Bugonia (Crítica)

Yorgos Lanthimos volta às origens de sua fórmula para criar um ‘‘novo estranho’’.  

Por Sthefaniy Henriques*

Nota: 7

Contar histórias sobre as mazelas da sociedade não é algo novo para Yorgos Lanthimos. Do aliciamento de filhos em Dente Canino (2009), passando por uma sociedade distópica baseada no casamento e em uma dicotomia das relações e comportamentos sociais em O Lagosta (2015), até o sexismo da sociedade em relação às mulheres em Pobres Criaturas (2023), Yorgos faz aquilo que se espera dos gregos: escreve épicos, desenvolve metáforas e analogias para falar sobre nosso cotidiano, a nossa cultura e do quão ferrados nós estamos.

Talvez este último ponto seja o que mais Yorgos gosta de representar. A sociedade, de acordo com o diretor, está sempre em ruínas; quem ornamenta os atos de vilania chega ao extremo da corrupção humana, enquanto quem sofre esses atos é resiliente, sempre à beira de sucumbir ou até mesmo colapsar. Há exceções, claro: Bella Baxter consegue vencer o sexismo em Pobres Criaturas, e a filha mais velha em Dente Canino sai de sua “caverna”. Mas Yorgos nunca promove a visão de uma destruição total dos sistemas opressores operantes. Ele indica vitórias individuais, em um mundo ocidental que continuará repleto de problemas, no qual poucos de seus personagens se libertam.

Após o sucesso de Pobres Criaturas, Tipos de Gentileza (2024) veio para marcar uma nova fase do diretor. Nesse filme, Lanthimos fica menos focado em operar diretamente questões sociais amplas e passa a construir histórias deliberadamente estranhas, centradas em personagens consumidos por paranoias e, por vezes, submetidos a comportamentos que beiram o sectário – isso quando já não são membros de uma seita. Em Tipos de Gentileza, Lanthimos traz sua câmera estática e apresenta uma montagem que valoriza o tempo, estendendo a duração de cada tomada. Além disso, o “tom” do filme é de um humor estranho, extraído justamente do comportamento de seita e/ou conspiracionista de seus personagens.

Bugonia, filme realizado após esse longa, aposta na mesma abordagem. Porém, algo novo surg – não pelo acréscimo, mas pela ausência do clichê do “bem” contra o “mal”, do dualismo que separa facilmente o herói do antagonista. Lanthimos coloca face a face dois representantes de grupos completamente condenáveis: de um lado, uma empresária do capitalismo predatório, que impõe condições de trabalho desumanas a seus funcionários; do outro, um conspiracionista, estereótipo do cidadão do interior dos Estados Unidos, que se agarra a teorias irreais para justificar e/ou mascarar o fracasso de nossas estruturas políticas e sociais. Ele acredita que vai salvar o mundo da crise ambiental e que sua principal inimiga está bem à sua frente. Para o conspiracionista, a CEO é culpada, mas não por liderar uma megacorporação farmacêutica, e sim por ser uma alienígena que odeia a humanidade.

Nesse sentido, Yorgos promove uma nova sátira que opera nos afastando do emocional, da comoção e da compaixão na maior parte do tempo. Na verdade, é possível dizer que estamos tão longe de possuir empatia e compaixão quanto seus personagens. Quando os filma, principalmente Fuller (Emma Stone) e Teddy (Jesse Plemons), ele captura uma queda de braço discursiva: uma argumenta para garantir sua liberdade com teses sólidas e desalmadas, enquanto o outro identifica naquele comportamento evidências para afirmar sua teoria e praticar violência como alternativa para conseguir uma confissão

Nesse jogo desigual de poder, o espectador pode até tomar um lado, mas Lanthimos dificulta isso, pois coloca a decisão de escolha como não ideal. Fuller é claramente uma representante do motivo pelo qual Teddy se tornou conspiracionista, e Teddy é um conspiracionista disposto a cometer atos cruéis com Fuller em prol de uma boa causa. Ambos foram corrompidos, e esse é o ponto-chave de Bugonia: como tomar um lado quando ambos são terríveis?

É com essa reflexão que Bugonia se diferencia de sátiras que se tornaram populares nos últimos anos, como O Menu (2022), Triângulo da Tristeza (2022) e Uma Batalha Após a Outra (2025). Como exemplo comparativo com o último, é possível considerar que, enquanto Paul Thomas Anderson zomba de fascistas supremacistas brancos e esquerdistas “hippies” em Uma Batalha Após a Outra, ele ainda defende que a esquerda revolucionária/guerrilheira tem uma causa nobre e, por isso, nos simpatizamos e nos importamos com Willa (Chase Infiniti). Em Bugonia, no entanto, Lanthimos não permite que o espectador se simpatize por um lado. Sua câmera distante e apática, e principalmente a performance de seus atores, contribuem para isso. Olhamos para aquelas figuras, repudiamos seus atos e rimos, por vezes, de suas ações estúpidas e inacreditáveis.

O final, talvez surpreendente para alguns, não favorece um lado; pelo contrário, lança uma reflexão sobre as ações: como podemos enxergar uma “salvação” para a humanidade quando usamos as piores atitudes para “salvá-la”? Lanthimos empurra as situações até o limite para exibir simplesmente o oposto: para o diretor, não existe uma resposta simples e, entre tantas possíveis, ele nega a que justamente permeia o filme – a violência, que simplesmente não é uma boa opção.

Novamente, Lanthimos acerta ao apresentar um filme que é tão ele e, ainda assim, tão sobre “nós”. O diretor nunca perdeu seu timing em contar histórias que lhe interessam, mas que, mesmo assim, debatem assuntos cruciais de nossa contemporaneidade. Definitivamente, Lanthimos é um grego pensador, que vive seu tempo, reflete sobre ele, registra-o em formato fílmico e entrega suas obras à sociedade do presente e às próximas que virão. Isto é, se vierem, caso os CEOs não continuem a acabar conosco ou os conspiracionistas não destruam eles mesmos a Terra. Ou, quem sabe, aliens.

*Historiadora formada pela Universidade Federal Fluminense, professora e crítica de cinema. Administra o perfil E o Cinema Levou e participa do podcast Cinema em Movimento e do site Tem Que Ver.  

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