Por Pablo Rodrigues*
LOIS: Você não é punk rock.
Você confia em todo mundo
e acha que todas as pessoas são lindas.
CLARK: Talvez isso seja ser punk rock.
Quando fui ao cinema assistir SUPERMAN (2025) eu estava em um dia péssimo. Havia sido criticado por agir fazendo a coisa certa, por defender uma visão ética de trabalho, o que me deixou triste e desmotivado. Foi com esse estado emocional que entrei na sala escura para ver a nova versão do Homem de Aço, desejando apenas me entreter e esquecer momentaneamente os problemas por duas horas. Mas o que aconteceu foi muito mais do que isso. Ao final da sessão, eu estava com um sorriso no rosto, assim como o protagonista na imagem que encerra o filme, como que lhe correspondendo. Meu ânimo havia sido restaurado e eu estava pronto pra seguir na luta diária. Nesse dia, eu posso afirmar que fui salvo pelo Superman.
Um dos maiores ícones da cultura pop não apenas estadunidense, mas também mundial, o Superman foi o primeiro super-herói dos quadrinhos, o maior de todos, responsável por dar origem a todo um gênero de histórias que ultrapassou as páginas da nona arte e se tornou parte do imaginário cultural contemporâneo. Quando foi criado em 1938 por Jerry Siegel e Joe Shuster, dois jovens artistas filhos de imigrantes judeus, os Estados Unidos viviam o período conhecido como a Grande Depressão americana, resultado da grande crise do capital iniciada em 1929, a qual trouxe um aumento das desigualdades sociais, da violência, do crime organizado, além do crescimento das ideias nazifascistas que culminariam na Segunda Guerra Mundial. É como uma espécie de resposta a esse cenário político e social que surge o Superman. Como se, ao menos na arte, o mundo tivesse encontrado um salvador, um Moisés libertador. Tanto que, em suas primeiras histórias, o personagem não enfrentava alienígenas ou monstros de outra dimensão, mas sim problemas sociais da sociedade estadunidense da época, como o crime organizado, a violência contra a mulher, políticos corruptos e até mesmo o nazismo.
É apenas com o fortalecimento do conservadorismo nos Estados Unidos durante a Guerra Fria, que os quadrinhos irão passar por uma intensa campanha de censura e difamação, forçando as editoras a adaptarem seus personagens às exigências governamentais da época, principalmente o Superman, que será apropriado como símbolo da propaganda imperialista estadunidense. E embora tenhamos, ao longo dos anos, autores que tentaram trazer outras perspectivas para as histórias do azulão, estas não foram hegemônicas.
A chegada do personagem no cinema é um exemplo disso. O primeiro filme, SUPERMAN, de 1978, dirigido por Richard Donner, surge numa época em que o cinema estadunidense vivia o auge da Nova Hollywood, movimento cinematográfico de caráter contestador que retratava o oposto do ideal conservador do “sonho americano”. Assim, a chegada do super-herói kryptoniano nessa conjuntura foi uma espécie de contraponto ideológico a essa perspectiva crítica que predominava em Hollywood à época. Tanto que, é partir de então que a Nova Hollywood passará a perder força e dará lugar à era dos filmes comerciais, os chamados arrasa-quarteirões ou blockbusters.
Nas décadas seguintes, a visão conservadora/imperialista acerca do Superman continuará a ser reforçada no cinema, desde as sequências do longa de 1978, incluindo a de Bryan Singer em SUPERMAN: O RETORNO (2005), chegando no auge dessa representação com a versão militarista do diretor Zack Snyder em HOMEM DE AÇO (2013). Contudo, este ano, o personagem não apenas voltou à tela grande em SUPERMAN (2025), como também retornou às suas origens para se apresentar de modo mais coerente à nossa realidade atual.
Dirigido por James Gunn (GUARDIÕES DA GALÁXIA, O ESQUADRÃO SUICIDA), SUPERMAN é o primeiro filme do novo Universo Cinematográfico DC (DCU). Desta vez, o filme não busca recontar a origem do super-herói, ao invés disso, o roteiro nos joga na trama já em andamento, no meio da ação, assim como faziam os seriados de aventura do personagem nos anos 1940. No universo apresentado, o Super já está em atividade há cerca de três anos e os chamados meta-humanos já fazem parte da realidade do planeta há séculos. Nesse contexto, acompanhamos Kal-El/Clark Kent (David Corenswet) tentando conciliar sua origem alienígena kryptoniana com sua vida humana, seu namoro com a jornalista Lois Lane (Rachel Brosnahan), ao mesmo tempo em que luta para defender o mundo das ameaças vindas de interesses políticos escusos como os do bilionário Lex Luthor (Nicholas Hoult).
