AUSTRÁLIA – COPA DO MUNDO DE CINEMA

Grupo D: Estados Unidos, Austrália, Paraguai e Turquia

Presente em Copas do Mundo da FIFA desde o campeonato disputado em 2006 na Alemanha, a Austrália chega à sua sétima participação, sendo que o seu debute no Mundial ocorrera em 1974, na Alemanha Ocidental. Sempre importante destacar que a seleção australiana de futebol não disputa as Eliminatórias da OFC, mesmo o país estando situado na Oceania. Coincidentemente ou não, após o ingresso australiano na AFC, a confederação asiática, nunca mais os Socceroos, como é conhecida o time nacional da terra dos cangurus, deixaram de ir à Copa. Até aqui, sua melhor campanha foi ter chegado às oitavas-de-final, em 2006 e 2022.

Para disputar a Copa 2026, os australianos tiveram que suar a camisa para conquistar uma vaga na fase final das Eliminatórias da Ásia, fato este que se tornou possível após o treinador Tony Popovic (ex-zagueiro da seleção) ter assumido o comando da equipe e corrigido os rumos dela. Assim, a Austrália terminou no segundo lugar de seu grupo, conquistando automaticamente o direito de ir ao torneio na América do Norte.

O início da história do cinema na Austrália traz consigo um dos momentos mais importantes da sétima arte a nível mundial. Em 1906, foi lançado no país o filme The Story of the Kelly Gang, dirigido por Charles Tait, considerado o primeiro longa-metragem produzido em todos os tempos. Segundo o crítico de cinema australiano David Stratton, a história do cinema de seu país é transita entre o auge e o declínio – isto é, houve períodos de profunda recessão, durante os quais poucos filmes foram feitos por décadas, e períodos de grande prosperidade, durante os quais uma superabundância de filmes chegou ao mercado.

Em particular, destaque-se a década de 1970, época em que, sob o governo do primeiro-ministro John Gorton, a Austrália vivenciou diversas formas de apoio ao cinema e às artes, incluindo a criação Australian Film Development Corporation. Esse período, que perdurou até o final dos anos 1980, marcou não apenas a Nova Onda Australiana na produção cinematográfica, mas, também, por outro lado, o surgimento do estilo Ozploitation, caracterizado pela exploração da cultura coloquial australiana.

Como resultado dessa fase tida como a Era de Ouro do cinema local, muitos atores, atrizes e cineastas viriam a marcar seus nomes na história da sétima arte, ainda que tenham iniciado suas carreiras muito longe de Hollywood. Importantes exemplos são os dos diretores Peter Weir, George Miller e Baz Luhrmann, e intérpretes como Cate Blanchett, Nicole Kidman, Hugh Jackman, Naomi Watts, Toni Collette, Heath Ledger, Guy Pearce e Sam Worthington.

Para representar a Austrália na Copa do Mundo de Cinema, o TemQueVer e o Cine Mulholland optaram por um filmes mais icônicos, deslumbrantes e bafônicos dos anos 1990: Priscilla, a Rainha do Deserto, do diretor australiano Stephan Elliott. Certamente tem-se aqui um longa-metragem que exige olhar muito além do glitter, dos figurinos extravagantes e da trilha sonora impecável do ABBA. Sob a ótica da história do cinema mundial, essa obra não é apenas uma divertida comédia dramática queer; Priscilla representa um marco tectônico na identidade cultural e na exportação do cinema australiano. O filme também provou que o cinema australiano podia ser altamente específico em sua identidade local, mas universal em seu apelo pop. Faturar um Oscar de Melhor Figurino – desbancando superproduções de Hollywood – foi o testamento definitivo de que a periferia do cinema mundial emergia com força para redefinir as regras dali em diante.

Historicamente, o cinema feito na Austrália projetava para o restante do mundo uma imagem de masculinidade viril ao estremo, rústica e heteronormativa, moldada pelo isolamento no vasto deserto. Filmes como Walkabout (1971), Mad Max (1979) e, sobretudo, Crocodile Dundee (1986) definiram o “verdadeiro australiano” como o homem durão da terra. Em Priscilla, a Rainha do Deserto, onde antes imperava o machismo socialmente enraizado, as personagens Mitzi, Felicia e Bernadette performam de salto alto no topo de um ônibus em movimento, dublando ópera com um figurino de proporções monumentais. Trata-se, portanto, da invasão do artifício urbano e da sensibilidade camp no coração do território mais conservador e rústico do país. 

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