SENEGAL – COPA DO MUNDO DE CINEMA

Grupo I: França, Iraque, Noruega e Senegal

Participante das Copas do Mundo da FIFA pela quarta vez – sendo a terceira seguida -, Senegal é uma das grandes forças do futebol africano na atualidade. Os Leões de Teranga chegaram à América do Norte com uma sequência invicta de 26 jogos sob o comando do treinador Pape Thiaw, ex-jogador da seleção nacional, que tinha a expectativa de superar a campanha de 2002, quando alcançaram as quartas-de-final. Mas a sorte acabou por não sorrir para os senegaleses no sorteio, levando-os a jogar contra França e Noruega ainda na fase de grupos; apesar de classificarem para a etapa seguinte, caíram diante da Bélgica, de forma traumática, nos 16 avos-de-final.

A classificação senegalesa para o Mundial 2026 veio após sete vitórias e três empates nas Eliminatórias da CAN. A vaga, no entanto, não caiu no colo de Senegal, sendo decidida na última rodada, num grupo em que tinha como adversários Mauritânia, República Democrática do Congo, Sudão, Sudão do Sul e Togo.

Se no futebol o Senegal tem se destacado a partir do século XXI, no cinema o país é uma das grandes potências de África, tendo grande visibilidade no período 1960-1980, logo após a independência em relação à França, e desde os anos 2010 há uma crescente em sua produção cinematográfica. 

O primeiro filme senegalês foi África sobre o Sena (Afrique sur Seine, no título original), produzido em 1955, uma co-direção de Paulin Vieyra e Mamadou Sarr – aliás, este filme foi o primeiro feito na África subsaariana. Na década de 1960, Ousmane Sembène, que também era escritor, se tornaria um dos principais cineastas do Senegal, transformando muitos de seus contos em filmes. Considerado por muitos como o Pai do Cinema Africano, ele estava particularmente preocupado com a mudança social e via a sétima arte como uma forma de alcançar um público mais amplo. Em 1963, Sembène produziu seu primeiro filme, um curta-metragem de 20 minutos intitulado Barom Sarret (O Carroceiro, em livre tradução). Em 1966, produziu o primeiro longa-metragem, A Negra de… , o primeiro do Senegal e da África negra subsaariana, que lhe rendeu o Prêmio Jean Vigo.

Nos anos 1970, outro diretor senegalês ganharia notoriedade a nível internacional: Djibril Diop Mambéty. Ele utilizou a linguagem cinematográfica para comentar as condições políticas e sociais de África e, à semelhança de Sembène, seus filmes eram não convencionais, surrealistas, dinâmicos e com narrativas de realismo social. Sheila Petty, pesquisadora canadense especialista em Estudos Africanos, diz o seguinte sobre a contribuição de Mambéty para o cinema: “[…] diferentemente de outros cineastas africanos do final da década de 1960 e início da década de 1970, cujos filmes eram estruturados em torno de um discurso nacionalista essencialista focado na oposição binária entre valores africanos e alienação cultural, Mambéty buscou expor a diversidade da vida real.”

Ainda na década de 1970, a diretora Safi Faye lançou, em 1972, seu primeiro curta-metragem, La Passante (A Transeunte), no qual também atuou. Ela havia sido incentivada pelo etnólogo e cineasta francês Jean Rouch a usar o cinema como ferramenta etnográfica. Em 1975, Faye lançaria o primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher negra na África subsaariana, Kaddu Beykat, que apesar de proibido em sua própria nação, conquistou o Prêmio FIPRESCI da Federação Internacional de Críticos de Cinema. Após uma crise que perdurou por mais de duas décadas, o Senegal vivenciou o renascimento de sua produção cinematográfica nos últimos 15 anos, com destaque para a participação de mulheres cineastas, como Katy Léna N’diaye, Mati Diop, Rama Thiaw e Ramata-Toulaye Sy.

Para representar o Senegal na Copa do Mundo de Cinema, o TemQueVer escolher uma obra que se constitui não apenas como um marco do cinema senegalês, mas igualmente do cinema de África – Touki Bouki, de Djibril Diop Mambéty. Conhecido no Brasil como A Viagem da Hiena, o longa, lançado em 1973, foi produzido por Mambéti tendo ele apenas 28 anos e estando sob influência da Nouvelle Vague francesa. Aqui, o diretor implode a cartilha do cinema feito por Ousbene Sembène estética, ancorada no realismo social e na organização narrativa de estrutura linear e didatismo necessário à conscientização política. Portanto, Mambéty percebe que para descolonizar a mente não basta mudar o conteúdo da mensagem; é preciso descolonizar a forma.

Touki Bouki acompanha Mory (Magaye Niang), um pastor de vacas que pilota uma moto adornada com um crânio de touro, e Anta (Mirian Niang), uma estudante universitária, em suas tentativas desesperadas de conseguir dinheiro para fugir da capital Dacar rumo a Paris. Esta não é retratada como um lugar real, mas como uma miragem psicológica – uma espécie de armadilha ideológica que esvazia o sujeito – particularmente os jovens senegaleses – de sua própria terra. O desfecho do filme, em que os caminhos dos protagonistas se separam no porto, materializa o impasse existencial dessa geração do país. Anta embarca rumo ao navio – o futuro incerto ou a assimilação total numa nação estrangeira; Mory, por sua vez, foge de volta para a terra que ele não consegue abandonar nem habitar plenamente.

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