Diferente da visão sombria e militarista desenvolvida por Zack Snyder anteriormente em seu Snyderverso, a versão de James Gunn resgata as características que marcaram o Superman em sua origem nos anos 1930, a saber, um herói que luta contra o status quo e contra problemas sociais do mundo, somadas a elementos da era de prata dos quadrinhos. Assim, o diretor constrói um universo vivo, colorido e um super-herói otimista, bondoso, que vai na contramão da visão imperialista construída sobre o mesmo ao longo das décadas. Se na primeira versão do personagem para os cinemas em 1978 ele dizia defender “a verdade, a justiça e o sonho americano”, poderíamos dizer que na versão de 2025 este último valor é substituído pela bondade ou pela humanidade.
E isso não é dito diretamente pela boca das personagens, mas sim, demonstrado pelas ações do herói, seja pelo mesmo enxergar o melhor das pessoas, valorizar toda e qualquer forma de vida (parando para salvar esquilos e cachorros durante as batalhas) e se colocando como um defensor da humanidade, independente de fronteiras geopolíticas. Em outras palavras, o Superman de James Gunn não é o super-herói exclusivo do povo estadunidense, mas do mundo. Um exemplo disso é a interferência do personagem em um conflito geopolítico entre dois países do Oriente onde um deles, mais avançado militarmente, está atacando civis de outra nação mais pobre, que se defendem com paus e pedras, numa referência nítida ao genocídio promovido por Israel contra o povo palestino.
O Superman de James Gunn não é um “deus” perfeito que carrega a responsabilidade de salvar o mundo como um fardo, a exemplo do que víamos na versão de Zack Snyder. Ao contrário, aqui ele faz isso porque sabe que é a coisa certa a se fazer, é o seu compromisso ético de vida. Além disso, o roteiro escolhe destacar mais o aspecto humano do que super-heroico de seu protagonista, expondo sua vulnerabilidade e colocando sua humanidade como sendo o seu maior superpoder. Ele é sensível, falho, não tem vergonha de expor seus sentimentos ou de sorrir, características que vão na contramão do modelo de masculinidade heteronormativa e patriarcal tão presente nas representações dos super-heróis masculinos que são idolatrados pelos nerds de plantão. E David Corenswet consegue transmitir tudo isso com muita eficiência e carisma.
O filme também nos apresenta uma gama de coadjuvantes interessantes que, embora nem todos ganhem um bom desenvolvimento, ainda assim são carismáticos e funcionais para a trama. Destaque para Rachel Brosnahan como a intrépida Lois Lane e a divertida Gangue da Justiça, composta pelo Lanterna Verde (Nathan Fillion), Sr. Incrível (Edi Gathegi) e Mulher Gavião (Isabela Merced). Mas o ponto alto do elenco coadjuvante é Krypto, o cachorro voador parceiro do herói, que rouba a cena sempre que aparece, além do vilão Lex Luthor, interpretado com muita competência por Nicholas Hoult, o qual é apresentado como um bilionário ao estilo Elon Musk que usa sua Big Tech para financiar agendas políticas questionáveis.
Assim como em suas obras anteriores, James Gunn adota um tom leve e bem-humorado para o filme, sem vergonha de ser galhofa, ao contrário, ele usa a galhofa a favor da narrativa para gerar humor. O que é refletido na unidade estilística da obra, a qual utiliza de uma fotografia e um design de produção (cenários) com cores vivas e muita luz. E as sequências de ação, embora não sejam memoráveis, são eficientes e bem dirigidas o suficiente para engajar o público.
Enfim, é interessante ver que, diante do desgaste experenciado atualmente pelo subgênero dos filmes de super-herói, seja justamente o primeiro destes personagens que venha trazer novo fôlego para esse nicho. E que faça isso olhando para o passado e retomando suas origens. Ao fazer isso, SUPERMAN dialoga com o contexto social e político de nossa época e reconhece que, no mundo em que vivemos, não há lugar para super-heróis machões, autoritários, imperialistas, que se colocam acima da humanidade. É necessário mudar.
Em tempos de genocídio, guerras e fortalecimento do fascismo no mundo, mais do que superpoderes, precisamos de humanidade, empatia e solidariedade. Precisamos nos importar uns com os outros. É isso que o SUPERMAN de James Gunn resgata, ao ressaltar que o maior poder de seu herói é sua capacidade de ser “humano, demasiado humano”. E manter isso no mundo cínico em que vivemos, é superpoderoso.
*Psicólogo formado pela Universidade Federal de Alagoas, especialista em Saúde Mental, militante de esquerda, cinéfilo, crítico de cinema, criador do canal do YouTube, podcast e página do Instagram Cinema em Movimento e colaborador do site Tem Que Ver.
****
PARATICIPE DE CONVERSAS SOBRE CINEMA E CULTURA NO NOSSO GRUPO DO WHATSAPP (Clique aqui)
SEGUE NO INSTAGRAM
Quer escrever para o TemQueVer? Entre em contato conosco através do chat de nossas redes sociais (Instagram e Facebook) ou pelo email temquevercinema@gmail.com











