Neocolonização em Cena e o Genocídio na Faixa de Gaza

A necropolítica e a neocolonização ocidental tendo Israel como protagonista

Por Álvaro Nicotti¹

No dia 7 de outubro de 2023, Israel foi vítima de um atentado terrorista de autoria do grupo político extremista Hamas. Foram mais de mil vítimas e centenas de pessoas sequestradas. Logo em seguida, o Estado sionista criado em 1948 revidou o atentado em uma ofensiva sem precedentes na Faixa de Gaza, atacando por ar, terra e mar, desrespeitando, inclusive, diversos tratados e convenções internacionais — com bombardeios em campos de refugiados, hospitais e escolas.

Além disso, Israel manteve a Faixa de Gaza em isolamento total por meses, deixando mais de dois milhões de pessoas sem acesso a luz, água, comida e combustível. Ao longo do conflito, estima-se que mais de 180 mil palestinos foram mortos (a maioria mulheres e crianças) e cerca de 60 mil ficaram feridos, segundo dados atualizados de organizações humanitárias independentes.

Para muitos especialistas — e também para este que vos escreve — o atentado do Hamas foi o estopim que permitiu a Israel, sob o comando de sua extrema direita encabeçada por Benjamin Netanyahu, avançar em ações de caráter neocolonialista na região, sob o discurso de autodefesa.

A neocolonização que ocorre no território da palestina está vinculada a todos os aspectos que envolvem e caracterizam a necropolítica com base no biopoder. A questão da ocupação de espaços é de diferença religiosa, de raça, de poder aquisitivo e poder econômico e cultural. Esta discrepância, somado a fatos históricos peculiares envolvendo dois povos distintos gera legitimidade no direito de matar de forma discriminada, alimentando e prolongando um conflito em um tempo eterno. Em relação a esta banalização da morte e a violência na região, Mbembe² elucida que:

a ocupação colonial contemporânea é uma concatenação de vários poderes: disciplinar, biopolítico e necropolítico. A combinação dos três possibilita ao poder colonial dominação absoluta sobre os habitantes do território ocupado. (…)A forma mais bem sucedida de necropoder é a ocupação colonial contemporânea da Palestina.

 Achille Mbembe continua dizendo que;

Viver sob a ocupação tardo-moderna é experimentar uma condição permanente de “estar na dor”:… interrogatórios e espancamentos; toques de recolher que aprisionam centenas de milhares de pessoas em suas casas apertadas todas as noites desde o anoitecer ao amanhecer;… ossos quebrados; tiroteios e fatalidades – um certo tipo de loucura.

Ainda aqui, se faz importante destacar o contexto geopolítico da região e a forma em que Israel entra na história contemporânea no oriente médio.  Segundo o professor Leonardo Sacramento, professor de educação básica e pedagogo do IFSP, Israel é uma invenção anglo-saxônica, instrumentalizada recorrentemente ao longo das décadas por EUA e Inglaterra. Segundo ele, o sionismo é uma forma da supremacia racial branca e europeia sobre os árabes. Um instrumento dos interesses capitalistas e ocidentais sobre o Oriente Médio.          

Por fim, o mais importante: tudo isso é por poder econômico, território e recursos naturais e quem está pagando com suas vidas e seu futuro são as crianças, a população civil e a natureza.

Genocídio em curso

Há um genocídio em curso na Faixa de Gaza. São dezenas de milhares de pessoas mortas, em sua maioria mulheres e crianças, e muitas outras dezenas de milhares de feridas. Diga-se aqui feridas aquelas que ficam sem braços, sem pernas — crianças que sobrevivem sozinhas após verem suas famílias inteiras destruídas.

No dia 20 de fevereiro de 2024, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, se pronunciou comparando o genocídio em Gaza ao Holocausto — sendo o primeiro líder mundial a fazer um discurso forte contra o governo de extrema direita de Israel. O pronunciamento gerou reações internacionais, mas recolocou os holofotes sobre as atrocidades cometidas nesta guerra insana. O genocídio deve parar.

Tratado de paz e cessar-fogo (outubro de 2025)

Após dois anos de conflito e inúmeras tentativas fracassadas de mediação, em 10 de outubro de 2025 entrou em vigor um cessar-fogo total entre Israel e o Hamas, resultado de uma proposta elaborada e mediada por Estados Unidos, Egito, Catar e Turquia.

