Editorial – Ataque vil ao cinema brasileiro

 

É com incredulidade e indignação que recebemos, nesta segunda-feira (10/08), a notícia sobre o cancelamento da edição deste ano do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que estava previsto para acontecer de 11 a 19 de setembro. A falta de recursos foi a justificativa dada pelo Governo do Distrito Federal (DF) para cancelar o mais antigo e um dos mais importantes festivais de cinema do país.

Criado em 1965 por intermédio dos esforços do historiador, professor e crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977), inicialmente com o nome de Semana do Cinema Brasileiro, o Festival de Brasília tornou-se uma das grandes vitrines da produção cinematográfica nacional. Não à toa, o icônico Troféu Candango, dado aos vencedores em cada categoria, escolhidos pelo júri oficial e pelo júri popular, é um dos prêmios mais cobiçados por quem faz cinema no Brasil.

Ao longo de sua história, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro premiou inúmeras obras que acabariam se tornando clássicos do cinema nacional:  A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos; Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira; O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla; Xica da Silva, de Cacá Diegues; Iracema, uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna; A Hora de Estrela, de Suzana Amaral; Alma Corsária, de Carlos Reichenbach; Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira; Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky; Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho; Amarelo Manga, de Cláudio Assis; Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós; Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans, entre tantos outros.

É vergonho que um festival desse porte e relevância – desde 2007 considerado patrimônio cultural imaterial do Distrito Federal – seja cancelado pela gestão da atual governadora Celina Leão (PP) a exatamente um mês de seu início, quando as equipes de produção dos curtas e longas-metragens selecionados para a 59° edição já começavam a arrumar suas malas para viver o sonho de participar das sessões realizadas no majestoso Cine Brasília. Mais que um desatino, trata-se de um ato de vilipêndio sádico à cultura neste país!

É cruel pensar que essa decisão só encontre convergência histórica no período de 1972 a 1974, anos nos quais o Festival de Brasília não ocorreu em razão da ditadura militar – mas, cabe destacar, àquela época a decisão partiu dos próprios idealizadores do festival, em sinal de protesto às crescentes tentativas de censura aos filmes integrantes da programação. Mas o que esperar de um governo que possui vínculos estreitos e orgânicos com o bolsonarismo, cuja figura do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) ainda se faz bastante viva nos corredores do Palácio do Buriti?

Como esperar algo diferente de um governo que flertou, à base da omissão institucional, com o golpismo no início de 2023, e que, conforme investigações da Polícia Federal (PF), foi responsável por um rombo bilionário nas finanças do Banco de Brasília (BRB), após operações desastrosas feitas com o Banco Master, comandado por Daniel Vorcaro?

O TemQueVer manifesta o seu repúdio ao cancelamento do Festival de Brasília, um dos fatos mais bizarros e inexplicáveis ocorridos no campo do audiovisual brasileiro nos últimos anos. É triste, é revoltante, é decepcionante que isso aconteça num país reconhecido internacionalmente como um dos mais criativos e influentes polos cinematográficos do Sul Global, o qual conseguiu, por dois anos consecutivos, emplacar dois longas na corrida pela estatueta do Oscar de Melhor Internacional – feito este raríssimo, diga-se de passagem.

Não satisfeita com o sucesso do Brasil em festivais no exterior, a extrema-direita tenta, ao que parece, impedir que os filmes produzidos por aqui possam estrear nos festivais realizados em nosso território. Imaginávamos, a princípio, que os ataques à soberania nacional começariam viriam nas garras da águia-americana de voo altivo e soberbo; talvez valha a pena, agora, pensar que a corrosão da soberania brasileira ocorrerá de dentro pra fora, mesmo que isso implique no esgarçamento de nossa identidade social e cultural.

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1 comentário em “Editorial – Ataque vil ao cinema brasileiro”

  1. E agora a desquerida viu a repercussão (perto de uma eleição, diga-se) e disse que vai liberar o repasse (que parece que é de só 3 milhões) para a realização do festival. Vamos acompanhar as cenas dos próximos capítulos…
    Lembrando que o Cine Brasília segue ameaçado também.

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