Por Álvaro Nicotti*
A recente megaoperação policial no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, resultou em mais de 100 mortos, configurando o que entidades de direitos humanos já classificam como o maior massacre da história do estado. O que o governo chama de “combate ao crime organizado” revela, na verdade, a continuidade de uma política de extermínio dirigida às populações negras e periféricas, sustentada pelo discurso da segurança pública. A tragédia expõe a falência das estratégias de pacificação e o uso sistemático da violência estatal como instrumento de controle social, naturalizando a morte como resposta à desigualdade e à ausência de políticas públicas reais nas favelas.
A chacina do Jacarezinho, também conhecida como massacre do Jacarezinho, ocorreu em 6 de maio de 2021 na favela homônima, no Rio de Janeiro, durante uma operação da Polícia Civil que resultou em pelo menos 29 pessoas mortas a tiros ou com objetos de corte. Foi a operação policial mais letal ocorrida na cidade do Rio de Janeiro e uma das maiores desse estado, sendo comparável à chacina da Baixada de 2005.
Estes crimes coletivos se somam às outras centenas de barbaridades e agressões que o povo pobre e negro sofre no Brasil, pois não são somente massacres: são espancamentos em frente à porta do supermercado, expulsão de dentro de lojas de grife de madame, em bairros de luxos de centros urbanos do Brasil. E esta história não é recente, ela começa lá atrás quando os primeiros navios de escravos desembarcaram no Brasil e passaram a fazer parte de um sistema onde a morte é banalizada, chamado de Necropolitica.
A necropolitica, como soberana e com condições de impor a escolha de quem deve viver e quem deve morrer ou, de quem faz parte da civilização ou quem é considerado selvagem, tem suas raízes na época da colonização/invasão europeia nas Américas. A escravidão, o regime de exceção e, principalmente, a ocupação dos espaços ditavam o Direito. Nesta época, portanto, o espaço se apresentava como “a matéria-prima da soberania e da violência que sustentava. Soberania significa ocupação, e ocupação significa relegar o colonizado a uma terceira zona, entre o status de sujeito e objeto (Mbembe)**.
A dicotomia entre o civilizado e o selvagem, que nada mais é do que uma das essências da narrativa do necropoder, tem no período colonial uma particularidade: a escravidão. Navios lotados oriundos da África desembarcaram nas colônias americanas, abarrotados de negros escravizados para trabalharem nas grandes plantações. É a partir desta relação do europeu com o escravizado negro que Mbmebe conceitua a necropolitica baseada no necropoder, afirmando que a condição de escravo “resulta de uma tripla perda: perda de um ‘lar’, perda de direitos sobre seu corpo e perda de status político. Essa perda tripla equivale a dominação absoluta, alienação ao nascer e morte social (expulsão da humanidade de modo geral)”
E a necropolitica segue firme e forte, principalmente no Brasil, onde ampliou sua voz com o governo de Jair Bolsonaro. A título de exemplo, numa palestra para aproximadamente 300 pessoas no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, na condição de pré-candidato à presidência, Jair Bolsonaro falou assim: "Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles". Este tipo de colocação, por parte do ex-presidente brasileiro, reforça bem o que se define por fascismo, deixando claro que seu autoritarismo e o desprezo pela diversidade são a regra.
Para concluir, é importante registrar que a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil, em 2018 e sua politica necrófila e fascista, é consequência de um processo de quebra institucional que criou corpo a partir do afastamento da presidente Dilma Roussef, no golpe 2016. Desde então, políticas neoliberais, reformas constitucionais impopulares e um programa de recuperação econômica baseada no endividamento social, foram as ações das elites brasileiras que tomaram o poder. No entanto, este processo não foi uma característica peculiar ao Brasil, foi um movimento identificado em diversas partes do mundo. Soma-se a isso, o discurso conservador e moralista que se catalisa nas ações neoliberais e forma um prato cheio para a ascensão da extrema direita ao poder de diversos países. E a extrema direita no poder nada mais fez do que escancarar a necropolitica e o necropoder que sempre existiram, mas que ganharam vozes ecoantes em todas as partes do planeta.
Atualmente, em 2025, o que assistimos é um abismo cada vez maior entre a humanidade e a loucura desumana que tomou conta de corpos já destituídos de qualquer sentimento. É muito provável que uma ciência interdisciplinar, relacionando política, economia, sociologia, geografia e espiritualidade, possa vir a explicar mais um ciclo de violência e disputa de poder no mundo. Soma-se a isso, evidentemente, o fator novo representado pelas mudanças climáticas, que também é fortemente carregado de racismo, sendo palatável às elites dominantes que as maiores consequências de seus atos recaiam sobre aqueles que não contribuíram para as causas de tais eventos catastróficos.
O fato é que temos hoje, sob o ponto de vista do genocídio em Gaza e do massacre no Complexo do Alemão e da Penha, o grande divisor moral do nosso tempo.
Ficções
Tropa de Elite (2007) e Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro (2010), de José PadilhaApesar das leituras diversas, o segundo filme se destaca por revelar a engrenagem política por trás da militarização e das milícias, mostrando como a violência se institucionaliza.
Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia LundUm retrato impactante sobre a origem do crime organizado e o abandono histórico das periferias, onde a ausência do Estado se torna regra.
5x Favela – Agora por Nós Mesmos (2010), de diversos diretoresProduzido por jovens das próprias comunidades, o filme oferece uma visão interna das favelas, quebrando estereótipos e humanizando seus protagonistas.
O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça FilhoAmbientado em Recife, o longa reflete sobre o medo, o controle e a presença invisível da violência nas cidades brasileiras.
Marighella (2019), de Wagner MouraInspirado na vida do guerrilheiro Carlos Marighella, o filme conecta a repressão da ditadura às formas contemporâneas de autoritarismo e violência política.
Documentários
Auto de Resistência (2018), de Natasha Neri e Lula CarvalhoDenúncia direta ao uso do termo “auto de resistência”, que por décadas serviu para encobrir execuções cometidas pela polícia.
Notícias de uma Guerra Particular (1999), de João Moreira Salles e Kátia LundUm registro essencial sobre o cotidiano de policiais, traficantes e moradores — um retrato lúcido do ciclo de medo e exclusão que estrutura o Rio de Janeiro.
Favela é Moda (2019), de Emílio DomingosMostra a potência criativa das periferias e o protagonismo de uma nova geração que desafia a narrativa única da favela como espaço de violência.
A Última Abolição (2018), de Alice GomesUm mergulho histórico nas raízes do racismo estrutural, que conecta a escravidão às atuais formas de desigualdade e repressão.
Nossos Mortos Têm Voz (2018), de Fernando Sousa e Gabriel BarbosaFamiliares de vítimas da violência policial compartilham dor, resistência e luta por justiça — um retrato comovente da luta por memória e reparação.
*Professor, pesquisador e editor do TemQueVer
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