Meritocracia

Por Sérgio Moacir Job Lima*

O que algumas pessoas não entendem — e talvez nunca entendam — é que o chão da escola é diferente em cada escola, em cada turma, em cada grupo de alunos e, principalmente, em cada aluno.

Medir conhecimento por um único parâmetro é colocar todos na mesma régua. E sabemos que isso não corresponde à realidade. Não é a verdade do que acontece dentro de uma escola.

De fora, determinados resultados podem parecer um feito gigantesco. Podem virar números, gráficos, rankings e discursos de eficiência. Mas quem está dentro da escola conhece o risco de transformar uma realidade humana e complexa em uma simples meta a ser alcançada.

São pessoas. Não estamos em uma empresa vendendo mercadorias.

Cada aluno chega à escola trazendo uma história, uma condição social, uma família, dificuldades, potencialidades, ausências e possibilidades diferentes. Cada professor também trabalha dentro de condições diferentes. Comparar tudo isso como se fosse uma linha de produção pode até produzir números bonitos, mas não necessariamente produz educação.

E então acontece o inevitável: colocam uns contra os outros.

Professor contra professor. Escola contra escola. Aluno contra aluno.

A lógica passa a ser a da competição, como se o sucesso de um significasse necessariamente o fracasso de outro.

No Rio Grande do Sul, essa gestão de governo sempre deu enorme importância às metas, aos indicadores e aos resultados, como se a escola pudesse ser administrada com a mesma lógica de uma empresa. Só que escola não é fábrica. Professor não é funcionário de linha de produção. Aluno não é produto. E conhecimento não é mercadoria que se pesa, embala e coloca numa prateleira.

Temos especificidades. Temos contextos. Temos diferentes alunos e diferentes professores. E, por isso, precisamos de diferentes olhares, diferentes estratégias e diferentes formas de avaliar.

Então, com aquela voz mansa e tranquila, veio a afirmação de que a casa foi arrumada que, agora, estão sendo feitos investimentos.

Mas é preciso perguntar: “quem pagou a conta dessa arrumação?”

Porque, para quem está no chão da escola, essa conta foi paga — e continua sendo paga — no lombo dos professores, dos funcionários e também dos aposentados.

Perdemos direitos. Perdemos perspectivas. Perdemos parte daquilo que construímos ao longo de uma carreira.

E o dinheiro que ficou represado precisava encontrar um destino. Então surgiu o 14º salário, condicionado ao cumprimento de metas.

E assim se consolida a lógica: não basta trabalhar. É preciso atingir o indicador. Não basta ensinar. É preciso entregar a meta. Não basta estar diante de pessoas. É preciso produzir resultados mensuráveis.

E, no fim, aquele que alcança a meta vira o funcionário do mês.

“Talvez esteja aí a grande ironia de tudo isso: transformaram a educação em uma corrida e depois criaram um prêmio para quem chegar primeiro.”

Só esqueceram de uma coisa:

Na escola, não estamos correndo contra nossos colegas. Estamos tentando não deixar ninguém para trás.

*Professor de Matemática da rede pública estadual do Rio Grande do Sul, atuando no Instituto Estadual de Educação Barão de Tramandaí desde 2012. Graduado em Matemática pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), possui especializações em Matemática e Educação, extensão em Educação de Jovens e Adultos (EJA) e mestrado em Ensino de Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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