Hibridismo imperfeito com jovens periféricos no centro da mise-en-scène
Por Leonardo Lima*
Nota: 5,0
Consagrada ainda cedo com o lançamento de Que Bom Te Ver Viva, em 1989, a carioca Lucia Murat destaca-se como uma das diretoras mais profícuas do cinema brasileiro, atuando há cinco décadas ininterruptas. Agora, ela retorna às salas de cinema com o longa-metragem Hora do Recreio, uma criativa incursão cinematográfica à realidade de estudantes dos Ensinos Fundamental e Médio da rede pública de ensino do Rio de Janeiro. A sinopse informa que o filme traz uma abordagem documental e ficcional visando debater questões pertinentes à educação pública no Brasil. De fato, ele é isso mesmo, embora também não seja bem isso.
De um lado, temos uma produção que assume abertamente o documentarismo ao colocar no centro da mise-en-scène o olhar de jovens alunos acerca de problemáticas diversas relacionadas à sua vivência intra e extramuros escolares. O diálogo franco, em grupo – ora pendendo para uma subjetividade do “eu”, ora para uma dialética do social -, funciona como porta narrativa para a exposição bastante pessoal de situações envolvendo racismo, violência contra a mulher, homofobia, violência urbana, entre outras temáticas. O discurso rola livre, soa espontâneo, mesmo havendo uma docente a mediá-lo. Os jovens são interrompidos apenas por uma intervenção pontual, porém fundamental, na qual revela-se ao espectador o que até então estava objetivamente oculto aos seus/nossos olhos, ainda que provavelmente intuído.
Por outro lado, tenta-se inovar ao evocar uma dimensão performática para lidar, de maneira prática e pedagógica, com as temáticas abordadas nos depoimentos. Para isso, recorre-se à literatura, mais especificamente ao romance Clara dos Anjos, do pré-modernista Lima Barreto, tomada aqui como instrumento estruturador de uma encenação teatralizada – não exatamente ficcional, diga-se de passagem, porquanto essa performance não encerra em si uma concepção fílmica distinta da modalidade documental. O hibridismo narrativo em jogo mostra-se, portanto, menos genuíno do que é sugerido pela realizadora.
É preciso reconhecer que Hora do Recreio possui alguns méritos, sobretudo a sua demonstração de que jovens periféricos, quando postos frente a oportunidades outras de participação escolar, complementares à educação formal, a exemplo da dramaturgia teatral, mostram-se dispostos a engajar nelas. Sem dúvidas, momentos assim são valorosos para desenvolver em cada estudante a noção de cidadania, geralmente vista apenas a nível teórico e/ou de modo pouco estimulante em sala de aula.

Entretanto, há de se evidenciar, também, as suas limitações como obra cinematográfica. A começar pela ideia de trazer alunos(as) para debater sobre os problemas da educação pública no Brasil; ora, desde o ponto de partida percebe-se que o conjunto de estudantes selecionados para as gravações tratam-se tão somente daqueles que têm uma visão de mundo mais progressista, que se permitem refletir acerca de temáticas incrustadas na maneira como se estruturam as relações em sociedade. Sabemos, é verdade, que a realização de uma empreitada como a proposta por Lucia Murat em parte depende da anuência de genitores, algo que, de imediato, provavelmente irá dificultar a participação daqueles jovens integrantes de famílias mais conservadoras. Com isso, há uma perda inevitável de pluralidade de concepções a respeito de nossa sociedade na atualidade; isto é, o debate deixa de ser realmente representativo em sua intenção de abordar criticamente os flagelos que nos afligem. O resultado é um conteúdo cuja efetividade discursiva não detém escalabilidade social, uma vez que fica represada apenas àqueles que já são convertidos a uma certa idiossincrasia.
Uma certa inconsistência na construção do regime narrativo também paira no ar, fazendo do filme um ajuntamento de blocos/atos não necessariamente harmoniosos em sua costura por intermédio da montagem. Por vezes, tem-se a impressão de que ali residem três abordagens distintas, cada qual com potencial para ser uma obra isolada caso a diretora tivesse optado por uma trilogia de curtas-metragens. O nó cego, em particular, sequer encontra-se no amálgama imperfeito entre documentário e ficção; antes, está em um segmento não diretamente associado ao ambiente escolar, protagonizado por uma influencer comunitária, o qual parece arbitrário quanto à sua inclusão no corte final.
A despeito de Hora do Recreio estar longe de representar um exercício triunfante de Lucia Murat enquanto realizadora da sétima arte, porquanto deixar uma sensação agridoce para quem o assiste, convém dizer que filmes como este continuam sendo necessários e fundamentais no atual contexto da produção cinematográfica nacional. Não apenas porque expressam a importância do olhar das mulheres ao tratar de temas pouco ou nada discutidos anteriormente, mas, também, porque servem de experimentação no fazer cinematográfico, esboçando possíveis trilhas a serem percorridas por outras(os) cineastas no futuro, tendo como protagonistas não atores oriundos das periferias do Brasil.

Título original: Hora do Recreio
Direção: Lucia Murat
Ano de lançamento: 2025
País: Brasil
Duração: 83 minutos
Disponibilidade: Em exibição nos cinemas
*Recifense, 40 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígenas e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland e um perfil no Letterboxd. Integrante do Podcast Cinema em Movimento e dos sites TemQueVer Cinema e Club do Filme.











