Madeira no fogo: a miserabilidade da condição humana em Carvão
Por Leonardo Lima*
Nota: 9,0
Carvão, primeiro longa-metragem da cineasta Carolina Markowicz, pertence ao seleto grupo de filmes ao qual assistimos com alguma surpresa ou incredulidade à medida que a narrativa avança. Isso se deve, sobretudo, ao fato de a trama desvelar, sem pudor, algumas das entranhas mais incômodas da sociedade brasileira, expondo aquilo cuja existência é sabida de todos, mas cinicamente negada ou jogada para debaixo do tapete.
Inserido em estado de sincronicidade frente a características historicamente veladas de nosso tecido social, o longa-metragem se debruça sobre a vivência diária de uma humilde família residente num rincão indeterminado do Sul/Sudeste do país, que sobrevive das atividades da carvoaria – daí o título do filme. As coisas começam a mudar quando uma pessoa pertencente àquele cotidiano comunitário faz uma oferta tentadora, mas de riscos consideráveis: abrigar por algum tempo um gringo desconhecido cujo passado necessita ser totalmente apagado, inclusive sua existência física.
Em Teorema (1968), Pier Paolo Pasolini apresenta um protagonista capaz de libertar toda uma família das amarras morais hipocritamente impostas pela sociedade burguesa italiana; em Carvão, por sua vez, vemos algo parecido – embora, em certo sentido, numa chave reversa –, uma vez que cada membro familiar, seduzido pelas falsas felícias proporcionadas pelo vil capital, acaba revelando ou potencializando aspectos de suas vidas até então insuspeitos, bem como agindo na contramão daquilo pregado pelo senso comum de bases conservadoras. Numa perspectiva metafórica, aqueles indivíduos representam madeira seca, cortada, que aguarda tão somente o momento de ser lançada ao fogo para incandescer e brilhar fugazmente até o fim.
Falar sobre Carvão não é tarefa muito fácil, porquanto haver uma série de acontecimentos e reviravoltas que, caso antecipados, possuem o poder de prejudicar o impacto da experiência de assistir ao filme. Todavia, é preciso registrar o quanto Carolina Markowicz mostra-se segura na direção, transpondo para a tela, com força fantasmagórica, o roteiro de sua autoria. Isso se reflete na atuação naturalista de todo o elenco, em particular da polivalente Maeve Jinkings (Irene) e do argentino César Bordón (Miguel) – destaque-se, também, o ator-revelação mirim Jean Almeida da Costa (Jean), espontâneo e cativante em cena.
Ao fugir do maniqueísmo que uma obra dessa natureza talvez indevidamente sugerisse, Carvão revela-se como um dos filmes de maior densidade produzidos no Brasil nos últimos anos. Fala de nós como sociedade sem se esquecer do contexto presente, ao mesmo tempo em que preserva uma força interna que universaliza sua narrativa e o transforma num emblema da própria miserabilidade da condição humana, tão afeita a tornar absurda e horrorosa a vida em sociedade.

Título original: Carvão
Direção: Carolina Markowicz
Ano de lançamento: 2022
País: Brasil
Duração: 108 minutos
Disponibilidade: Globoplay e Telecine.
*Recifense, 41 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígena e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland. Coeditor-chefe do site TemQueVer, membro votante da Tela Plus Film Academy e integrante do site Club do Filme e do Podcast Cinema em Movimento.
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