Por Sthefaniy Henriques*
A Season Awards de 2025 apontou alguns queridinhos entre os filmes classificados como internacionais (ou seja, não estadunidenses). Foi Apenas um Acidente, O Agente Secreto, Sem Outra Escolha, Sirat e Valor Sentimental são esses títulos “estrangeiros” (novamente, para os estadunidenses) que dispararam na corrida e ganharam grande repercussão na mídia. Dos que assisti, não tenho dúvidas quanto à qualidade, que realmente merecem reconhecimento; porém, é importante lembrar que outros filmes internacionais que estão “correndo por fora” nas grandes premiações também apresentam a mesma qualidade. A Menina Canhota é um ótimo exemplo disso. Filme que, embora indicado ao Critic Choice e distribuído pela Netflix, certamente não será lembrado, pela maioria, como um dos grandes filmes de 2025.
Dirigido e roteirizado por Shih-Ching Tsou, o filme ainda conta com a participação de Sean Baker, que também assina o roteiro e faz parte da produção do longa, concretizando a segunda parceria entre ambos. A história acompanha uma mãe solteira que se muda com suas duas filhas para Taipei, onde passa a trabalhar em um mercado noturno. Com o estabelecimento na capital, a vida segue como costuma seguir para os mais desamparados pelo capitalismo: ocorre a busca por alguma estabilidade financeira, pela possibilidade de ter um conforto mínimo. A vida muda para as três, quando a filha mais nova, I-Jing (Nina Ye), é proibida pelo avô de usar a mão esquerda, gerando eventos que corroboram para desvendar segredos da família.
Como quem vos escreve é uma pessoa canhota e relativamente jovem, eu sempre ouvi histórias sobre punições a canhotos no ambiente escolar, quando os alunos eram obrigados a escrever com a mão direita. Mesmo achando um absurdo, sempre fez sentido pra mim: basta entrar em uma sala de aula para perceber que as carteiras são feitas para destros, dificultando a vida de quem escreve com a esquerda. E nós, canhotos, ainda ‘’atrapalhamos’’ nossa própria vida, já que, ao escrever, cobrimos com a mão aquilo que estamos escrevendo. Sempre pensei que tudo isso fosse apenas consequência da padronização, uma tentativa de nos adaptar a um mundo dominado pelos destros. Eu não estava errada, mas em A Menina Canhota o preconceito se aprofunda ainda mais: ali, o canhoto não é só o inconveniente que precisa se enquadrar, ele é verdadeiramente demonizado.
I-Jing ouve de seu avô que sua mão esquerda é ‘‘do diabo’’ e passa a acreditar com veemência. Diante do conflito principal do filme – que gira justamente em torno dessa ideia –, o espectador pode pensar: ‘‘só uma criança acreditaria nisso’’, e é verdade. No entanto, é aí que está a magia do filme. Essa imaginação infantil, mesmo baseada em algo que sabemos ser mentira, é o que dá encanto a história. É algo similar ao que o próprio Sean Baker fez em Projeto Flórida: os “problemas” simplistas das crianças, quando comparados aos dos adultos, nos tocam justamente por serem praticamente inexistentes e, ao mesmo tempo, por mascararem a realidade dura em que realmente vivem.
Nesse sentido, o filme se passa pelos olhos de I-Jing, esta que não vê problemas em andar desacompanhada por um grande mercado noturno e tão pouco entende os sacrifícios feitos pela mãe, mas que, em compensação, vive assustada com sua própria mão esquerda.
É justamente pela adoção dessa perspectiva infantil que A Menina Canhota se torna um filme tão cativante. Nina Ye, a jovem atriz que interpreta I-Jing, surge como uma das maiores surpresas do ano. Sua atuação é profundamente naturalista: ela não teatraliza gestos diante do iPhone que a filma e, por vezes, nem parece estar atuando. Seus olhos carregam inocência, encanto e, em muitos momentos, medo. Assim como Brooklynn Prince em Projeto Flórida, Nina Ye desponta como uma grande promessa – e entrega, em A Menina Canhota, uma das melhores atuações femininas do ano.
*Historiadora formada pela Universidade Federal Fluminense, professora e crítica de cinema. Administra o perfil E o Cinema Levou e participa do podcast Cinema em Movimento e do site Tem Que Ver.
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