MARROCOS – COPA DO MUNDO DE CINEMA

Grupo C: Brasil, Escócia, Haiti e Marrocos

O Marrocos vive a sua melhor fase dentro dos gramados em toda a sua história. Jogando a sua sétima Copa do Mundo da FIFA, a terceira vez consecutiva, os Leões do Atlas, que estrearam no torneio em 1970, justamente no México, conheceram o céu na disputa realizada no Catar há quatro anos, quando chegaram às semifinais e terminaram em quarto lugar, a melhor colocação de uma seleção africana nos Mundiais.

Comandada por Mohamed Ouahbi, que substituiu o técnico anterior, Walid Regragui, há menos de 100 dias da Copa 2026, a seleção marroquina espera novamente fazer uma campanha tão exitosa quanto em 2022, contando, para isto, com jogadores que têm sido referência nos clubes onde jogam, a exemplo do lateral Achraf Hakimi, do meia Hakim Ziyech, do atacante Youssef En-Nesyri e do goleiro Bono. Para conquistar uma vaga neste Mundial, o Marrocos jogou as Eliminatórias da CAF. Como era de se esperar, não teve qualquer dificuldade, tanto que foi a primeira seleção de África garantida no Mundial.

As primeiras imagens em movimento registradas no Marrocos foram feitas pelo operador francês Gabriel Veyre, a mando dos irmãos Lumière, em 1897, com o curta Le Chevrier Marocain. Durante a primeira metade do século XX, o país serviu principalmente como cenário exótico para produções coloniais europeias e estadunidenses. Cidades como Casablanca e Tânger abrigaram cinemas em estilo art déco que se tornaram importantes centros de socialização. 

Após a independência do Marrocos em 1956, buscou-se uma identidade própria na produção cinematográfica local. Inicialmente, os filmes marroquinos eram fortemente influenciados pelos melodramas egípcios. O divisor de águas que deu início à modernidade marroquina no cinema foi o filme Wechma (1970), dirigido por Hamid Bénani, que rompeu com a estrutura narrativa tradicional, abrindo caminho para uma geração de cineastas que viam a sétima arte não apenas como entretenimento, mas como uma forma de arte, linguagem e ferramenta política. No século XXI, por sua vez, a cinematografia do país ficou marcada por produções ousadas que debatem abertamente tabus sociais, desigualdade urbana e imigração sob uma perspectiva realista mais crua.

Como representante do Marrocos na Copa do Mundo de Cinema do TemQueVer, trazemos Adam, primeiro longa-metragem da diretora Maryam Touzani. Essa escolha não se deu por mero acaso, uma vez que, numa sociedade árabe marcada pela tradição e pela dominação masculina, é raro que uma mulher tenha a oportunidade de dirigir uma obra cinematográfica de grande visibilidade.

Abla é uma mulher viúva que vive sozinha com a filha de oito anos, Warda, numa casa modesta em Casablanca. A partir de casa, Abla gere uma pequena padaria. A sua rotina, que varia entre as tarefas domésticas, os afazeres na padaria e os trabalhos da escola, é interrompida quando Samia, uma jovem solteira e grávida, bate à sua porta. No Marrocos contemporâneo, vale lembrar, uma mãe solteira é, por lei e por costume, uma pária. Ao nomear o filme como Adam (o recém-nascido, mas também o “primeiro homem” Adão), a cineasta subverte a lógica patriarcal. O homem da história é um bebê indefeso, cujo futuro depende inteiramente da emancipação e do sacrifício de duas mulheres. O foco do filme, portanto recai sobre a agência feminina.

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