Ettore Scola: O Mestre da Comédia Italiana.
Por Viviane Monteiro*
La Cena, “O jantar”, como ficou conhecido o título no Brasil, é um filme de Ettore Scola, diretor que faz parte da linhagem dos cineastas-roteiristas. Suas obras são conhecidas por reproduzir a tradição neorrealista, abordando as transformações sociais e políticas da Itália do pós-segunda guerra mundial. Um painel social, atravessado por temas como o pessimismo, o conformismo e as lutas de classes.
Hoje o destaque desta publicação é para a obra “O Jantar” de 1998, um filme de comédia e drama, que se passa dentro de um restaurante, um tipo de trattoria que serve pratos simples e tradicionais, o “Arturo al Portico”, um ambiente fechado, que possui quatorze mesas espalhadas pelo pequeno espaço, onde os personagens são servidos por cardápio considerado como “tipicamente italiano”, com pratos cujos nomes realçam as especificidades daquela região da Europa. O enredo nos envolve o tempo todo, desde a chegada de seus clientes até o fechamento, servindo ao espectador histórias solitárias, algumas egoístas por vezes, com pequenos dramas e mesmo assim repletas de sentimentos de esperança.
O filme reúne pessoas estranhas umas às outras, que se olham, outras que somente observam os acontecimentos, resultando numa obra sem protagonista único. Scola organiza uma estrutura narrativa conhecida como “elenco conjunto” (ensemble cast) ou chamada também de múltiplas histórias paralelas, onde vários personagens têm igual importância na trama. Fazendo do restaurante não apenas um cenário comum, mas um lugar que simboliza e representa uma sociedade italiana em sua visão, é necessário ressaltar que ninguém sai daquele ambiente transformado. Pois, nada de muito importante acontece ao ponto de serem transformados.
Há lacunas em cada história para que o espectador possa preencher e continuar refletindo sobre as vidas de cada personagem. Isso é algo bem característico nas obras de Scola, deixar perguntas para o espectador, um cinema cheio de jogos narrativos. Onde nem tudo é dito, nem tudo é filmado, o espectador reflete e preenche, com sua imaginação, as lacunas ali existentes.
No ambiente do restaurante, vamos encontrar um professor de filosofia e sua aluna, uma mãe e a filha. Encontraremos também um diretor de teatro e um ator, alguns casais em crise, clientes habituais, turistas. Incluindo ainda um observador solitário que é um professor aposentado, cozinheiro comunista, e seus atritos com o garçom atrapalhado, entre outros personagens jantando. Cada uma das mesas traz uma história e, reunidas, constituem uma mistura viva da classe média italiana, retratando sua época numa versão reduzida, além de complexa, das faces que representam, com foco nas relações humanas, em dilemas pessoais, na falta de comunicação entre diferentes gerações e grupos sociais. Uma sociedade da década de 90 que foi marcada por profundas transformações políticas e instabilidade econômica significativa. Há ainda o fato de a população estar passando por uma transição para uma era mais tecnológica, embora o cotidiano no início daquela década ainda fosse predominantemente “analógico”, com comunicação dependendo fortemente de telefones fixos e encontros presenciais, em contraste com a revolução digital que seguiria. No filme, Scola cria essa comparação do uso de telefones celulares pelos personagens, mas também traz a gerente Flora fazendo uso do telefone fixo para confirmar as reservas de mesas, um jogo de cena entre as diferenças do moderno e o antigo, da inovação e o tradicional.
Há ainda outra passagem em que fica clara a presença de novas tecnologias, quando um turista, após o pedido chegar à mesa, começa a dar comida na boca do filho enquanto ele joga um game boy (um console de videogame portátil) sem tirar os olhos da tela do jogo, algo que podemos encontrar como um fenômeno que se tornaria tão atual se comparássemos com a dependência de telas. Há momentos em que o sentimento nacionalista é exaltado, como quando o maître observa o garçom indo levar um ketchup para a mesa dos turistas e tenta barrar, pois acha um absurdo que coloquem ketchup numa pasta à carbonara. Uma defesa à tradição e a um símbolo nacional, em outras sequências podemos refletir sobre a economia do país, as narrativas que seguem vão apresentando situações repletas de críticas à burguesia e sonegação de impostos, a exploração da mão de obra do trabalhador, reflexões sobre planos econômicos, e quanto às posições políticas de direita e de esquerda também são lembradas.
Scola traz toda a singularidade e estilo na forma de apresentar as tradições daquele país, combinando neorrealismo, cinema político e a comédia social de costumes, utiliza de satirizar os hábitos e comportamentos, fazendo uso pontuais de humor, do ridículo e da ironia. Ao final, o que fica de reflexão ao assistir “O Jantar” é essa sensação de nos depararmos com personagens comuns, do cotidiano, em seus dilemas éticos e morais. Que são expostos a um misto de emoções e amarguras, com uma pontinha de esperança que desafia os momentos de impotência diante da vida.
É uma obra que vai te fazer pensar sobre a vida e mesmo que a produção apresente algumas piadas que, para aquela época e contexto, fossem aceitas e hoje em dia sejam bem incômodas, ainda assim não tira a qualidade e o prazer de assistir a um bom filme italiano servido pelo grande mestre Ettore Scola.
O filme está sendo exibido atualmente na 20ª edição do Festival de Cinema Italiano no Brasil /2025. De 29/10 a 29/11/2025. Toda a programação é gratuita no site.
*Psicóloga pela Universidade Federal de Alagoas. Atua como psicóloga clínica e defensora do SUS, dos movimentos sociais e da educação pública. Integra o podcast Cinema em Movimento e o Tem Que Ver.
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