O Amor Sangra (Crítica)

O impacto do tempo-instante num cenário avaliativo atemporal

Por: Breno Matos*

Apesar da diversidade de estilos e abordagens ao longo do século cinematográfico, que abrange as décadas de 1920 a 2020, percebe-se que as gerações se adaptam e reorganizam em relação ao que foi feito e ao que ainda está por fazer. O contraste entre o antigo e o novo reflete mais sobre a sociedade avaliadora do que sobre o conteúdo em si. Os anos 60 sem dúvidas marca um período sombrio para o cinema mundial, ao que se refere a tendência de estilos; cineastas como Bergman, Antonioni, Fellini, e outros tantos franceses da famigerada Cahiers du Cinéma, trouxerem uma visão um tanto quanto “pessimista” do mundo abordado, sejam críticas e temáticas externas ou internas, seja da própria psique humana, ou das tendências prejuciais da sociedade com relação a arte e/ou a vida. Uma insatisfação com a sua realidade. Os anos 70 ainda perdurariam com essa tendência deprimida no cinema, inclusive, é nesse período que surge o conhecido “mal-estar” americano dentro do movimento da nova hollywood. Mas só então, na década 80, temos uma virada, ao que no Brasil conhecemos parte desse movimento como um cinema maneirista, com grandes influências asiáticas como John Woo, Tsui Hark, mas também nomes como Carpenter, De Palma entrariam nesse meio, até mesmo o sanguinolento e magistral Dario Argento, em busca de uma “nova” forma de cinema que, ainda abordando assuntos complexos sérios, a narrativa abordada era mais leve. Mais exageros. Mais humor. Um nível de escapismo que era comumente encontrado no cinema dos anos 30 e 40 em autores como Hitchcock, Preminger, Tourneur, Powell, entre outros. Um cinema que abraçasse a questão alegórica e ficcional da obra como se faziam os teatros. Com todos os seus exageros, limitações e faz-de-conta. O nível de seriedade e verossimilhança foi colocado a prova novamente com uma simples questão; realmente é necessário que as obras sejam assim tão realistas? Só se pode brincar com a realidade da obra em questão se o gênero for fantasia? Tudo não se resume em ficção, seja dramático ou não? Shakespeare já não o fazia há mais de 500 anos atrás a mesma coisa na literatura e era valorizado por isso? Quem dirá Dickens, Wilde, Orwell, e por ai vai.

Acredito que nossa cineasta em questão, Rose Glass, decide, de forma consciente ou não, adentrar esse meio que hoje se encontra semelhante ao início dos anos de disco. A seriedade que o cinema vem tomando ao longo dos últimos anos, e o retrospecto que se tem das repetições que as gerações causam em si mesmas no intuito de evoluir, como sugeriu Gabriel García Márquez na literatura, é favorável imaginar que o cinema atual se encaminhará para uma nova leva de filmes menos densos com o tratamento de suas temáticas, ainda que as aborde de forma profunda, o escapismo e os exageros tenderão a retornar. Ainda mais agora com o acesso e a popularidade, e por que não a influência do cinema indiano surgindo. “O Amor Sangra” é mais uma mostra de que essa força para uma nova mudança num cenário maior está para acontecer. Não que a obra por si só tenha essa força, nem mesmo a cineasta, no meu ponto de vista, mas ao que tudo indica, Glass fará parte desse novo movimento, ainda que cíclico dentro da sétima arte.

Mas sobre o que se trata sua nova obra? O filme acompanha a história da impaciente e isolada Lou, que é gerente de uma academia. Num determinado momento se vê num envolvimento amoroso com Jackie, uma aspirante a fisiculturista. E como é de se esperar, algo acontece: um ato de fúria impulsivo as colocará em um caminho de sangue e vingança. Mas o que tudo isso tem a ver com a reflexão acima sobre as décadas e estilos. Bom, os filmes dos anos 80, e parte dessa revolução maneirista do cinema, são as inspirações para Glass aqui, mas como citado acima também, sejam elas intencionais ou não. E digo isso porque nossa diretora aqui, não só faz um filme que ocorre no final daquele período, como também utiliza de semelhanças de enredos e temáticas que permeavam a década de 80 num cenário norte americano. Existe uma série de obras que vieram após Kurosawa e Leone com um enredo muito semelhante, e que se alastrou principalmente na década de 80: o viajante ou andarilho que chega numa nova cidade ou vizinhança, e que a partir de suas decisões e crenças, todo o ambiente mudará para melhor, mas antes um grande conflito precisa ocorrer para que a mudança surja. E é curioso também como esse enredo prévio é muito antigo e que vem de nossa própria sociedade com essa sede por um messias ou salvador dentro das religiões e política, mas isso é um assunto para outros artigos. Aqui, a diretora parece utilizar esse enredo como uma base para construir coisas novas, alterar certos padrões dentro dessa “cartilha”, e ainda que com suas influências afloradas de diretores e períodos, busca uma marca própria em sua obra. Ainda acho que mais patina, e se mostra desorientada, do que aparenta ter um puso e rumo firme e definido sobre o que quer fazer, o que quer dizer, e onde quer chegar.

