Um Coyote no Tribunal incomoda Muita Gente
Por Leonardo Lima*
Nota: 7,8
Universos diegéticos povoados simultaneamente por personagens live action e animados não constituem novidade. Os clássicos Uma Cilada para Roger Rabbit (1988) e Space Jam (1996), bem como o mais recente Tico e Teco: Defensores da Lei (2022) são alguns dos exemplos mais famosos envolvendo essa inusitada mise-en-scène híbrida. Coyote versus ACME junta-se, com louvor, ao rol de produções competentes o suficiente para escapar à perigosa armadilha do vale da estranheza na qual obras do tipo geralmente acabam caindo, por melhores que sejam as intenções.
Arquivado de maneira mesquinha e covarde pela Warner Bros., o longa foi salvo da destruição pela Ketchup Entertainment, produtora independente que se especializou no resgate de filmes rejeitados pelos grandes estúdios. Seria um crime imperdoável que Coyote vs. ACME houvesse sido varrido para debaixo do tapete por razões meramente financeiras, como pretendiam seus produtores originais. Essa existência ímpar nos bastidores de Hollywood, seara sombria na qual trabalhos prontos são descartados sem qualquer cerimônia, dialoga profundamente, inclusive, com o roteiro do projeto dirigido por Dave Green, uma sátira inteligente ao mundo corporativo contemporâneo.
Cansado de suas perseguições ao Papa-Léguas invariavelmente acabarem de forma desastrosa, Wile Coyote decide processar a ACME, empresa que detém o monopólio de produção das engenhocas utilizadas por ele. Mal sabe o protagonista que, na verdade, um grande segredo explica o seu papel de bucha de canhão assumido ao longo de décadas na história dos Looney Tunes, como o próprio filme demonstra recorrendo a trechos de episódios inesquecíveis da dupla no deserto do Novo México.

Ainda que a narrativa não seja brilhante do ponto de vista de seu desenvolvimento – particularmente no que diz respeito ao segmento detetivesco, que conta com a participação do astuto coelho Pernalonga –, sua dimensão autoconsciente está posta de modo honesto, passando longe dos propósitos de infantilização do público vistos em Barbie. A dinâmica estabelecida entre os Looney Tunes e os humanos mostra-se genuinamente engraçada, algo que é reforçado pelo tom mais cartunesco assumido pelas personagens humanas interpretadas por Will Forte, Lana Condor e John Cena.
Coyote vs. ACME é daqueles trabalhos que sabem como integrar no mesmo plano a comicidade própria às animações com uma abordagem que torna porosas as leis naturais do mundo real, tornando-as receptivas a ações e comportamentos tresloucados típicos dos desenhos. Contrariando expectativas, acaba sendo um filme de tribunal no qual o absurdo anda lado a lado com a sobriedade do Estado burguês. O grande mérito, aqui, está em evidenciar, ainda que não intencionalmente, o quanto ambas as facetas são igualmente risíveis.

Título original: Coyote vs. ACME
Direção: David Green
Ano de lançamento: 2026
País: Estados Unidos
Duração: 103 minutos
Disponibilidade: Cinemas
*Recifense, 41 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígena e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland. Coeditor-chefe do site TemQueVer, membro votante da Tela Plus Film Academy e integrante do site Club do Filme e do Podcast Cinema em Movimento.
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