EGITO – COPA DO MUNDO DE CINEMA

Grupo G: Bélgica, Egito, Irã e Nova Zelândia

Uma das grandes forças do futebol africano e árabe, mas com presença discreta no futebol mundial, o Egito chega apenas à sua quarta participação em Copas do Mundo da FIFA. A primeira foi em 1934, na Itália; posteriormente, voltaria aos Mundiais apenas em 1990, coincidentemente na mesma Itália. Após uma campanha decepcionante em 2018, na Rússia, Os Faraós, alcunha do selecionado egípcio, finalmente avançou da fase de grupos e jogou 16 avos de final contra a Austrália. Vitoriosos nas cobranças de pênaltis, agora enfrentarão a Argentina de Lionel Messi nas oitavas-de-final.

Sob a liderança do treinador Hossam Hassan, lenda como ex-futebolista e artilheiro da seleção, o Egito conquistou a vaga disputando as Eliminatórias da CAN, num grupo composto por Burkina Faso, Djibuti, Etiópia, Guiné-Bissau e Serra Leoa. Pela primeira vez, os egípcios terminaram invictos, feito este conseguido graças ao talento do experiente craque Mohamed Salah e de jovens talentos como Omar Marmoush, Mahmoud Trézéguet e Mostafa Mohamed.

Pioneiro tanto em África como no mundo árabe, o Egito foi, durante muito tempo, a principal indústria cinematográfica de toda a região, a ponto da cidade do Cairo ter ficado conhecida como a capital do cinema no Oriente Médio (ou Hollywood do Nilo). Para se ter uma ideia de sua relevância, 75% dos filmes árabes são produzidos pelos egípcios. Na década de 1950, a chamada época de ouro do Egito, o país detinha a terceira maior indústria de cinema do mundo.

O cinema chegou ao país em 15 de novembro de 1896, em Alexandria, pelas mãos dos irmãos Lumière. O primeiro filme produzido no país foi um curta documental intitulado A Visita do Quediva Abbas Helmi, cujo lançamento ocorreu em 1907; por sua vez, o primeiro longa nacional, Laila, só viria a ser lançado em 1927. Em 1935, o Studio Misr, financiado pelo industrial Talaat Harb, emergiu como o equivalente egípcio aos grandes estúdios de Hollywood, um papel que a empresa manteve por três décadas. Os musicais sempre atraíram o público egípcio, sobretudo aqueles filmes cujas estrelas haviam surgido não no âmbito da sétima arte, mas na esfera da indústria fonográfica.

Uma história curiosa do cinema egípcio remonta a 1975, ano em que foi lançado o longa O Vestido Branco (Al-Rida’ al-Abyad, no título original), do diretor Hassan Ramzi. Sua trajetória de sucesso ganhou novos patamares quando ele foi lançado na União Soviética e vendeu 61 milhões de ingressos, tornando-o o filme mais visto no país em 1976. Tais números fizeram dele o filme egípcio de maior bilheteria em todos os tempos – sua bilheteria no exterior é maior do que a soma de todos os demais filmes lançados fora do país.

A partir dos anos 1980, no entanto, a indústria cinematográfica do Egito passou a vivenciar um declínio, algo acentuado na década seguinte. Essa crise só foi revertida no século XXI – nas últimas duas décadas, a política do cinema egípcio foi moldada por questões mais amplas, como a globalização econômica e os conceitos de identidade nacional.

Na Copa do Mundo de Cinema do TemQueVer, o Egito vem representado por um longa-metragem de 1954 dirigido pelo icônico Youssef Chahine: The Blazing Sun (Siraa Fil-Wadi, no título original em árabe). Estreia da lenda Omar Sharif no cinema, o filme foi gravado no impressionante Vale dos Reis e lançado dois anos após a Revolução Egípcia de 1952, que derrubou o Rei Farouk e levou Gamal Abdel Nasser ao poder, transformando o país de uma monarquia sob influência colonial britânica em uma república com forte apelo nacionalista e socialista.

Além de épico, The Blazing Sun se constitui como uma crítica social à exploração latifundiária, combinando, de maneira magistral, uma perspectiva neorrealista com o melodrama. Nele, o público assiste ao romance proibido de classes entre um engenheiro agrônomo progressista (filho de camponeses) e a filha de um paxá implacável. Tudo isso em meio ao calor opressivo do Alto Egito, onde a câmera de Chahine faz com que a paisagem deixe de ser um mero plano de fundo decorativo e passe a agir como um catalisador psicológico.

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