Por Leonardo Lima
Recentemente, durante a entrega do Prêmio Grande Otelo 2026, o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, ao subir ao palco para receber o troféu de Melhor Filme pelo longa O Agente Secreto, manifestou-se da seguinte forma ao discursar: “Há um ar forte sudestino que a gente precisa dissipar um pouco.” Destinada à Academia Brasileira de Cinema, entidade que organiza a premiação mais importante do cinema nacional, a frase em tom crítico não deixa de estar correta, sobretudo se pensarmos no conjunto de obras indicadas e premiadas no Grande Otelo ao longo dos seus 25 anos de existência.
Levantamento estatístico realizado pela página Tanto Cine (@tantocine) revelou que 87,9% do total de 486 troféus entregues na premiação foram para filmes produzidos na região Sudeste, sendo que 85,8% ficaram com os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Por sua vez, 19 estados nunca tiveram sequer uma obra vencedora no Grande Otelo. Tais números se aproximam daqueles verificados em relação ao circuito exibidor nacional, que também registra uma concentração sudestina. Segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), um total de 2.783 filmes brasileiros foram lançados nos cinemas do país no período de 1995 a 2025, sendo que cerca de 80% eram oriundos do Sudeste.
No entanto, este breve texto não tem por objetivo aprofundar-se nas estatísticas do Prêmio Grande Otelo ou dos centros produtores do nosso cinema; antes, busca questionar até que ponto a frase de Kleber Mendonça é válida enquanto crítica, sem que se corra o risco de negligenciar a existência de experiências cinematográficas diferentes mesmo em contextos geográficos, históricos e socioculturalmente hegemônicos. Nesse sentido, uma pergunta se faz crucial: que ares sudestinos seriam esses a serem dissipados?
Certamente não seriam ares soprados desde as veredas urbanas de Contagem, município da Região Metropolitana de Belo Horizonte que viu surgir, em 2009, a Filmes de Plástico, iniciativa dos cineastas André Novais Oliveira, Gabriel Martins e Maurílio Martins e do produtor Thiago Macêdo Correia. Nesses 17 anos de existência, a produtora mineira tem escrito um capítulo particular na história do cinema nacional, inscrito diretamente no âmbito do que muitos têm chamado de Novíssimo Cinema, marcado pela pluralidade de narrativas, técnicas e estéticas empregadas na produção de obras comprometidas com a realidade caleidoscópica do Brasil no século XXI.
Além de promover a descentralização do fazer cinematográfico no país, o coletivo responsável pela Filmes de Plástico tem levado para as telas corpos e territórios distintos daqueles que figuram nas produções do eixo Rio-São Paulo – sejam as solares feitas na litorânea Cidade Maravilhosa, sejam as cosmopolitas nascidas no seio da Terra da Garoa. Ao mesmo tempo, esses indivíduos (mineiros, periféricos e não brancos) têm proposto abordagens autorais, minimalistas e intimistas, não raramente híbridas em sua formatação narrativa.
São obras que, portanto, privilegiam, entre outras coisas: as pequenas e banais ações do cotidiano; um olhar antirracista no qual o protagonismo negro é movido à base do afeto e das vivências e aspirações de suas personagens; o naturalismo e a espontaneidade nos diálogos e na blocagem; a porosidade da mise-en-scène, o que implica na tecitura de filmes em que a ficção e o documental são intercambiáveis, ou, ainda, numa transição contínua entre os gêneros cinematográficos; a produção independente e coletiva, de modo a garantir o controle criativo sobre cada obra e possibilitar a rotatividade no exercício de funções – Gabriel, Maurílio e André Novais frequentemente operam a câmera, produzem ou editam os filmes uns dos outros. Esse conjunto de características torna fértil ao extremo a seara na qual a produtora semeia seus projetos, selecionadas para mais de 200 festivais de cinema ao redor do planeta.
A seguir, o TemQueVer lista todas as obras já feitas pela Filmes de Plástico no período de 2009 a 2026 – inclusive, uma parcela significativa dos curtas dela atualmente está disponível no catálogo da Filmicca:
Longas-metragens
2014: Ela Volta na Quinta, de André Novais Oliveira
2017: Baronesa, de Juliana Antunes
2018: Temporada, de André Novais Oliveira
2019: No Coração do Mundo, de Gabriel Martins e Maurílio Martins
2021: A Felicidade das Coisas, de Thais Fujinaga
2022: Marte Um, de Gabriel Martins
2023: O Dia que Te Conheci, de André Novais Oliveira
2025: O Último Episódio, de Maurílio Martins
2026: Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins
2026: Se Eu Fosse Vivo…Vivia, de André Novais Oliveira
Curtas-metragens
2009: Filme de Sábado, de Gabriel Martins
2009: No Final do Mundo, de Gabriel Martins
2009: Gabriel Shaolin Mordock, de Gabriel Martins
2009: Alzheimer, de André Novais Oliveira, Gabriel Martins e Maurílio Martins
2010: Pelos de Cachorro, de Gabriel Martins e Maurílio Martins
2010: Fantasmas, de André Novais Oliveira
2010: Contagem, de Maurílio Martins e Gabriel Martins
2011: Domingo, de André Novais Oliveira
2011: Dona Sônia Pediu uma Arma para Seu Vizinho Alcides, de Gabriel Martins
2011: Estado de Sítio, de André Novais Oliveira e Leo Pyrata
2013: Pouco Mais de Um Mês, de André Novais Oliveira
2013: Um Homem que Voa: Nelson Prudêncio, de Maurílio Martins e Adirley Queirós
2014: Quinze, de Maurílio Martins
2014: Mundo Incrível Remix, de Gabriel Martins
2015: Quintal, de André Novais Oliveira
2015: Rapsódia para o Homem Negro, de Gabriel Martins
2016: Constelações, de Maurílio Martins
2017: Nada, de Gabriel Martins
2020: Movimento, de Gabriel Martins
2020: Pai, de André Novais Oliveira
2020: Incluindo Deus, de Maurílio Martins
2021: Romance, de Karine Teles
2021: Rua Ataleia, de André Novais Oliveira
2022: Terremoto, de Gabriel Martins
2023: Nossa Mãe era Atriz, de André Novais Oliveira e Renato Novaes
2024: Quando Aqui, de André Novais Oliveira
Televisão
2025: O Natal dos Silva, série para o Canal Brasil
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