ÁFRICA DO SUL – COPA DO MUNDO DE CINEMA

Grupo A: México, África do Sul, Coreia do Sul e Tchéquia

Os Bafana Bafana estão de volta à Copa do Mundo da FIFA. Esta será a quarta participação dos sul-africanos no torneio, sendo que as três anteriores foram em 1998, 2002 e 2010 – nesta última participação, inclusive, a África do Sul foi o país-sede da primeira e única Copa realizada no continente africano até aqui.

Comandada pelo técnico belga Hugo Bross, a África do Sul ganhou a vaga de forma épica, ao fazer a melhor campanha num dos grupos mais disputados das Eliminatórias da CAF, após superar Nigéria e Benin.

A breve história do país nas Copas do Mundo, com menos de trinta anos desde a primeira classificação, guarda um paralelo com a própria história do cinema sul-africano. Em ambos os casos, o regime de segregação racial do apartheid (1948-1994), serve como marco simbólico de dois momentos distintos da realidade nacional. 

Durante as décadas anteriores ao fim do apartheid, a produção cinematográfica na África do Sul estava sob o controle de homens brancos (estrangeiros ou não), que faziam filmes graças aos recursos oriundos da Europa e de Hollywood. Em virtude disso, eram obras que não questionavam o regime supremacista em vigor, e, ainda, contribuíam para a construção de imagens e ideias estereotipadas sobre os negros. É dessa fase, por exemplo, a comédia Os Deuses Devem Estar Loucos (1980), de Jamie Uys, o filme sul-africano de maior bilheteria de todos os tempos.

Após o fim do apartheid, e a consequente subida ao poder de Nelson Mandela, primeiro presidente negro da história do país, as coisas começam a mudar substancialmente, sobretudo a partir da criação da National Film and Video Foundation e de organizações de fomento ao cinema negro, que permitem ampliar o alcance internacional do cinema local.

Os temas abordados também passam a valorizar a realidade vivida pelas pessoas negras, maioria da população. Desse período são filmes como Yesterday (2004) e Tsotsi (2005), ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – o último, que no Brasil ganhou o nome de Infância Roubada, foi o vencedor da categoria. Tangenciando as desigualdades sociais marcadas pelo viés étnico-racial também estão os filmes do cineasta Neill Blomkamp, cuja mente criativa deu vida a sci-fis celebrados mundo afora, com destaque para o excepcional Distrito 9 (2009).

Para representar a África do Sul na Copa do Mundo de Cinema, escalamos o longa-metragem Os Iniciados, de 2017. Dirigido por John Trengove, este é um filme de rara sensibilidade, que aborda o Ukwaluka, rito de passagem masculino mantido há gerações pelo povo originário Xhosa, no qual jovens são circuncidados sem qualquer anestesia e isolados na montanha para aprenderem a ser “homens”, numa perspectiva heteronormativa.

A tensão queer presente no âmago da narrativa, protagonizada pelo operário Xolani (Nakhane Touré), expõe a homossexualidade na contramão do discurso conservador das lideranças Xhosa, retratando-a como uma realidade silenciosa e reprimida que coexiste apesar das tentativas de seu sufocamento por meio da tradição cultural. O uso da câmera na mão e de planos fechados claustrofóbicos são fundamentais na captura do suor, do sangue e da poeira inerentes ao rito, transformando a paisagem natural deslumbrante em uma prisão psicológica para aqueles indivíduos, que encenam o teatro da virilidade masculina tóxica.

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