloca “La Vita de Grandi”/ “Irmão” na lista dos filmes mais sensíveis sobre a temática de inclusão de pessoas com autismo dos últimos anos.

Para além do filme, as impressões ao acompanhara a vida e rotina do personagem Omar, somos colocados diante do diagnóstico de autismo. O filme não diz qual o nível de suporte do Transtorno do Espectro Autista (TEA) que ele tem, porém, pelas características, aos poucos vamos notando na dinâmica com os pais e com a chegada da irmã, como Omar socializa e entende a vida. O personagem tem autismo nível de suporte 1, que é considerado o mais leve, e até 2012 poderia ser encontrado no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) como a Síndrome de Asperger,  com a atualização do DSM-5,  a referida síndrome foi retirada como diagnóstico separado em 2013, e unificada às diferentes condições autistas sob o guarda-chuva do TEA (Transtorno do Espectro Autista), sendo a condição agora classificada como TEA de Nível 1, ou seja, nível 1 de suporte, podendo ser caracterizado por dificuldades sociais e padrões de comportamento restritos, mas sem atraso na linguagem. Os indivíduos apresentam inteligência média ou acima da média e não apresentam atraso significativo na fala.

Então, caro leitor, em algum momento você pode se deparar com outros filmes que trazem a nomenclatura de Síndrome de Asperger, e em outros a nomenclatura de Autismo nível de suporte 1, eles serão equivalentes. Um exemplo clássico é o filme de animação Mary e Max – Uma Amizade Diferente (2009), que utiliza a nomenclatura Síndrome de Asperger para o personagem Max.

Deixo por fim uma passagem do filme em que Omar, num diálogo com a irmã Irene, desabafa: “As pessoas pensam que nós, autistas, não gostamos de pessoas, mas não é bem assim, às vezes nos isolamos para fazer nossas coisas, como todo mundo.”

O filme está sendo exibido atualmente na 20ª edição do Festival de Cinema Italiano no Brasil /2025. De 29/10 a 29/11/2025.  Toda a programação é gratuita no site.

*Psicóloga Clínica, Alagoana , Cinéfila e integrante do Podcast Cinema em Movimento.

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