CRÍTICA – A CASA É ESCURA

A casa dos excluídos

Por Leonardo Lima*

Nota: 10,0

Em sua primeira e única incursão como diretora de cinema, a poetisa modernista iraniana Forugh Farrokhzad nos deixou como legado o impactante curta-metragem documental A Casa é Escura, considerado por muitos como o marco inicial da chamada Nova Onda Iraniana. Lançado em 1962, essa obra-prima cinematográfica é, simultaneamente, um registro cru e poético da realidade de mulheres e homens, adultos e crianças que viviam em Bababaghi ​​Hospice, uma colônia para pessoas com hanseníase situada próxima à cidade de Tabriz, noroeste do país.

À época ainda conhecida como lepra, essa doença habita o imaginário social desde tempos imemoriais, sempre com intensa carga de preconceito, de modo a justificar o isolamento (e esquecimento) social de seus portadores – basta ver as inúmeras citações feitas nos livros sagrados das três religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), que expõem, explicitamente ou não, a associação dela a práticas pecaminosas. Falando em textos sagrados, é bastante pertinente, aqui, o trabalho de montagem, que integra às imagens diversas passagens do Antigo Testamento e do Alcorão lidas em voice over, as quais transmitem a ambiguidade dos sentimentos dos indivíduos que ali residiam, divididos entre a fé na cura e o desespero causado pelas dores físicas e emocionais.

Em A Casa é Escura, a rotina na casa de acolhida é mostrada de modo preferencialmente intimista, recorrendo a close-ups que não deixam dúvida quanto à melancolia imperante naquele lugar. Por outro lado, Forugh Farrokhzad também demonstra sensibilidade na medida em que, a despeito do semblante triste exposto na maior parte do tempo pelos pacientes, o filme capta a maneira própria como se estrutura a sociabilidade na vivência cotidiana daquelas pessoas. Deste modo, temos acesso a momentos de genuína beleza humana, como a descontração em sala de aula, ou a amizade de duas garotas a pentear o cabelo uma da outra num jardim, ou, ainda, uma festividade cultural típica do Irã para a qual todos se esmeram em roupas e na maquiagem.

Ao final do curta, num plano breve, mas de muita simbologia, vemos a câmera exibindo a massa de internos se dirigindo ao portão da instituição enquanto este se fecha, colocando todos ali à parte do mundo exterior, reservados tão somente à indignidade de não ter o direito a uma vida comum em sociedade.

 

Título original: خانه سیاه است (Khaneh Siah Ast)

Direção: Forugh Farrokhzad

Ano de lançamento: 1962

País: Irã

Duração: 22 minutos

Disponibilidade: Youtube

 

*Recifense, 41 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígena e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland. Coeditor-chefe do site TemQueVer, membro votante da Tela Plus Film Academy e integrante do site Club do Filme e do Podcast Cinema em Movimento.

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