Um Filme Meio Estranho

Por Airton Tomazzoni*

Comecei a assistir a O agente secreto com certa expectativa frente a toda trajetória de premiações que veio recebendo, mas resistindo a ler qualquer crítica ou análise referente ao filme, para poder  apreciar a obra apenas pelo que me apresentava.  Iniciei admirando a fotografia e suas cores já nas primeiras cenas, e aquele ambiente rarefeito como a atuação de Wagner Moura e aquele tempo lento, que de certa forma me agrada e assim fui indo, não totalmente capturado, mas ali, curioso. E tentando juntar algumas pistas da temática que a obra prometia abordar. E nada ficava muito evidente. E fui achando tudo meio estranho. E seguiu meio estranho. E terminou meio estranho. Daí todo mundo foi saindo enquanto os créditos corriam na tela e me perguntei: e daí? Um filme meio estranho. E? E que maravilha, um filme meio estranho, em tempos estranhos que tudo se explica de maneira tão fácil, superficial e equivocada.

Enfim, eu estava diante de um filme que me dava tempo para decifrá-lo ou pelo menos tentar. E nesse movimento me fazia transitar por uma narrativa e imagens que não preenchiam todo o universo de significados do filme. E não por evidenciar a incapacidade de dar essas respostas. O Agente secreto é uma obra que consegue fazer de sua estética a sua forma discursiva. O que era pra ser secreto está escancarado a ponto de ser clichê e pastiche e o que se camufla é de fato o que orquestra toda a ação. É o que não está o que não aparece, o que não se dá a ver que torna o filme perturbador, afinal o pior medo é aquele que a gente não pode prever com segurança onde ele está localizado ou que forma ele pode assumir.

Algumas coisas parecem não funcionar e seria ingenuidade pensar que Kleber Mendonça Filho tenha derrapado em falhas de roteiro e alinhavo de personagens. Porque o diretor e também roteirista estava falando de uma época em que as coisas pareciam funcionar, mas a todo o momento aparecem sinais de que algo está errado, por mais que tudo seguisse a narrativa aparentemente normal de uma país de carnaval, violência, corrupção, tipos humanos tão incrivelmente humanos. Tudo estava lá. Só que não. Então personagens esquemáticos, lacunas de elenco, frases didáticas, histórias deixadas de lado, incompletude.

É sobre isso.

E o filme é sobre memória também da História com “h” maiúsculo que tenta apresentar uma única e válida versão oficial dos fatos, ignorando os próprios fatos e fazendo deles um amontoados de notícias com títulos sensacionalistas. O filme fala do que se trata sem ganhar centralidade. Como no filme “Tubarão”, um sucesso de bilheteria no qual o que menos aparece é o personagem que dá nome ao filme e estampa seu cartaz. A ditadura está lá o tempo todo, mas não é anunciada a todo instante, nem interpretada, nem julgada. A complexidade e ambiguidade do poder estão ali meio sem se identificar direito entre agentes da lei, empresários, assassinos de aluguel, militares, burocratas, fugitivos, corpos ao relento. São as micro histórias que movimentam a trama para o bem e para o mal.

E se não bastasse é sobre outro lado da memória. Sua construção. Sua natureza, que envolve inexoravelmente o esquecimento ou os recônditos em que lembranças se resguardam. E contra o esquecimento há a materialidade, a fisicalidade como a das fitas cassete com áudios desse passado que vão sendo recuperados e que parecem interessar mais a uma estudante do que ao familiar implicado. Um pretérito fragmentado e esfacelado. Há evidências e há lacunas enormes. Há mortos que não se consegue enterrar. Há cadáveres sem nome. Há apagamentos como dos cinemas de Recife. E há quem queira sobre isso se debruçar e quem não queira ou não consiga. Kleber faz um filme que não responde, mas que pergunta, que permite a gente, espectador, se perguntar. E não faz juízo dessas escolhas. Nos apresenta essas idiossincrasias entre violências exacerbadas e silêncios imobilizadores, entre revolta e passividade, entre as ciências exatas e as lendas populares e tudo que desafia essas binaridades. Tudo um tanto surreal.

E, por isso, é meio estranho, perturbador, em tempos que tudo se responde tão fácil. Tempos em que muitos preferem não ter que se perguntar, nem desconfiar do que é dado. No final, até estranhei um filme assim meio estranho chegar a circuitos nos quais a estranheza é vista com bastante desconfiança. Inclusive saí sem nem exigir me responder se o filme era muito bom ou nem tanto assim. Pra mim o importante era ainda poder estar diante da arte que permite estranhar o mundo e a mim mesmo. Gosto disso e muito.

*Airton Tomazzoni é cinéfilo desde onde consegue se lembrar ali pelos anos de 1970, levado pelo avô nas matinês do Cine Vitória em Porto Alegre pra ver Mazzaropi. Logo que pôde começou, num tempo sem internet, a fazer seu fichário datilografado dos filmes que a assistia e juntando mesada para completar sua coleção de revistas Cinemin. Não foi fácil pra família acompanhar seus sumiços para ver até 3 sessões por dia, entre os ciclos do cine Bristol, Avenida, Sala Vogue, Paulo Amorim, Baltimore ou mesmo no Capitólio. O fato de cursar Direção Teatral e Jornalismo foi pela paixão pelo cinema já que não havia cursos formais de cinema na década de 80 e 90 em Porto Alegre. Chegou a se aventurar em roteiros e direção de curtas. Escreveu em muitos jornais e revistas gaúchos. E fez um doutorado em Educação na UFRGS que inevitavelmente teve um capítulo inteiro sobre a dança no cinema que em breve sai em livro.

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