HAITI – COPA DO MUNDO DE CINEMA

Grupo C: Brasil, Escócia, Haiti e Marrocos

Esta será apenas a segunda vez que Les Grenadiers (Os Granadeiros, em português) disputarão a Copa do Mundo da FIFA. A primeira e única participação do Haiti havia ocorrido em 1974, na Alemanha Ocidental, quando a equipe sofreu três derrotas em jogos contra Itália, Argentina e Polônia. Mais uma vez os haitianos não deram sorte e caíram num grupo difícil do torneio, com seleções teoricamente muito mais fortes.

Para chegar à Copa 2026, os haitianos tiveram que superar três fases nas Eliminatórias da Concacaf. Na última delas, despachou as favoritas Costa Rica e Honduras, seleções acostumadas a ir aos Mundiais. O grande feito do Haiti contou não apenas com a boa geração de jogadores, mas também com o talentoso treinador Sebastien Migne. Há de se considerar, ainda, que a vaga foi conquistada com muita garra, já que a seleção foi obrigada a disputar todos os jogos classificatórios longe de casa, em Curaçao, em virtude dos violentos e incessantes conflitos entre as forças colapsadas do Estado e facções criminosas que dominaram a capital do país, Porto Príncipe.

A chegada do cinema no Haiti deu-se em 1899, quando um representante comercial dos irmãos Lumière fez a exibição do primeiro filme em terras do país. No dia seguinte, teria a “sorte” de registrar com sua câmera um incêndio na capital. Embora historicamente a produção cinematográfica local seja bastante reduzida, os haitianos sempre gostaram de ir  salas de cinema. Até os anos 1950, muitos filmes italianos e franceses eram exibidos; todavia, com a ascensão ao poder de François Duvalier, mais conhecido como Papa Doc”, e a continuidade do regime ditatorial com seu filho Jean-Claude Duvalier (o Baby Doc), uma vigilância severa foi exercida sobre os filmes que entravam no país durante o período de 1657 a 1986. Daí que, nessa época, os westerns hollywoodianos e os wuxia (isto é, filmes de arte marcial) chineses dominassem a programação dos cinemas haitianos.

Ao longo de quase três décadas de ditadura da família Duvalier, apenas quatro filmes foram produzidos no Haiti. Passada essa fase sombria, o cinema haitiano começou a ganhar alguma tração, mesmo que engatinhando. O destaque inicial fica para o cineasta Arnold Antonin, cujo documentário Haiti, le Chemin de la Liberté, produzido sob patrocínio da Cahiers du Cinéma, conferiu reconhecimento internacional à sétima arte do país. 

Sem dúvida alguma, no entanto, Raoul Peck é o cineasta haitiano mais famoso de todos os tempos, autor de uma filmografia dita ativista, que não se restringe ao documental, mas também abraça obras dramáticas. Diante dessa sua importância, o drama histórico dirigido por Peck, L‘Homme sur les quais (O Homem à Beira-mar, numa tradução para o português), foi escolhido para representar o Haiti na Copa do Mundo de Cinema organizada pelo TemQueVer e pelo Cine Mulholland. Lançado em 1993, o longa foi selecionado para o Festival de Cannes. Ele se passa durante a década de 1960, sob a ditadura de Papa Doc e a repressão de sua milícia, os Tonton Macoutes. A história é contada a partir da perspectiva de Sarah, uma menina de 8 anos forçada a testemunhar as atrocidades cometidas pelo regime, incluindo a violência praticada por seu próprio pai, um oficial desonrado.

Para além do valor histórico intrínseco do filme, que examina o impacto duradouro e os traumas da repressão política na infância e na sociedade haitiana, L‘Homme sur les quais se situa como um marco estrutural do cinema caribenho pós-colonial. Até o início da década de 1990, a representação do Haiti no audiovisual sofria de um binarismo crônico: ou se focava num suposto exotismo folclórico da realidade local, ou abordava-se, de maneira sensacionalista, a miséria e a prática do vodu, uma clara herança do olhar eurocêntrico e hollywoodiano. Peck fratura essa lógica ao focar nos microfissuras do cotidiano haitiano. O longa-metragem não é meramente um “filme sobre a ditadura de François Duvalier, mas um estudo epistemológico sobre como o totalitarismo molda, violenta e deforma a psique de uma nação.

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