O CONVITE ou o Teorema das Aparências (Crítica)

Por Pablo Rodrigues*

No filme Teorema (1968), Pier Paolo Pasolini imaginou a chegada de um estranho que atravessa uma família burguesa como um vendaval silencioso. Ao se relacionar sexualmente com cada um de seus membros, o visitante expõe suas contradições e seus desejos reprimidos, deixando para trás apenas suas ruínas. O Convite (2026), novo longa-metragem de Olivia Wilde (que também protagoniza o filme), recupera um pouco dessa estrutura narrativa. Porém, o agente desestabilizador aqui não é um único visitante, mas um casal de vizinhos que surge de maneira quase fantasmagórica para confrontar outra família aparentemente estável.

Refilmagem do filme Sentimental (2020), de Cesc Gay, O Convite nos apresenta a Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde), um casal que se vê preso à rotina da relação e convidam os novos vizinhos Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz) para jantar. No entanto, o que era pra ser uma noite tranquila com coquetel, se transforma em um evento repleto de situações constrangedoras e reviravoltas inesperadas ao descobrir que o misterioso casal, talvez, esteja organizando orgias no apartamento de cima.

Apesar do que a premissa possa sugeir, vale destacar que O Convite não é um filme sobre relacionamentos abertos, mas sim sobre a falência das aparências que sustentam a família tradicional contemporânea, heteronormativa e capitalista. Ao construir uma comédia de constrangimento sobre desejo e vida conjugal, o longa revela algo mais inquietante: a fragilidade dos papéis que homens e mulheres aprendem a desempenhar para preservar a imagem de uma família que já não encontra sustentação na experiência concreta de seus integrantes.

Isso se reflete nas escolhas da ótima direção de Olivia Wilde, que adota uma dinâmica teatral, com a trama se passando quase que inteiramente num único cenário: o apartamento do casal protagonista. E o que poderia ser uma limitação para a mise-en-scène da obra, acaba contribuindo para reforçar a própria temática central do filme: a vida conjugal convertida em uma exaustiva e contínua encenação de papéis pré-fabricados. O apartamento aqui se mostra como um microcosmo onde se encena a derrocada do modelo tradicional da família contemporânea.

Além disso, durante a primeira metade do filme, seus protagonistas raramente compartilham o mesmo quadro. Quando aparecem juntos, um objeto os separa. Quando não, um deles surge refletido em espelhos ou superfícies que duplicam suas imagens. A câmera não filma corpos reais, mas reflexos; não captura a intimidade, mas a projeção de uma estabilidade fictícia. Assim, antes mesmo que os diálogos revelem as fissuras daquele casamento, a mise-en-scène, ou seja, os elementos visuais e estilísticos em cena, já sugerem que algo está fora do lugar.  O casal existe, mas sua unidade parece depender mais de uma imagem construída do que de uma experiência efetivamente compartilhada. É somente na segunda metade, quando essa imagem começa a se desfazer, que os espelhos e reflexos somem.

A ruptura dessa arquitetura de aparências ocorre com a chegada dos vizinhos. Assim como o visitante enigmático de Teorema, a dupla funciona como um catalisador de natureza quase fantasmagórica. Vestidos em tons escuros, surgem como demônios tentadores que não oferecem necessariamente um modelo de vida “melhor”, mas cuja existência fora dos padrões hegemônicos da família tradicional burguesa já basta para desorganizar as aparências que o casal de protagonistas tenta sustentar. Eles expõem a fratura daquele lar; sua passagem torna impossível continuar atuando.

Com isso, os protagonistas passam a encarnar duas respostas distintas — e igualmente alienadas — à mesma crise contemporânea: o marido, com seu machismo estrutural, demonstra uma incapacidade de ousar fazer o que de fato lhe dá sentido profissionalmente, além de o impedir de enxergar a parceira como pessoa autônoma, com desejos e vontades próprias, operando um apagamento sistemático da companheira. Esta, por sua vez, vivencia a alienação pelo vazio existencial. Sem encontrar respaldo ou realização na dinâmica conjugal, tenta estancar a falta por meio do consumo, da obsessão pela imagem e da busca por validação social.

Nenhum dos dois consegue responder à crise enquanto permanece refém desse teatro social. E é somente à medida que essa encenação conjugal desmorona e as máscaras caem, que os espelhos e as barreiras físicas desaparecem da composição visual. Assim, no lindo desfecho, despidos da necessidade de atuar um para o outro, os dois são finalmente filmados juntos no mesmo plano, sem nada a separá-los. O que resta não é um clichê romântico, mas o reencontro genuíno de pessoas que, através do choque sensível da arte, desistem de encenar e voltam a existir.

Essa engrenagem dramática só ganha o alcance necessário devido à precisão do seu ótimo elenco. Olivia Wilde equilibra com sensibilidade a amargura e a busca por sentido de sua personagem, enquanto Penélope Cruz e Edward Norton entregam uma energia vibrante, brincando com a sofisticação e a vivacidade de seus personagens. Até mesmo Seth Rogen é bem aproveitado. Consciente das limitações de sua persona cômica habitual, Wilde utiliza a figura do ator a favor da narrativa: sua presença como homem comum, defensivo e inseguro é subvertida para encarnar de forma precisa o machismo acomodado e a inércia do marido incapaz de enxergar a ruína ao seu redor.

Assim, através de uma comédia romântica, O Convite retrata uma família que já não acredita na própria narrativa. Os misteriosos vizinhos não vêm para destruir aquele casamento, mas para revelar que ele já estava em ruínas. O que desmorona ao longo da trama não é apenas uma relação afetiva, mas os próprios valores burgueses patriarcais e heteronormativos que a família tradicional contemporânea insiste em sustentar. Sob a superfície de uma vida conjugal aparentemente comum, o filme encontra personagens presos a papéis sociais, expectativas de gênero e modelos afetivos que insistem em sobreviver mesmo quando seus fundamentos já começaram a ruir.

Ao fim, o longa de Olivia Wilde mostra-se um retrato melancólico e lúcido de uma desconstrução necessária sobre as relações amorosas na contemporaneidade. Quando a trama chega ao fim, o público não testemunha o nascimento de um novo casal, mas o resgate de duas pessoas. O filme nos lembra que o verdadeiro ato político e afetivo de um relacionamento não é se anular pela outra pessoa, ao contrário, é construir um espaço onde ambos possam não ter medo de existir em suas singularidades.

*Psicólogo formado pela Universidade Federal de Alagoas, especialista em Saúde Mental, militante de esquerda, cinéfilo, crítico de cinema, criador do canal do YouTube, podcast e página do Instagram Cinema em Movimento e colaborador do site TemQueVer.

****

PARATICIPE DE CONVERSAS SOBRE CINEMA E CULTURA NO NOSSO GRUPO DO WHATSAPP (Clique aqui)

SEGUE NO INSTAGRAM 

Quer escrever para o TemQueVer? Entre em contato conosco através do chat de nossas redes sociais (Instagram e Facebook) ou pelo email temquevercinema@gmail.com

Comente

Deixe um comentário