The Alto Knights: Máfia e Poder (2025)

Por Felipe de Souza*

A sensação que tive ao terminar de assistir a “O Irlandês” (2019), de Martin Scorsese, foi a de que estava diante da despedida dos filmes de gangster. Acredito que o mesmo ocorreu com quem assistiu a “Era uma Vez no Oeste”, de Sergio Leone, em 1968. São filmes que fecham um ciclo, e o que vem depois sempre parecerá apenas uma cópia nostálgica da era de ouro do gênero. É exatamente neste lugar que coloco o novo filme dirigido por Barry Levinson, The Alto Knights: Máfia e Poder.

Estrelado por Robert De Niro em um duplo papel, interpretando tanto o lendário Vito Genovese quanto seu rival Frank Costello, “The Alto Knights: Máfia e Poder” surge como uma adição pálida aos filmes de máfia estadunidense. O filme não é uma epopeia como “O Poderoso Chefão” (1972) e “Era uma Vez na América” (1984), nem um thriller hiperviolento como “Scarface” (1983) ou “Os Bons Companheiros” (1990). Em vez disso, posiciona-se como um drama, um estudo sobre liderança, paranoia e o custo do poder no universo criminoso, visando mais os corredores do poder do que os becos dos assassinatos.

A trama acompanha Frank Costello e Vito Genovese, dois homens que cresceram juntos como melhores amigos em famílias ítalo-americanas e ascenderam ao topo do submundo do crime de Nova York. No entanto, os caminhos dos dois homens divergem radicalmente. O grande trunfo do filme reside em sua premissa central: o contraste entre dois estilos antagônicos de liderança. Costello preferia a discrição, a política e o suborno de figuras públicas. Genovese acreditava na força bruta, na tradição siciliana e na expansão territorial. Através desse duelo, Levinson explora uma questão interessante: o que legitima o poder no crime organizado? É a astúcia e a conexão com o “mundo de cima”, ou é o uso da força e o medo no submundo?

O roteiro de Nicholas Pileggi, baseado em eventos reais dos anos 1950 e 1960, consegue ser mais um thriller político do crime organizado. A interpretação de Robert De Niro é, como esperado, muito boa. Ele não apenas diferencia fisicamente os dois personagens – um mais ereto e contido, o outro mais pesado e brutamontes -, mas captura suas essências psicológicas. Seu Costello é um homem mais frio e calculista, já seu Genovese é uma pessoa explosiva e imprevisível. A composição do personagem é completamente inspirada na atuação de Joe Pesci em o já citado  “Os Bons Companheiros” e” Cassino” (19954). No entanto, a própria natureza do duplo papel, embora bem executada, às vezes restringe a química dos personagens. A interação é, por causa do artifício, frequentemente mediada, perdendo um pouco da força pela ausência de um conflito mais direto. Ainda assim, é um exercício de atuação que é no mínimo interessante.

Barry Levinson  às vezes, supõe um conhecimento prévio que pode alienar parte do público. Além disso, o ritmo é deliberadamente lento e, como seu conflito é estabelecido logo no início, os 123 minutos passam de forma arrastada, e algumas sequências acabam perdendo a tensão. A trilha sonora e a direção de arte são competentes, mas falta um elemento visual ou musical distintivo que eleve a experiência. As coisas estão no lugar certo, só que de forma burocrática.

“The Alto Knights: Máfia e Poder” é um filme respeitável, uma obra para quem já viu os clássicos e está interessado em um estudo de caso mais específico. A atuação dupla de De Niro é motivo suficiente para assistir, embora seja em alguns momentos uma distração, e a reflexão sobre a natureza do poder é sempre relevante. No entanto, a direção, ao optar por um tom contido, o filme acaba por carecer da eletricidade narrativa e do impacto emocional que consagraram seus predecessores. Ele não reinventa a roda, nem almeja fazê-lo. Em vez disso, ocupa um espaço válido como capítulo menos violento na cinematografia dos filmes de gangster, acaba sendo um filme sobre os bastidores do confronto de dois grandes criminosos.

*Cinéfilo e Membro do Podcast Cinema em Movimento

***

PARTICIPE DE CONVERSAS SOBRE CINEMA E CULTURA NO NOSSO GRUPO DO WHATSAPP (Clique aqui)

SEGUE NO INSTAGRAM 

Quer escrever para o TemQueVer? Entre em contato conosco através do chat de nossas redes sociais (Instagram e Facebook) ou pelo email temquevercinema@gmail.com

Comente