Cinema Marginal Piauiense – Parte 2: Marginais no Rio

 

Em 1971, vivendo no Rio de Janeiro e pouco antes de retornar a Teresina, Torquato Neto interpretou uma prostituta travestida no filme pioneiro de temática gay Helô e Dirce, Mangú Bangue, de Luiz Otávio Pimentel. Essa produção, assim como Nosferato no Brasil, de Ivan Cardoso, filmada ainda mais cedo naquele ano, teve um impacto profundo sobre o jovem tropicalista. Torquato levou essas experiências e influências de volta a Teresina, especialmente o interesse em desconstruir o cinema de gênero e em adotar um experimentalismo underground, compartilhando essas ideias com seus pares. Com isso em mente, um dos filmes de abertura desta sessão é justamente a cópia resgatada da obra de Pimentel.

Após a conclusão de O Terror da Vermelha, em 1972, muitos dos cineastas e participantes do primeiro ciclo do Cinema Marginal Piauiense deixaram Teresina para estudar ou trabalhar em outros lugares. Para aqueles jovens artistas inquietos e rebeldes, a cidade oferecia poucas oportunidades naquele momento, ao mesmo tempo em que crescia o desejo de circular, experimentar e conhecer outras partes do país. Antes de sua morte por suicídio, Torquato convidou diversos artistas ligados ao primeiro ciclo de filmes realizados em Teresina a irem para o Rio de Janeiro, onde teriam nele um amigo, um ponto de apoio e a possibilidade de encontrar novas oportunidades de trabalho.

Foi nesse contexto que cineastas, atores e colaboradores piauienses como Arnaldo Albuquerque, Carlos Galvão, Edilberto Costa, Joãozito, Xico Pereira, Conceição Machado e Rubem Gordim partiram para tentar a sorte na cidade grande. Ainda assim, sair do Piauí não significou romper com suas origens. Onde quer que estivessem, esses artistas levavam consigo o espírito piauiense e a paixão por produzir um cinema divertido, político e experimental, feito em Super 8, sempre baseado na colaboração e em continuidade com o impulso criativo que haviam iniciado ao lado de Torquato.

Pouco depois de chegarem ao Rio de Janeiro e se estabelecerem, esses jovens cineastas deram continuidade ao primeiro ciclo do cinema piauiense, produzindo novos filmes em Super 8 no mesmo espírito coletivo e underground. Agora, no entanto, essa energia se deslocava para outra paisagem: as praias tropicais do Rio, a presença do Pão de Açúcar e os cenários da cidade passavam a servir de fundo para uma produção que permanecia profundamente ligada ao Piauí, mesmo quando realizada longe de Teresina.

A mostra Cinema Marginal Piauiense Parte 02: Marginais no Rio, portanto, destaca as primeiras influências de Torquato Neto no Rio de Janeiro, que ele levaria consigo a Teresina, e acompanha a trajetória dos cineastas piauienses à medida que projetaram essa energia para além de seu estado natal, continuando a redefinir o cinema brasileiro por meio da prática coletiva.

Fonte: Cinelimite*

Onde assistir a esses clássicos recuperados?

A segunda parte da Mostra Cinema Marginal Piauiense, intitulada Marginais no Rio, está disponível gratuitamente no período de 15 de julho a 12 de agosto de 2026, com quatro curtas-metragens em cópias restauradas.

Para assistir aos filmes, basta acessar a plataforma cinelimite.com

Confira os filmes disponíveis na programação dessa segunda parte da Mostra:

Filme Direção Ano
Helê e Dirce – Mangú Bangue Luiz Otávio Pimentel 1971
Escorpião Vermelho Carlos Galvão 1974
Porenquanto Carlos Galvão 1974
Tupy Niquim Xico Pereira 1974

 

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