Memória e existencialismo poético no cinema de Jonas Mekas
Por Leonardo Lima*
Nota: 10,0
Nunca te decepcionei, mundo, mas você se comportou de maneira vil comigo.
É com essas palavras que o cineasta lituano-americano Jonas Mekas impregna de melancolia, desespero e vazio existencial o curta-metragem Song of Avignon, lançado em 1998. Àquela altura, quase chegando aos 80 anos de idade, Mekas parecia querer deixar como um de seus grandes legados cinematográficos esta obra experimental, vanguardista, filosófica, memorialista e poética que se coloca como uma tentativa de levar o público a também ansiar em realizar um mergulho intimista nas profundezas do ser, assim como o seu protagonista o faz ao longo de oito minutos – personagem esta que tanto é o próprio Mekas alguns decênios mais novo, mas, também, uma representação imagética do geist contemporâneo do diretor frente às vivências e reflexões naquele momento em que produzia o curta.
Se o conteúdo de Song of Avignon por si só já é instigante o bastante para nos fazer assisti-lo, a forma como Mekas transforma isso em linguagem cinematográfica é absolutamente genial. Em nenhum momento propenso a propor a inserção de significantes de decifração óbvia, o diretor recorre a um amálgama narrativo composto por planos e sequências desconexos entre si, os quais estabelecem uma ruptura com a lógica hegemônica no cinema de associar imagem e palavra, como se ambas fizessem parte de um léxico obrigatório e legítimo que supostamente permite às pessoas fruir um produto cinematográfico de modo inteligível e socialmente compartilhado.
Ao não cair na armadilha de seguir os caminhos mais fáceis, Mekas faz da montagem o instrumento de lapidação de arquivos pessoais do passado – registros de uma visita feita à cidade francesa de Avignon, em 1966 -, ressignificando-os à luz de um roteiro eivado de pessimismo existencialista. Para isso, usa de efeitos visuais de superposição entre os planos, uma inquietante desestabilização das imagens, narração com voz robotizada etc. para evidenciar a fragilidade e a perturbação psicológica daquela personagem, impossibilitada que estava de enxergar qualquer luz no fim do túnel.
Mas nem só de escuridão e desesperança é feita a vida. A voz interior da protagonista, graficamente representada por um folha de papel textualmente preenchida por meio do uso de uma máquina de escrever, termina a levando a repensar sobre a pseudoinevitabilidade do derradeiro fim. Afinal de contas: “O caminho mais fácil salvará sua alma; o mais difícil salvará a sua alma e a de alguns outros. Então, esta é a sua escolha: salvar-se a si mesmo, ou chegar à redenção junto com outros.” A vida contempla justamente esse morrer e renascer contínuo, o regozijar que antecede cada crise, e assim se sucedendo. Sucumbir até pode ser uma possibilidade, mas está longe de ser a mais digna para consigo e os demais.

Título original: Song of Avignon
Direção: Jonas Mekas
Ano de lançamento: 1998
País: Estados Unidos
Duração: 9 minutos
Disponibilidade: Filmicca
*Recifense, 41 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígena e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland. Coeditor-chefe do site TemQueVer, membro votante da Tela Plus Film Academy e integrante do site Club do Filme e do Podcast Cinema em Movimento.
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