Editorial – A automutilação do Rio Grande do Sul

Por Álvaro Nicotti*

Tivemos, neste mês de julho, um tornado no Rio Grande do Sul.

Dois anos depois da maior enchente da história do Estado.

Mesmo assim, segundo a última pesquisa para o Governo do Estado, Zucco aparece com mais de 30% das intenções de voto.

Pois, convenhamos: existe a esquerda, a direita e existem os negacionistas, os bandidos e os hipócritas moralistas.

A turma que cerca Zucco é repleta de negacionistas. E negar a ciência hoje, no Rio Grande do Sul, é decretar novos afogamentos na lama.

Tem gente que pode estar se afogando na lama e, ainda assim, berrar orgulhosa: “Lula ladrão!”.

A ironia é trágica.

O mesmo candidato estampou no peito um adesivo com a frase “Anti Manu Ela”, em referência à então candidata ao Senado, Manuela. Mas o detalhe mais grave é que o “Ela” aparecia em destaque.

Ou seja, faz campanha contra uma mulher justamente no estado que lidera os índices de feminicídio no país.

E, para não dizer que a crise se resume à política e à bandidagem, até o futebol parece refletir o momento do Rio Grande do Sul. Os maiores clubes do Estado convivem com o risco do rebaixamento, enquanto o Internacional chega a um julgamento apresentando como prova um áudio falso produzido por uma página de humor.

Mas há uma luz no fim do túnel.

E ela vem do Litoral Norte.

Há dois anos, na calada da noite, o Governo do Estado e a multinacional Aegea/Corsan iniciaram uma obra de grande impacto ambiental na região, sem qualquer diálogo com a comunidade.

Um grupo de “pessoas chatas” resolveu fazer aquilo que deveria ser obrigação do poder público: questionar, denunciar e produzir provas dos impactos.

Neste mês de julho, a Justiça, por decisão da Vara Ambiental de Porto Alegre, proibiu o despejo de esgoto no rio.

A decisão representa mais do que uma vitória jurídica. Ela demonstra que a mobilização social produz resultados e reforça que iniciativas semelhantes precisam ser incentivadas.

Porque, apesar de tudo, ainda existe resistência no nosso território.

Assista o vídeo:

*Professor, pesquisador e editor do TemQueVer

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