CRÍTICA – PERFECT BLUE

Perfect Blue: a perturbadora obra-prima de Satoshi Kon

Por Leonardo Lima*

Nota: 10,0

Seria o ímpeto criativo de um gênio algo que vai sendo esmerado com o passar do tempo, obra após obra, ou seria algo imanente ao próprio indivíduo, podendo, portanto, manifestar-se a qualquer instante e de modo assombroso, deixando sem palavras o mais cético dos especialistas em determinada arte? Talvez um tratado filosófico fosse necessário para explorar a fundo questão de tal grandeza e complexidade; todavia, no caso de Perfect Blue, animação japonesa dos anos 1990, importa mesmo é saber que Satoshi Kon, então estreante na direção, foi capaz de deixá-la como um legado sinonímico de obra-prima cinematográfica.

Baseado num romance homônimo, Perfect Blue inusitadamente não pode ter sua elevadíssima qualidade atribuída à sua dimensão mais gráfica, uma vez que a simplicidade e o minimalismo se apresentam como características mais proeminentes de seus traços, tanto em relação às personagens quanto aos ambientes – traços esses que soam até como esboços em certa medida, havendo um desapego quase total no que diz respeito a uma construção de mundo pormenorizada, mais rica em detalhes. Engana-se, porém, que isso empobreça o filme em termos visuais; ao contrário, acaba caindo como uma luva para catalisar nossa atenção com vistas àquilo realmente desejado por Satoshi, a saber: promover um mergulho existencial aterrorizante na e com a protagonista Mima Kirigoe, integrante de uma j-pop teen feminina que está largando a música para abraçar a carreira de atriz na TV.

Perfect Blue segue por caminhos insuspeitos para o público, que é habilmente conduzido pelo diretor até uma zona onírica de águas turvas, em redemoinho bestial, na qual percepções e sentimentos se sobrepõem – tanto os nossos como os de Mima. Por meio da fotografia eivada de teor semiótico e de uma montagem dinâmica e inventiva nas transições entre os planos, sobremaneira expressiva quanto a seus efeitos narrativos, a personagem – e nós também! – é levada sorrateiramente a embarcar em um perturbador processo de descentramento do ser face o mundo. Em outras palavras, a partir de dado momento do anime, torna-se quase impossível discernir o que é real daquilo que mais parece um pesadelo sem fim.

Em meio a essa condição psicótica, vivenciada com horror e repulsa autoidentitários, Mima termina pagando o preço de sua ousadia, as consequências por haver rompido com as expectativas gerais de uma sociedade movida pelo espetáculo, algo condizente com as normas estruturantes de manutenção e legitimação do patriarcado. Em sua tragédia animada, Satoshi Kon não apenas consegue apreender como poucos os elementos que socialmente estrutura(ra)m o Japão, criando um azul perfeito de altíssimo custo para a sanidade mental de seus indivíduos, mas também se mostra um realizador de raríssimo talento, daqueles que escondem o jogo até a derradeira hora, na qual o plot twist toma de assalto a tela e nos faz ficar atônitos. Inspirador e desconcertante, Perfect Blue é um autêntico exemplo de como as animações em nada devem aos demais gêneros da arte do cinema.

Título original: Pâfekuto burû

Direção: Satochi Kon

Ano de lançamento: 1997

País: Japão

Duração: 81 minutos

Disponibilidade: Indisponível em streaming

 

*Recifense, 41 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígena e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland. Coeditor-chefe do site TemQueVer, membro votante da Tela Plus Film Academy e integrante do site Club do Filme e do Podcast Cinema em Movimento.

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