CHAGA DE FOGO e as prisões da masculinidade (Crítica)

Por Pablo Rodrigues*

Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se consolidava enquanto nova potência econômica e militar. Porém, ao mesmo tempo, o país também era atravessado pelo medo, pelo conservadorismo moral e pela perseguição política, que teve seu auge no período conhecido como macarthismo, onde a defesa da ordem, da família e dos valores tradicionais eram as ferramentas ideológicas para reafirmar certezas diante das inseguranças daquele momento histórico. É nesse contexto que surge Chaga de Fogo (1951), uma obra que, sob a aparência de um drama policial noir, coloca em questão justamente as contradições desse cenário social.

Na obra, acompanhamos Jim McLeod (Kirk Douglas), um detetive linha dura obcecado pelo trabalho e que acredita que a lei deve ser cumprida cegamente, custe o que custar. O alvo da vez de suas investigações é Karl Schneider (George Macready), responsável por realizar abortos e causar a morte de diversas pacientes. No entanto, ao longo da trama, vamos descobrindo que a determinação inabalável do detetive pode ser resultado de uma questão mais pessoal, o que abala a legitimidade das investigações.

Dirigido por William Wyler (Ben-Hur, A Princesa e o Plebeu), Chaga de Fogo (ou História de um Detetive, como também é intitulado no Brasil) impressiona pela coragem com que aborda temas delicados para seu tempo, como o aborto, a moral sexual, os limites da autoridade policial e, principalmente, as contradições do modelo de masculinidade hegemônico na sociedade estadunidense do pós-guerra. Uma masculinidade conservadora, tóxica, patriarcal que, ao tentar impor ordem ao mundo, acaba destruindo as relações sociais.

Isso é refletido na figura do protagonista, o detetive Jim McLeod, interpretado com intensidade por Kirk Douglas, em uma de suas melhores atuações. À primeira vista, o personagem parece representar o ideal de integridade que a função policial exige. Incorruptível, disciplinado e intransigente diante do crime, ele se apresenta como alguém disposto a sacrificar tudo em nome da justiça. Entretanto, à medida que o filme avança, o roteiro revela as contradições ocultas sob essa aparência de firmeza moral. A determinação de McLeod confunde-se progressivamente com intolerância; seu compromisso com a lei transforma-se em obsessão punitiva; sua defesa da ordem converte-se em uma incapacidade de compreender a complexidade humana daqueles que o cercam.

Nesse sentido, o fato de quase toda a narrativa acontecer dentro da delegacia, transforma o espaço fechado não apenas em um cenário, mas também uma expressão visual alegórica da mentalidade fechada de seu protagonista. Cercado por grades e paredes, McLeod habita um universo onde tudo é previamente dividido entre o certo e o errado, o justo e o injusto, o culpado e o inocente. O drama do personagem nasce justamente de sua incapacidade de perceber aquilo que escapa a essas categorias rígidas, a essas paredes mentais.

Não à toa o único momento em que McLeod sai um pouco dessa rigidez acontece justamente fora do espaço fechado da delegacia, no telhado do edifício, onde o personagem é obrigado, talvez pela primeira vez, a escutar aquilo que durante toda a vida se recusou a ouvir. Longe das grades, dos corredores e das salas onde sua autoridade encontra respaldo institucional, ele é confrontado pelos próprios colegas sobre como a forma como ele enxerga o mundo pode conduzi-lo à própria ruína. A oposição entre o espaço fechado da delegacia e o espaço aberto do telhado sintetiza, assim, a tragédia de um homem incapaz de escapar das grades que ele próprio carrega consigo.

Embora a narrativa permaneça quase integralmente confinada ao interior da delegacia, a mise-en-scène impede que o espaço se torne estático ou teatralizado. Fazendo um excelente uso da profundidade de campo, a fotografia organiza os planos de modo que múltiplas ações aconteçam simultaneamente, mantendo em foco não apenas os personagens centrais, mas também aquilo que acontece ao fundo da cena, transformando a delegacia em um organismo vivo. Ali transitam criminosos, vítimas, policiais, advogados e cidadãos comuns, todos submetidos à autoridade de uma instituição encarregada de definir os limites entre a inocência e a culpa, entre a ordem e o desvio, tal como acontecia com os Estados Unidos sob a vigência do macarthismo.

Soma-se a isso o desenvolvimento de subtramas diversas, uma mais interessante que a outra, sobre os vários personagens que vão surgindo ao longo da trama naquele ambiente e o resultado é uma encenação que sugere constantemente a existência de uma realidade maior do que aquela percebida por McLeod. Enquanto o detetive insiste em enquadrar o mundo em categorias rígidas de culpa e inocência, certo e errado, a câmera revela um universo muito mais complexo, povoado por ambiguidades, contradições e experiências que escapam aos seus julgamentos.

Em contraponto, sua companheira, Mary McLeod (Eleanor Parker) surge não apenas como a principal vítima de sua masculinidade tóxica, mas também como aquela que revela seus limites. Nesse sentido, o roteiro acerta em não reduzir a personagem a uma simples esposa compreensiva, destinada a suportar os erros do marido até sua inevitável redenção, como era comum no cinema hollywoodiano da época. Ao contrário, Mary é apresentada como alguém que procura preservar o casamento e compreender os conflitos do companheiro, mas que gradualmente percebe a impossibilidade de manter uma relação baseada na desconfiança, no julgamento moral e na necessidade permanente de controle. Mais do que uma condenação individual do protagonista, trata-se do reconhecimento de que determinadas formas de exercer a masculinidade produzem feridas que nem o amor é capaz de reparar.

É por todas essas questões que Chaga de Fogo mostra-se uma obra ousada para sua época, ao questionar, em plena década de 1950, os efeitos destrutivos de uma masculinidade fundada na autoridade, no controle e na incapacidade de reconhecer a complexidade da experiência humana. Ao mesmo tempo, o longa ainda permanece atual, dialogando com nosso contexto social contemporâneo, onde diferentes correntes conservadoras voltam a reivindicar este modelo de masculinidade – como os chamados movimentos “red pill”. Um grande exemplar do gênero noir e um dos melhores trabalhos de Wiliam Wyler.

*Psicólogo formado pela Universidade Federal de Alagoas, especialista em Saúde Mental, militante de esquerda, cinéfilo, crítico de cinema, criador do canal do YouTube, podcast e página do Instagram Cinema em Movimento e colaborador do site TemQueVer.

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