Por Álvaro Nicotti*
Quando passei dos 40 anos, é que entendi — ou penso que entendi — a nostalgia. A animação Divertidamente 2 corrobora com essa afirmação quando os sentimentos aflorados da adolescência expulsam a nostalgia, personificada numa senhora, da sala de comando da cabeça da Riley. Pois, aos quarenta e poucos, já se passou tempo suficiente para vivermos mais de um momento histórico; mais de uma fase do Internacional — aqui, importante dizer que sou um colorado forjado na década de 90, e apenas o tempo me ensinou que é possível ser feliz com seu time —; mais de um perfil de turma de amigos; mais de uma mudança radical de hábitos; passamos da condição de filho rebelde e viajandão para um pai careta e preocupado; sentimos saudade de algo que parecia não ter fim, mas que, agora, percebemos que já ficou para trás há um bom tempo.
Quando assisti a Ainda Orangotangos, senti essa nostalgia diluída em muitas das minhas memórias. Um porto-alegrense que nasceu na Zona Norte e que, quase toda sexta-feira ao entardecer, pegava o T1 para descer na Ipiranga, esquina com a Lima e Silva, rumo à Cidade Baixa.
Na Cidade Baixa, como um andarilho em busca de rodas de gente em frente a bares populares (ou nem tanto), o contato com os mais diversos personagens era frequente e, na maioria das vezes, divertido. Era uma época em que circular de ônibus rumo a bairros de folia e multidões nas calçadas era algo animador.
O ano é 2006. Tempo de promessa de mais um governo progressista. Ano em que a classe média consumia e a boemia transpirava. Ano em que ninguém fazia ideia de que uma pandemia atingiria o mundo sob um presidente fascistoide e negacionista. Muito menos se cogitava, ainda que remotamente, que a ditadura branca do Centrão pudesse se consolidar como força política dominante. Também foi o ano em que o colorado fez sua torcida transbordar de alegria com o gol do Gabiru em cima do melhor Barcelona de todos os tempos, dando ao Internacional o título mundial de clubes. Ano bom esse, o de 2006.
Em 2026, tudo é diferente, ou pelo menos muitas coisas se modificaram. Além de ver meu Internacional mais uma vez lutando para não cair para a segunda divisão — pelo amor de Deus! De novo! Já caiu em 2016, quase em 2025, e se soma a isso o fato de não ganhar um título grande sequer há mais de 15 anos! —, presenciamos a eleição mais importante da história das nossas vidas: Lula contra Flávio Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro é filho de Jair Bolsonaro, aquele que defende a ditadura e que, com seu negacionismo e DNA corrupto, foi responsável por mais de 400 mil mortes no Brasil na pandemia de Covid-19. Pois bem, Flávio é pior ainda: um miliciano que representa a extrema direita brasileira, que cresceu num casamento bem-sucedido entre políticos cariocas do baixo clero ligados a setores conservadores da igreja evangélica e grande parte do agro do Centro-Oeste, que está disputando a eleição muito para chegar ao poder e se blindar dos mais asquerosos crimes de corrupção em que ele, sua família e seu entorno estão enroscados há muitos anos, ao que parece.
Com esse perfil, parecia que seria fácil a eleição. Como alguém desse naipe teria condições de ganhar a eleição? Mas o Brasil de 2026 não é aquele Brasil de 2006. Sim, Flávio estava com tudo para ganhar. Mas veio a mobilização! Milhares e milhares e milhares de pessoas, lideradas pelos jovens que, há pouco tempo, estavam em conserva e tinham rotulados na testa como a geração sem perspectiva, foram para as ruas. Velhinhos e velhinhas foram votar. Todo mundo foi votar. Lula ganhou. Eu chorei.
Começamos 2027 com o mesmo presidente de 2006. Meu colorado ainda pode escapar. Eu já não bebo trago há mais de 10 anos, e a beira do mar tem me atraído mais que uma mesa de bar.
A seguir, um pouco mais sobre Ainda Orangotangos, nas palavras de Antônio Grassi:
AINDA ORANGOTANGOS é todo realizado num único plano sequência, sem cortes, de mais de 80 minutos. Circula por Porto Alegre, em espaços públicos, ruas, ônibus, trem, estação de metrô e apartamentos. É uma experiência fantástica … com resultado eletrizante.
Seus personagens inusitados, ainda orangotangos, vivenciam situações muito loucas e se cruzam como passando o bastão da história um a outro. Como numa corrida de revezamento, que fascina e quase levanta o espectador da cadeira.
O filme foi realizado com recursos do edital de baixo orçamento, custando dois meses de ensaios e rodado 6 vezes. O resultado, interessantíssimo, mostra o excelente trabalho de elaboração e direção com toda a complexidade.
O plano-sequência é sonho dos atores, principalmente os de formação teatral, e o elenco de AINDA ORANGOTANGOS usufrui da experiência com muita entrega e prazer.
Sobre o filme
Ainda Orangotangos (2007) é dirigido pelo gaúcho Gustavo Spolidoro. O filme é uma adaptação de seis contos do livro homônimo do escritor gaúcho Paulo Scott.
Roteirizado por Gibran Dipp e Spolidoro e produzido pela Clube Silêncio, o filme mostra 14 horas de um dia quente de Verão, quando 15 personagens transitam pelas ruas e pelos prédios de Porto Alegre.
Em 25 de abril de 2024, o filme foi exibido no Cina Salinha, na Casa Colarte, em Tramandaí, Litoral Norte do RS. Naquela oportunidade, foi possível fazer um bate papo com o ator Roberto Oliveira.
O filme está disponível no site do diretor (CLIQUE AQUI)
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