Caos social e narrativo em meio a levante popular no México
Por Leonardo Lima*
Nota: 4,0
Longa-metragem dirigido pelo mexicano Michel Franco, cujos filmes costumam se constituir em verdadeiras trincheiras de disputa apaixonada entre seus admiradores e aqueles que ostensivamente o detratam, Nova Ordem mantém o caráter divisivo da abordagem cinematográfica apresentada ao público pelo cineasta.
No filme, o palco das ações é a Cidade do México, que vive dias de crescente conturbação social a qual ameaça esgarçar sem volta o tecido estrutural de uma sociedade historicamente marcada pela profunda desigualdade social. Ao menos no ato inicial, esse pano de fundo é habilmente utilizado para tensionar as relações entre os indivíduos presentes em uma festa de casamento promovida por uma família da elite do país. A sensação de que as coisas não estão bem, apesar da tentativa dos convidados em fingir normalidade diante da adversidade, e que podem piorar a qualquer momento e em ritmo célere, perfaz com grande carga essa primeira parte do longa. Sem dúvida alguma, trata-se do melhor e mais intenso segmento de Nova Ordem.
Infelizmente, Franco não consegue catalisar essa força cênica dos primeiros momentos naquilo que virá por diante, o que transforma seu filme em uma decepcionante narrativa acerca dos impactos sociais não planejados gerados a partir do processo de levante dos membros das classes menos favorecidas contra a hegemonia opressora das elites políticas e econômicas nacionais. Ainda que consiga dar o tom de como a capital mexicana foi sacudida por manifestantes cheios de cólera e sangue nos olhos, graças a um trabalho bastante competente de direção de arte, Nova Ordem perde os rumos da trama ao não definir um foco que, de modo lógico e orgânico, dê continuidade àquela história inicialmente empolgante.

Com personagens cujos rumos, em sua maioria, são desprovidos de maior atrativo para quem assiste ao longa – exceção feita à jovem que está a se casar naquele dia, única a demonstrar empatia para com quem não nasceu em berço de ouro como ela, apela-se para um encadeamento de eventos que, em última instância, apenas servem para o diretor aumentar, sem limites nem justificativas plausíveis, o nível de violência gratuita exibida em grande parte das sequências seguintes. Fora isso, o próprio roteiro parece não fazer qualquer questão de fornecer um mínimo de lastro narrativo com relação às possíveis motivações que levam os personagens a agir de um determinado jeito e não de outro.
Não à toa, Nova Ordem perde força no que diz respeito à representação da dimensão simbólica mais imediata de sua mise-en-scène – a tinta verde e o sangue humano misturados à palidez de um país atônito em meio às chamas que o consomem, algo que remete ao pavilhão mexicano. Isso também acontece em relação aos acontecimentos que marcam a contrarresposta do Exército e a conseguinte instalação de uma nova, estranha e violenta ordem social. Nesse sentido, o caos político-social que caracteriza a narrativa termina por contaminar a estrutura formal do filme, de modo que tudo soa demasiadamente aleatório, sem uma devida fundamentação quanto aos desdobramentos desse levante popular.

Título original: Nuevo Orden
Direção: Michel Franco
Ano de lançamento: 2020
País: México
Duração: 88 minutos
Disponibilidade: Netflix
*Recifense, 40 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígenas e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland e um perfil no Letterboxd. Integrante do Podcast Cinema em Movimento e dos sites TemQueVer Cinema e Club do Filme.
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