O Fisiologismo do atual PT de Imbé

Editorial

O município de Imbé, assim como todo o Litoral Norte do Rio Grande do Sul, atravessa uma série de transformações urbanas e ambientais. Nesta cidade vizinha de Tramandaí, multiplicam-se intervenções promovidas pela atual gestão pública no campo da infraestrutura e da reorganização urbana.

Entre as principais ações estão a duplicação de avenidas, a instalação de iluminação LED em áreas urbanas e dunas, a canalização de córregos e valos de drenagem, o avanço sobre campos de dunas para expansão viária e o projeto de uma nova ponte na barra do Rio Tramandaí.

No entanto, muitas dessas intervenções — impulsionadas por altos investimentos financeiros — vêm sendo fortemente contestadas por especialistas, órgãos ambientais, Ministério Público e diferentes setores da sociedade civil organizada.

Recentemente, ganhou destaque a disputa judicial envolvendo o despejo de esgoto no Rio Tramandaí, oriundo dos municípios de Xangri-Lá e Capão da Canoa. O prefeito de Imbé, Ique Vedovato (MDB), vem fazendoalgumas declarações que parecem defender o projeto. O caso evidencia algo maior: o Litoral Norte vive hoje uma disputa concreta entre diferentes modelos de desenvolvimento para a região.

Diante desse cenário, movimentos ligados à sociedade civil, como o MOV, buscaram construir espaços de convergência entre coletivos, instituições e associações locais, como a ACIBM, que atua em defesa de um modelo sustentável para o município.

Entretanto, há um obstáculo frequentemente invisibilizado no debate público, mas profundamente nocivo às lutas socioambientais: o fisiologismo político.

Em especial, é necessário refletir sobre o comportamento do PT de Imbé. O partido, historicamente situado no campo progressista e que conta com parlamentares e representantes alinhados às pautas ambientais e às críticas à especulação imobiliária no litoral, apoiou, por meio de sua nova composição, na última eleição, a candidatura de Ique Vedovato, forte aliado do deputado de extrema direita Alceu Moreira.

Por trás de discursos identitários e da busca por espaços institucionais, cargos ou promessas de vantagens políticas, parte da atuação local parece reproduzir práticas pragmáticas que contradizem o discurso público adotado pelo próprio campo progressista. Em vez de fortalecer uma construção coletiva e coerente em defesa do território, observa-se, muitas vezes, a priorização de interesses individuais e personalismos.

Esse comportamento remete à lógica fisiológica tradicional da política brasileira — historicamente associada ao chamado Centrão — e também dialoga com valores do neoliberalismo contemporâneo.

O pesquisador Christian Laval aponta que o neoliberalismo é estruturado pela lógica permanente da competição econômica. E, quando a competição passa a orientar as relações humanas, o individualismo se torna um valor central.

Isso ajuda a compreender por que determinados grupos e sujeitos, mesmo adotando discursos progressistas, acabam reproduzindo práticas marcadas por vaidade, oportunismo e incoerência política. Defender pautas sociais ou ambientais exige mais do que estética discursiva: exige compromisso ético, coerência prática e construção coletiva.

O TemQueVer sempre esteve comprometido com pautas transformadoras — tanto nos grandes debates quanto, principalmente, nas questões que atravessam o cotidiano do Litoral Norte do RS. Esta manifestação surge justamente da percepção de que falta, hoje, uma atuação partidária verdadeiramente coerente, contínua e sistemática na defesa de um Imbé sustentável.

Mais do que aparecer em fotografias ou fortalecer personalismos, é necessário construir compromisso político real com o território, suas comunidades e seus ecossistemas.

 

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