“O Amor Sangra” contém fortes pontos positivos com relação aos seus artifícios técnicos: é um filme muito comprometido com o trabalho visual empregado pela proposta de Rose Glass, não apenas com traços esteticamente bonitos, mas a importância dada para a iluminação, o contraste com as sombras é algo muito relevante aqui. A construção de nossas personagens, e as ambientações, tudo passa pela forma como as cores são dispostas em tela. Isso não é nenhuma novidade no cinema de Glass, que apesar de recente, já o fez lá em 2019 com seu terror “Saint Maud”. Acho que essa pretensão visual, principalmente se tratando dos corpos de nossas protagonistas causa um estranhamento que se justifica próximo do final do terceiro do ato, mas ainda que tenha uma espécie de resposta, é um artifício-elefante aqui; ele existe, ele incomoda de um jeito não instigante, você o ignora ao longo do processo, até ele finalmente vir a tona e o sensação não é a de satisfação, e sim de total desorientação, mas este é um tópico que tratarei mais a frente. Enquanto isso temos as performances de Stewart e O’Brian que estão ótimas em tela. A química entre as atrizes é muito palpável, e Stewart está cada vez mais distante de uma associação com a sua personagem do passado de uma saga adolescente pavorosa, ainda que tenha trejeitos superficiais de atuação afetada, são muito sutis para estragar sua performance. E O’Brien consegue lidar bem com essa dualidade de sua personagem em ser ameaçadora, e ao mesmo tempo um poço de ingenuidade. Não é exatamente o que sugere a trama tão utilizada nos anos 80 citada anteriormente, mas isso é um dos frescores da obra, em transformar e transpor aspectos “antigos” de narrativa, e atualizá-los por meio dos debates e discursos atuais, de uma forma orgânica.

O que me faz crer num decaimento gradativo e sequencial de “O Amor Sangra” está inteiramente ligada à sua época. É difícil avaliar obras antigas com o aspecto atual. Falamos muito sobre anacronismo no tempo moderno, justamente pela mudança significativa que nossa geração passou de 20 anos para cá, e como olhar para as gerações passadas sem que todos sejam condenados pelo olhar crítico atual. Mas é ainda mais difícil se deslocar do tempo-instante, geográfico também, na hora de avaliar obras contemporâneas. Até que ponto o filme ser banhado e coberto pela atualidade de temáticas se torna algo passageiro, de impacto imediato e efêmero, e se torna algo que quebra a barreira do tempo? Essa é uma resposta impossível de responder ainda dentro do tempo-instante. Dizer que “Cidade dos Sonhos” era um dos 10 melhores filmes já feitos parecia um extremo absurdo em 2001, apesar de sua grande qualidade cinematográfica, mas segundo a revista Sight and Sound em sua lista de melhores filmes já feitos publicada em 2022, 20 anos depois do lançamento a obra se encontra no belíssimo 8° lugar, a frente inclusive do famigerado “O Poderoso Chefão” que por tantas vezes citaram ser a melhor coisa que o cinema já produziu. Então, de fato a avaliação filmica passa muito por momentos e subjetividades, ainda que embasadas em estudos profundos. E atualmente, a influência estilística do estúdio A24 é muito forte nas novas gerações cinéfilas. Essa carência pelo diferente, por apostar num estranhismo narrativo, muitas vezes de forma vazia e ou gratuita, tem ganho muito sucesso. E o maior mal de “O Amor Sangra” é justamente a sua falta de coesão narrativa e linguística pensando unicamente na linha de popularidade das obras vinculadas ao estúdio, incluindo esta mesma: uma desorientação do real conteúdo disposto em prol de aspectos e artifícios que façam da obra diferente e estranha comparada ao que seria um padrão narrativo hollywoodiano. O que me parece não apenas vazio aqui, como também prejudicial para o resultado final, e a sequência do terceiro ato só evidencia ainda mais toda essa problemática na obra, em que o que quer dizer fica completamente coberto por essa estranhesa superficial.

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*Escritor e crítico de cinema, Breno é autor dos livros; Por Trás de um Sol e Sobre Pássaros e Caracóis. Também analisa filmes recém lançados e divulga grandes autores da sétima arte através de sua página Lanterna Mágica Cinema no instagram. Além de também ser o criador e organizador da premiação amadora de cinema Kurosawa de Ouro. Seu filme do coração é Persona, e respectivamente Ingmar Bergman seu diretor favorito.

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