CRÍTICA – O MERCADOR

Geórgia: a realidade de um país na tela do cinema

Por Leonardo Lima*

Nota: 7,0

Poucas pessoas conhecem a Geórgia, pequena nação encravada na região do Cáucaso, zona limítrofe entre a Europa e a Ásia, e que outrora integrou a extinta União Soviética. Um número ainda menor de pessoas talvez saiba que a milenar vitivinicultura (isto é, o cultivo de uvas para a produção de vinho) teve início em território georgiano. E, possivelmente, um número ainda mais reduzido de pessoas conheça a realidade socioeconômica local. A despeito das inúmeras reformas político-econômicas ocorridas neste século, o país ainda traz em seu cotidiano práticas e métodos que podem ser tidos como tradicionais, quase protocapitalistas.

O curta documental O Mercador, dirigido pela georgiana Tamta Gabrichidze, revela bem uma dessas interessantes facetas ainda presentes na vida de seu país. No filme, acompanhamos Gela, uma espécie de caixeiro-viajante contemporâneo que periodicamente adquire produtos úteis de baixo valor na capital Tbilisi e os leva numa van para serem negociados em pequenos vilarejos rurais. A bem da verdade, devido à contumaz falta de dinheiro, quase sempre os negócios são feitos por meio do escambo (troca) desses itens por quilos de batatas. Sim, isso mesmo, a batata, principal gênero agrícola ali cultivado, serve de “moeda oficial” nessa região pouco povoada, habitada por uma população paupérrima.

Exibido no Sundance Festival Film de 2018 e adquirido posteriormente pela Netflix, o documentário é feliz na maneira como apresenta ao público essa realidade tão distinta da nossa, na qual a métrica de valor das coisas possui uma especificidade peculiar. A diretora se utiliza muitas vezes de planos gerais que dão uma ideia precisa do modo de vida rural ali vivido, e, ao mesmo tempo, reforçam a sensação de aquele local ter parado no tempo, distanciando-se do espírito de um mundo marcado pela ordem do capitalismo global.

Por outro lado, quando o foco são as personagens anônimas que povoam a dimensão fílmica de O Mercador, de crianças a idosos, Gabrichidze recorre a planos médios que estabelecem uma conexão entre o lugar e aquelas pessoas, de modo que a incipiência material característica daquele vilarejo torna-se símbolo de um estilo de vida no qual o pouco – como uma boa colheita e a possibilidade de poder continuar trabalhando ano após ano na colheita de batatas – se mostra suficiente para ofertar, se não bem-estar, ao menos uma ideia de felicidade que talvez nós, imersos(as) que estamos na experiência urbana (pós-)moderna, nunca consigamos compreender ou aceitar devidamente.

Título original: სოვდაგარი (Sovdagari)

Direção: Tamta Gabrichidze

Ano de lançamento: 2018

País: Geórgia

Duração: 23 minutos

Disponibilidade: Netflix

*Recifense, 41 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígena e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland. Coeditor-chefe do site TemQueVer, membro votante da Tela Plus Film Academy e integrante do site Club do Filme e do Podcast Cinema em Movimento.

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