O cinema de Mato Grosso em evidência
Por Leonardo Lima*
Nota: 4,0
A cartografia do cinema brasileiro vem sendo reescrita a todo vapor nos últimos anos. Como resultado, a descentralização da produção cinematográfica nacional, agora não mais restrita ao Rio de Janeiro e São Paulo. Obras como O Agente Secreto (Pernambuco), Mato Seco em Chamas (Distrito Federal), Marte Um (Minas Gerais), Pacarrete (Ceará), Ato Noturno (Rio Grande do Sul), Oeste Outra Vez (Goiás) e Noites Alienígenas (Acre) evidenciam a natureza desse fenômeno de importância imensurável. Em cartaz nos cinemas do país, Cinco Tipos de Medo soma-se a essa onda de espraiamento geográfico ao colocar Mato Grosso no centro dos holofotes do nosso audiovisual.
A conquista do prêmio de Melhor Filme, escolha do júri, no Festival de Gramado de 2025, certamente é um trunfo importante para atrair a atenção do público para o longa-metragem dirigido por Bruno Bini. Sua proposta ganha contornos logo nos minutos iniciais, quando, por meio de flashforwards, somos apresentados à premissa dos medos com os quais lidamos em situações extremas. Esse recurso expõe, em caráter de síntese, o movimento narrativo que irá entrelaçar as histórias de seus protagonistas: o músico Murilo (João Vitor Silva), a enfermeira Marlene (Bella Campos), o traficante Sapinho (Xamã), o advogado Ivan (Rui Ricardo Diaz) e a policial Luciana (Bárbara Colen). Temos aqui, obviamente, uma clara referência a filmes estadunidenses como Crash: No Limite e Babel e ao mexicano Amores Brutos.
Promissora, a abordagem acerca dos medos individuais estranhamente não tarda a ser deixada de lado, sem qualquer cerimônia ou rudimento de justificativa. Paradoxalmente, os princípios e interesses que guiam as ações das personagens acabam sendo orientados por um raro senso de coragem. Se o medo paralisa e pode ser mortal, a conduta reativa ergue-se, fundamentalmente, como impulso de sobrevivência. A essa altura, talvez seja até o caso de se indagar se o título recebido pelo filme faz jus ao tema central de sua narrativa.
No entanto, essa “fuga temática” não representa o principal problema de Cinco Tipos de Medo. Em primeiro lugar, Cuiabá, onde a trama se desenrola, aparece sub-representada em cena; não fosse a presença, em dois rápidos planos, dos escudos do Mixto e do Cuiabá, maiores clubes futebolísticos da cidade, teríamos grandes dificuldades para identificar que assistimos a uma obra mato-grossense. Falta a identidade cuiabana/mato-grossense em tela, portanto.

Além disso, fica a sensação de que o roteiro faz malabarismos com o intuito de convergir os acontecimentos envolvendo aquelas cinco pessoas, todas transpassadas pela violência urbana, seja na condição de vítimas, seja como seus agentes (re)produtores. Sacrifica-se o desenvolvimento dramático das relações entre as personagens em prol do cruzamento de histórias graças à pura conveniência narrativa operada a partir da imposição de deus ex machina. O trabalho de montagem, pautado pela geração de expectativas a partir da liberação de “pílulas” factuais com ares novelescos (inclusive ao nível da imagem cristalina), reforça ainda mais o sentimento de esses encontros fortuitos soarem como forçados, coincidências em demasia – a exemplo de Murilo e Sapinho terem ido parar na mesma cela do presídio.
No fim das contas, para quem busca um filme recheado de reviravoltas, picos de tensão a todo momento, Cinco Tipos de Medo tem boas chances de satisfazer a consciência desse tipo de espectador viciado em adrenalina, ainda que esta, digamos, abunde em detrimento de uma conexão mais orgânica e plausível entre os eventos que servem de pilares à narrativa. Da perspectiva de quem ambiciona assistir a tramas melhor resolvidas em sua harsh reality, porém, é provável que a experiência cause uma certa frustração, sobretudo porque, com o material que tinha em mãos, Bruno Bini talvez tenha perdido a oportunidade de ofertar ao público um cartão de apresentação mais robusto ao cinema de sua terra natal.

Título original: Cinco Tipos de Medo
Direção: Bruno Bini
Ano de lançamento: 2025
País: Brasil
Duração: 109 minutos
Disponibilidade: Cinemas
*Recifense, 40 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígenas e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland e um perfil no Letterboxd. Integrante do Podcast Cinema em Movimento e dos sites TemQueVer Cinema e Club do Filme.
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