ESCÓCIA – COPA DO MUNDO DE CINEMA

Grupo C: Brasil, Escócia, Haiti e Marrocos

Integrante do Reino Unido (composto, ainda, por Inglaterra, Irlanda do Norte e País de Gales), a Escócia, mesmo não sendo um Estado-nação soberano, mantém seu status independente no futebol. Essa tradição se deve ao fato de o football association ter se espalhado para as Highlands escocesas pouco tempo depois de surgir entre seus vizinhos ingleses e galeses – não à toa, a primeira partida oficial entre seleções nacionais foi disputada entre Escócia e Inglaterra, em Glasgow, no ano de 1872.

Em Copas do Mundo da FIFA, a Escócia chega, nesta edição de 2026, à sua nona participação, sendo a primeira vez desde 1998 que ela disputará o torneio. Tartan Army é o apelido carinhoso dado à seleção em homenagem ao tartan, o clássico padrão xadrez cujos diferentes desenhos e cores historicamente serviram para identificar clãs e regiões locais. 

Os escoceses nunca passaram da fase de grupos, mesmo na Alemanha, em 1974, quando a seleção possuía vários craques e se despediu de forma invicta. O técnico Steve Clarke, ocupante do cargo desde 2019 e que classificou a Escócia para duas Eurocopas e esta Copa, está muito determinado a quebrar essa escrita constrangedora. A expectativa escocesa é grande, já que se ganhou a vaga de forma emocionante, terminando à frente da Dinamarca no grupo C das Eliminatórias da UEFA.

Na esfera cinematográfica, a Escócia conseguiu desenvolver uma indústria cinematográfica bastante sólida e respeitada em todo o mundo, apesar de sua proximidade com a hegemônica indústria inglesa. Quanto a isso, foi fundamental o papel histórico desempenhado pela Screen Scotland, órgão público do governo autônomo escocês, responsável tanto por fomentar a produção local quanto por atrair grandes produções estrangeiras para serem filmadas na região, aproveitando-se de suas belíssimas paisagens históricas e naturais. Haja vista a dimensão desse investimento governamental, não espanta que tenham saído da Escócia atores e atrizes como Sean Connery (o eterno James Bond), Tilda Swinton, James McAvoy e Gerard Butler. Por sua vez, grandes cineastas como Kevin Macdonald, Lynne Ramsay, Norman McLaren e Charlotte Wells também nasceram por lá.

Escolhemos como representante escocês na Copa do Mundo de Cinema um folk horror (terror/horror folclórico) marcante para a história do cinema mundial, dirigido pelo britânico Robin Hardy. O filme em questão é O Homem de Palha, que inspirou o contemporâneo Midsommar. No longa de 1973 temos, de um lado, Howie (Edward Woodward), protótipo perfeito do establishment britânico ocidentalizado: um policial cristão, rígido, que representa a lei e a ordem vindas do continente; do outro lado, a isolada ilha de Summerisle, uma comunidade agrária escocesa que rejeitou o cristianismo em prol de reviver o paganismo celta, liderada por Lord Summerisle (Christopher Lee).

Observa-se, em O Homem de Palha, o nascimento definitivo do folk horror moderno, isto é, do terror que não se esconde nas sombras da noite, mas é solar, opera à luz do dia, mediado pela comunidade, pela colheita e pelo folclore local. Lembremos, ainda, que a Escócia tem sua história profundamente marcada pelo protestantismo presbiteriano, bastante austero em termos religiosos . Ao colocar um policial que personifica esse puritanismo calvinista escocês contra uma comunidade que abraça o hedonismo, a fertilidade e o panteísmo, o filme toca em uma ferida psicossocial real. Rodado inteiramente em terras escocesas, com uma equipe que absorveu a atmosfera local, o filme também antecipou o movimento de descentralização cultural que, décadas mais tarde, permitiria o surgimento de um cinema escocês autêntico, visceral e desvinculado das amarras do cinema britânico (entenda-se cinema inglês).

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