A disputa pelas narrativas no futebol gaúcho
Por Álvaro Nicotti*
Respondendo a um gremista progressista envergonhado com as origens de seu clube que, para aliviar esse desconforto, tenta forjar narrativas.
Nenhum torcedor precisa ter vergonha da história do seu clube. Mas todo torcedor precisa conhecê-la.
O problema começa quando, para defender uma identidade atual, tenta-se reescrever o passado, retirar fatos do contexto ou transferir responsabilidades históricas para o rival.
A discussão nunca se reduziu a quem fundou Internacional e que tipos de sujeitos fundaram o Grêmio. Essa é uma simplificação criada para desviar o debate. Estamos falando de origem, contexto histórico e das relações sociais existentes no futebol brasileiro do início do século XX.
O Grêmio, como qualquer instituição centenária, carrega as marcas do tempo em que surgiu. Reconhecer isso não diminui o clube. Pelo contrário: permite compreender sua trajetória e valorizar suas transformações.
O Internacional construiu, ao longo de sua história, uma identidade ligada à inclusão social, que se tornou parte da sua simbologia. O Grêmio também construiu sua história, com conquistas, mudanças e contradições.
Negar as contradições do passado não fortalece nenhuma instituição.
E no Rio Grande do Sul o futebol nunca foi apenas esporte.
É cultura. É identidade. É pertencimento. É também disputa de narrativas.
As histórias dos clubes são contadas pelos torcedores, pelos dirigentes, pelos meios de comunicação e pelos formadores de opinião. Em um Estado onde futebol e mídia possuem uma relação histórica, é necessário observar como determinadas narrativas são construídas, quais fatos recebem destaque e quais são relativizados.
Não se trata de dizer que todo jornalista ou veículo age de forma parcial. Trata-se de entender que nenhuma narrativa nasce no vazio.
Quando alguém precisa transformar constantemente a discussão em “maior nisso” ou “maior naquilo”, talvez esteja tentando fugir do debate principal: a história.
Hoje, Grêmio e Internacional são gigantes populares, com milhões de torcedores e presença em todas as classes sociais. No entanto, o presente não apaga a origem.
O caminho para os gremistas progressistas não deveria ser negar a história do Grêmio, mas conhecê-la, debatê-la e construir um clube cada vez mais inclusivo.
Reconhecer erros históricos não diminui uma instituição. O que diminui é fingir que eles nunca existiram.
Por isso, para muitos colorados, o Internacional representa resistência: resistência como memória, como inclusão e como defesa de uma narrativa que não aceita versões únicas da história.
No futebol, quem conta a história também disputa o futuro.
*Professor, pesquisador e editor do TemQueVer
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