Por Rodrigo Perez Oliveira*
Participo do debate público de forma mais intensa desde 2014, quando comecei a trabalhar como comentarista político para uma grande emissora de TV no Rio de Janeiro. O investimento de energia nas mídias digitais foi consequência quase natural, tão importante pra mim como o investimento na produção propriamente acadêmica. Desde o início que um dos principais motes da minha reflexão é a crítica ao que se convencionou chamar de “identitarismo”.
É claro que ao longo dos anos, a crítica foi amadurecendo, como acontece com quase tudo na vida. Da polêmica rápida com posts curtos no Facebook aos textos mais elaborados publicados na imprensa e em suportes acadêmicos.
Acredito ser possível sistematizar minhas análises críticas do identitarismo em alguns pontos norteadores:
1. O identitarismo é a principal elemento da cultura política contemporânea, sendo sintomático do colapso da democracia liberal representativa no não-território das mídias digitais.
2. Existe identitarismo de esquerda e de direita, que compartilham rigorosamente a mesma semântica política.
3. O militante identitário é movido por um afeto narcísico. Não quer ser “representado” na política, no sentido moderno do termo. Quer ser refletido, projetado. Quer ver a si mesmo no poder, como se estivesse diante de um espelho. Essa projeção narcísica é mais importante do que a representação de interesses objetivos.
4. O militante identitário é cético. Desconfia da ciência e das universidades, que estariam dominadas pelos comunistas (para o identitarismo de direita) ou pelos homens brancos heterossexuais (para o identitarismo de esquerda).
5. Os identitários radicalizaram o procedimento da análise do discurso, fundado na ideia de “lugar de fala”. Radicalizaram tanto que não há mais discursos a serem analisados. Há apenas lugares a serem habilitados ou interditados de acordo com os critérios da moral identitária. O discurso, portanto, é reduzido ao lugar de onde foi enunciado.
6. Os militantes identitários alargam seus signos de denúncia a tal ponto que perdem o objeto e inviabilizam o convívio democrático. Para os identitários de direita até João Dória é comunista. Para os identitários de esquerda, qualquer uso mais ousado da linguagem pode ser tomado como transfobia, racismo, machismo e etc.
7. A cognição identitária é primária, rudimentar, sendo fundada quase totalmente na experiência. Não há muito espaço para a abstração, sempre vista com desconfiança.
Desenvolvi essas reflexões em alguns textos, que começo a reunir para publicar um livro
*Professor universitário, historiador, ensaista e analista político. Acesse a página










