FRANÇA – COPA DO MUNDO DE CINEMA

Grupo I: França, Iraque, Noruega e Senegal

O protagonismo da França no futebol representa uma das grandes mudanças de forças no esporte bretão das últimas décadas. Les Bleus (Os Azuis), alcunha da seleção nacional francesa, mudou de patamar em 1998, quando foram campeões mundiais pela primeira vez jogando em casa, numa partida histórica (3 x 0) contra o Brasil. De lá para cá, apesar de alguns momentos vacilantes, os franceses costumam chegar às Copas como favoritos – tanto é que o bicampeonato veio na Rússia, em 2018. E isto se repete mais uma vez em 2026, com uma geração de craques que já alcançou as semifinais, liderados por Kylian Mbappé e Ousmane Dembélé.

O técnico Didier Deschamps – ex-jogador e capitão do time campeão em 1998 – está há 14 anos à frente da seleção. Ele levou os franceses à sua 17° Copa do Mundo da FIFA, a oitava consecutiva, após uma campanha irretocável, sem qualquer derrota, pelas Eliminatórias da UEFA, jogando contra Azerbaijão, Islândia e Ucrânia.

No cinema, pouco ou quase nada é preciso dizer sobre a França. Ou melhor, tudo é possível dizer sobre o país que “inventou” a sétima arte com os irmãos Lumière e foi responsável por cineastas (Georges Méliès, Alice Guy-Blaché, Abel Gance, Jean Renoir, Jean-Luc Godard (radicado na Suíça), François Truffaut, Robert Bresson, a Agnès Varda (nascida na Bélgica), Alain Resnais, Claire Denis etc.) e vanguardas (surrealismo, impressionismo, Nouvelle Vague, Novo Extremismo Francês etc.) que mudaram a história cinematográfica mundial.

Em virtude da magnitude ímpar do cinema francês, praticamente impossível de ser sintetizado em poucos parágrafos, o TemQueVer e o Cine Mulholland vão direto ao assunto na escolha do representante galês na Copa do Mundo de Cinema: Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse, no título original), da diretora Agnès Varda (nascida na Bélgica, mas radicada na França), curta documental que é uma obra-prima do fazer cinematográfico na contemporaneidade. Vale salientar que, no período histórico de seu lançamento, na virada do século XX para o XXI, o cinema passava pela transição da película para o digital. Enquanto a indústria temia a perda da “textura” do cinema tradicional, Varda enxergou na câmera digital portátil e de baixo custo uma ferramenta de libertação.

A leveza do equipamento permitiu que Varda filmasse sozinha, sem uma equipe invasiva que intimidasse seus entrevistados. Essa mudança técnica gerou duas consequências estéticas cruciais para o documentário francês: primeiro, o “cinecrever” (cinécriture), conceito cunhado por ela que une o ato de escrever, dirigir e montar em um único processo orgânico, tornando o filme um ensaio pessoal em constante evolução; segundo, ao deixar a câmera ligada de forma despretensiosa, Varda assume o erro técnico como poesia visual – a imperfeição passa a ser sinônimo de verdade.

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