O acordo foi formalmente ratificado na Cúpula de Sharm El-Sheikh (Egito), em 13 de outubro de 2025, com a assinatura da “Declaração de Paz e Prosperidade Duradoura” (Trump Declaration for Enduring Peace and Prosperity).

A seguir, filmes que trazem o tema da neocolonização na região da Palestina e o dia dia dos povos envolvidos³.

No Other Land (2024, Palestina / Noruega)
Documentário que acompanha Basel Adra, jovem ativista palestino que registra a destruição de sua aldeia natal, Masafer Yatta, na Cisjordânia. Em meio aos despejos e demolições promovidos por Israel, surge uma improvável parceria com um jornalista israelense para denunciar as violações dos direitos humanos.

Salt of This Sea (2008, Palestina / França / Israel / EUA / Holanda / Espanha / Bélgica / Suíça)
Soraya, palestina-americana, retorna à terra de origem de sua família para reivindicar o que foi tomado em 1948. Ao lado de um jovem local, ela desafia fronteiras físicas e simbólicas em busca de identidade e justiça.

Inch’Allah (2012, Canadá / França)
Chloé, médica canadense, trabalha entre Jerusalém e Ramallah. Testemunhando diariamente os efeitos da ocupação sobre civis palestinos, ela se vê dividida entre o dever profissional e as contradições éticas do conflito.

Nascido em Gaza (2014, Espanha / Palestina)
Documentário de Hernán Zin que acompanha a vida de dez crianças durante e após a ofensiva israelense de 2014 sobre a Faixa de Gaza. Um olhar sensível e contundente sobre o impacto da guerra na infância palestina.

Lemon Tree (2008, Israel / Alemanha / França)
Salma, viúva palestina, enfrenta o governo israelense para salvar o seu pomar de limoeiros, ameaçado por medidas de segurança após a mudança do Ministro da Defesa para a casa vizinha. Uma história simbólica sobre resistência, dignidade e fronteiras.

O Coração de Jenin (2008, Alemanha / Palestina)
Após perder o filho em um tiroteio com o exército israelense, o palestino Ismail Khatib decide doar os órgãos do menino a crianças israelenses. O filme acompanha o gesto e suas repercussões, revelando a humanidade em meio ao conflito.

Gaza Fights for Freedom (2019, EUA / Palestina)
Dirigido pela jornalista Abby Martin, o documentário mostra a Grande Marcha do Retorno, protestos de 2018 em Gaza, e denuncia as condições de vida sob bloqueio, apresentando testemunhos diretos de palestinos.

It’s Better to Jump (2013, EUA / Palestina)
Filmado na cidade murada de Acre (Akka), o documentário aborda a luta dos palestinos que permanecem em Israel para preservar sua cultura e identidade diante da pressão do turismo e da gentrificação.

Miral (2010, Reino Unido / Israel / Itália / França / Índia)
Inspirado em uma história real, acompanha quatro mulheres palestinas, especialmente Miral, jovem criada em um orfanato de Jerusalém que cresce em meio à ocupação israelense e à luta por autodeterminação.

Gaza Surf Club (2016, Alemanha / Palestina)
Entre os escombros e o bloqueio, jovens palestinos encontram liberdade nas ondas do mar. O filme retrata o surfe como forma de resistência e esperança em meio ao cotidiano restrito da Faixa de Gaza.

Naila and the Uprising (2017, Palestina / EUA)
Documentário animado que reconta a Primeira Intifada a partir da perspectiva de Naila Ayesh e outras mulheres palestinas que tiveram papel fundamental na resistência civil e na organização popular.

Palestina (2002, Brasil)
Documentário de Omar Naim e Marcelo Masagão que aborda o cotidiano de refugiados palestinos e as narrativas em torno da diáspora e da luta por território e identidade.

Valsa com Bashir (2008, Israel / França / Alemanha / EUA / Finlândia / Suíça / Bélgica / Austrália)
Animação documental de Ari Folman em que o diretor tenta recuperar as memórias perdidas de sua participação na Guerra do Líbano de 1982 e no massacre de Sabra e Shatila. Um mergulho psicológico sobre memória, culpa e trauma coletivo.

¹ Professor, pesquisador e editor do site TemQueVer

² filósofo e cientista social camaronês responsável por cunhar o termo necropolítica. Traz o entendimento de Estado, soberania e política sob a ótica de Biopoder. 

³ Filmes disponíveis na Netflix e no Youtube com legendas

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