A ODISSEIA DE NOLAN: VELHAS E NOVAS CRÍTICAS

Por Antonio Henrique Lucena Silva*

Em cartaz nos cinemas brasileiros desde 16 de julho, A Odisseia, do britânico Christopher Nolan, arrecadou 264,1 milhões de dólares no seu primeiro fim de semana de exibição, registrando a maior abertura mundial da carreira do diretor, à frente dos 249 milhões de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012). Com custo total de 250 milhões, o longa foi rodado inteiramente em câmeras IMAX 70 mm e é apenas a mais recente tentativa de levar Homero às telas. Em 1911, os italianos Francesco Bertolini, Giuseppe de Liguoro e Adolfo Padovan produziram L’Odissea, um filme mudo de 44 minutos exibido durante a Exposição Internacional de Turim. Em 1954, Mario Camerini dirigiu Ulysses, com Kirk Douglas no papel-título e Silvana Mangano vivendo, ao mesmo tempo, as personagens Penélope e Circe. Em 1997, uma minissérie televisiva com Armand Assante levou o poema à NBC.

Nenhuma dessas versões, porém, provocou o barulho da atual. As objeções começaram pela infidelidade ao texto escrito e se espalharam por cada detalhe visível do fotograma. Reclamou-se dos navios, e não sem alguma razão: a embarcação que aparece nos trailers é o Draken Harald Hårfagre, um barco norueguês moderno construído à semelhança de uma nau viking medieval, isto cerca de dois milênios posteriores aos acontecimentos narrados em A Odisseia. Reclamou-se das armaduras, sobretudo do elmo preto fosco de Agamêmnon, comparado ao capuz do Batman dos filmes anteriores do próprio Nolan, que respondeu ser plausível o uso de bronze escurecido no período. E reclamou-se, acima de tudo, da escalação de Lupita Nyong’o como Helena e Clitemnestra, fato este que a levou a ser atacada por Elon Musk e comentaristas defensores de uma Helena loira e de pele clara, a qual seria mais condizente com a descrição homérica. À revista Elle, a atriz respondeu que a história é mitológica e que não pretendia gastar seu tempo montando defesas.

Convém lembrar, no meio dessa gritaria, que os gregos foram os primeiros a brigar por causa de Homero. E brigaram de maneira bem pior do que nós.

O Vaso da Sereia (480-70 a.C.), obra pertencente ao Museu Britânico

 

A primeira investida veio no século VI a.C., com Xenófanes de Colofão. Num tempo em que Homero e Hesíodo funcionavam como currículo escolar da Hélade, Xenófanes acusou os dois de terem imputado aos deuses condutas que, entre mortais, renderiam a mais severa censura moral, como o roubo, o adultério e a fraude. Foi ele quem observou que os etíopes desenhavam seus deuses de pele escura e nariz achatado, enquanto os trácios os imaginavam ruivos e de olhos azuis. Ele completou o seu argumento com a imagem que atravessou os séculos: se bois, cavalos e leões tivessem mãos e soubessem desenhar, seus deuses teriam corpo de boi, de cavalo e de leão. A Odisseia, nessa leitura, não era repositório de verdade teológica, mas ficção humana produzida pela imaginação cultural de uma época.

Platão levou a acusação ao extremo. Nos livros II, III e X de A República, condenou as cenas em que os deuses aparecem vingativos, mutáveis ou enganadores, e considerou pedagogicamente nefasto o Poseidon que persegue Odisseu, bem como Atena, que age recorrendo a disfarces e ardis. Quando os leitores de seu tempo tentaram salvar o poeta pela via da alegoria, o que os gregos chamavam de hyponoia, Platão fechou a porta ao sustentar que tais relatos não devem entrar na cidade, com alegoria ou sem alegoria, porque os jovens não distinguem o sentido oculto do sentido literal, e é o literal que lhes molda a alma. No livro X, a crítica deixa de ser moral e vira ontológica: a poesia imita a aparência do objeto sensível, que já é cópia da Forma, e por isso se situa a três graus da verdade. Daí o banimento dos poetas.

A defesa de Homero também é grega. Teágenes de Régio, ainda no século VI a.C., propôs ler as batalhas divinas como oposição entre elementos da natureza: o fogo contra a água, o ar contra a terra. Séculos depois, Heráclito, o Gramático, abriu seus Problemas Homéricos com uma frase que resume toda a estratégia: Homero seria inteiramente ímpio se não tivesse falado por alegorias. Circe transformando os companheiros em porcos vira lição sobre a degradação pelos prazeres, e o herói amarrado ao mastro vira o triunfo da razão austera. Porfírio de Tiro, no século III d.C., foi mais longe em Sobre a Gruta das Ninfas: dez versos do livro 13 descrevendo uma caverna em Ítaca tornam-se o cosmos inteiro, com a porta norte sendo por onde as almas descem à matéria e a porta sul por onde as purificadas retornam. Odisseu deixa de ser rei em viagem e passa a ser a alma humana presa ao ciclo do devir. Aristóteles, por fim, dispensou tanto a condenação quanto o decodificador esotérico. Na Poética, ele elogiou Homero como o maior dos poetas justamente pela construção do enredo, pela unidade de ação e pelo uso exemplar da reviravolta e do reconhecimento.

Ou seja: a interpretação sobre A Odisseia já era divisiva entre os próprios gregos, e assim se mantém nos dias atuais. Cada época traduziu o poema na sua língua moral. Xenófanes o leu com os olhos de uma teologia racional nascente; Platão, com os da pedagogia da cidade; Porfírio, com os da alma que desce e sobe; Aristóteles, com os do artesão que examina a máquina do enredo. Nolan o lê com os olhos de um século que aprendeu a nomear o trauma do combatente. Seu Odisseu não é o rei orgulhoso que volta para cobrar o que é seu, e, sim, um homem que olha para trás e reconhece o próprio papel na violência desmedida em Troia, atormentado pela culpa de ter arquitetado o cavalo. Na ilha de Calipso, ele come a flor de lótus não por acidente, mas porque quer esquecer – e quase esquece, também, a mulher e o filho. Chame-se isso de estresse pós-traumático, e a escolha se explica: é assim que a mensagem chega ao público que hoje compra o ingresso.

O saldo já apareceu fora da sala escura. Segundo a Circana BookScan, as vendas de todas as edições do poema subiram 76% neste ano nos Estados Unidos. No Spotify, as audições do audiolivro dispararam mais de 500% no dia da estreia do filme, e a plataforma informa que a geração Z responde por 36% dos ouvintes. Para uma geração que se acusa de não ler, mandar centenas de milhares de pessoas atrás de um texto de quase três mil anos já seria mérito suficiente.

O filme tem problemas, e os críticos apontaram vários deles com propriedade. Ainda assim, vale o ingresso, e vale mais ainda o livro. Homero sobreviveu a Xenófanes, a Platão, ao cinema mudo, a Kirk Douglas e ao Twitter, e sobreviverá a esta versão também. O que importa não é o formato do elmo nem a cor do cabelo de Helena, mas aquele homem que, depois de vinte anos de mar e de guerra, ainda quer voltar para casa. Assista ou leia. O mar do poema continua aberto, e continua sendo capaz de nos alcançar.

Título original: The Odyssey

Direção: Christopher Nolan

Ano de lançamento: 2026

País: Reino Unido e Estados Unidos

Duração: 173 minutos

Disponibilidade: Cinemas

 

* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente, é docente da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

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