CRÍTICA – ENCURRALADO

A obra-prima inicial de Steven Spielberg

Por Leonardo Lima*

Nota: 10,0

Em 1971, o então novato Steven Spielberg, com apenas 25 anos, surpreendia o mundo na direção de Encurralado, filme lançado originalmente na TV norte-americana e que se caracteriza como um protoblockbuster moderno. Passadas cinco décadas e meia, a produção, situada no âmbito do movimento conhecido como Nova Hollywood, continua a conquistar o público graças ao elevado nível de suspense que carrega consigo ao longo de pouco mais de noventa minutos.

No filme, um pacato homem de classe média dos EUA, David Mann (Dennis Weaver), faz uma viagem a trabalho solitária dirigindo pelas estradas desertas da Califórnia. Desde o primeiro plano, Spielberg já mostra estar disposto a entregar uma experiência de grande impacto, já que acompanhamos Mann desde a saída de sua casa a partir da perspectiva frontal do veículo, que vai nos conduzindo de uma zona de conforto e bem-estar oferecida pelas grandes cidades aos indivíduos até o contexto árido, despovoado e semicivilizado do interior do país, onde até mesmo o Estado não se faz presente por vezes – vide a ausência absoluta da polícia no decorrer da trama.

Em certo momento, Mann se depara na estrada com um caminhão velho e de grandes proporções transportando material inflamável. O que era para ser mais uma ultrapassagem tranquila acaba rapidamente se transformando numa situação absurda, improvável e racionalmente inexplicável: o motorista do caminhão, cujo rosto em nenhum momento chegamos a ver, passa a perseguir implacavelmente o veículo vermelho do protagonista, tendo por objetivo claro e premeditado matá-lo. As sensacionais e angustiantes sequências de perseguição são filmadas com maestria por Spielberg, que se aproveita com riqueza de imaginação de quase todas as possibilidades de ângulos de câmera à sua disposição, internos e externos aos dois veículos – se à época houvesse drones como nos dias de hoje, certamente o diretor os teria empregados para captar a ação visceral.

Simbolicamente, Encurralado trata-se de uma rica metáfora para pensarmos acerca da condição humana, mais especificamente sobre a fragilidade da nossa vivência em meio a arranjos sociais marcados por dispositivos que, de maneira severa e sem margem para erros ou ligeiros desvios de traçado, nos coagem a agir no sentido de programar a vida aos moldes do funcionamento dos mecanismos de um relógio suíço. Quando as coisas saem fora de controle por qualquer motivo, banal ou não, como acontece com Mann em sua viagem, perdemos o prumo do que fazer, ficando literalmente encurralados face às traiçoeiras peças pregadas pelo destino. Com a desorientação dessa bússola pessoal, o psicológico rapidamente começa a se deteriorar, e é aí que olhamos no(s) espelho(s) e vemos os fantasmas resultantes da ação dos outros ou de nós mesmos, os quais nos ameaçam assustadoramente. No filme, isso é reforçado por meio das “falas” que externam a confusão de ideias e sentimentos na cabeça de David Mann.

Não poderia ter sido melhor a estreia daquele que viria a se constituir como um dos maiores nomes do cinema mundial na direção. Encurralado é uma preciosa lição deixada por Spielberg de como o cinema é uma arte que não demanda investimentos absurdos nem projetos com roteiros mirabolantes para produzir algo de relevância para as gerações do presente e do futuro.

Título original: Duel

Direção: Steven Spielberg

Ano de lançamento: 1971

País: Estados Unidos

Duração: 90 minutos

Disponibilidade: Apple TV

*Recifense, 41 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígena e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland. Coeditor-chefe do site TemQueVer, membro votante da Tela Plus Film Academy e integrante do site Club do Filme e do Podcast Cinema em Movimento.

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