Por Pablo Rodrigues*
“Insensato é o mortal que devasta cidades, santuários e túmulos,
deixando a desolação para trás, pois logo ele próprio há de perecer.”
Eurípedes, As Troianas (v. 95-97)
O que torna um filme uma boa adaptação? É a fidelidade rígida ao material original ou a lealdade à essência de suas ideias? É o rigor histórico ou a coerência com a visão de mundo do/a cineasta? Tais questões costumam vir à tona quando o cinema se debruça sobre uma obra clássica da literatura. Desde a divulgação das primeiras imagens e notícias sobre A Odisseia (2026), esse debate ressurgiu com força, gerando um intenso burburinho no público e na crítica.
Dirigido por Christopher Nolan (Batman Begins, A Origem, Oppenheimer), A Odisseia é a mais nova adaptação do poema épico atribuído a Homero, uma das narrativas fundacionais da cultura ocidental. A trama acompanha Odisseu (Matt Damon), rei da ilha de Ítaca que, após a sangrenta Guerra de Troia, enfrenta uma perigosa jornada de regresso ao lar, onde sua esposa Penélope (Anne Hathaway) e seu filho Telêmaco (Tom Holland) resistem a pressões políticas para manter a soberania de seu trono.
É importante ressaltar que a obra homérica não é um relato documental, mas uma construção mitológica (repleta de monstros, deuses e entidades fantásticas) sobre a gênese da Grécia antiga. Concebida originalmente não como texto escrito, mas como cantos de tradição oral transmitidos por gerações, a narrativa só foi registrada em livro séculos mais tarde. O próprio poema é repleto de anacronismos, refletindo os costumes e a visão de mundo da época de Homero e não da Idade do Bronze, período em que a trama se ambienta. Ou seja, A Odisseia original já era uma versão ficcionalizada de uma narrativa que circulava no imaginário grego.
No texto clássico, Odisseu é apresentado como o arquétipo do herói por excelência: inteligente e corajoso. Contudo, sob essa armadura heroica residem também traços marcantes de mentira, misoginia e um ímpeto colonizador. Características que, no contexto homérico, eram celebradas como virtudes. Aos olhos contemporâneos, essa representação se mostra anacrônica e eticamente problemática.
Assim, o que Nolan faz em sua adaptação é atualizar a narrativa ao espírito de nosso tempo. Em vez de celebrar a aventura de um bravo guerreiro tentando se livrar da fúria dos deuses para voltar para casa, o cineasta desconstrói o mito para expor um colonizador atormentado, traumatizado pelos horrores que ajudou a perpetrar durante a guerra e faz de seu retorno uma jornada de penitência.
Essa perspectiva crítica, vale ressaltar, não é invenção do diretor. Na própria Antiguidade Clássica, alguns séculos após Homero, a Guerra de Troia e seus “heróis” foram relidos pela lente das vítimas da barbárie. Em A Eneida, Virgílio retrata o episódio do Cavalo de Troia não como um ato de gênio militar, mas como um massacre implacável. Da mesma forma, Eurípedes, na tragédia As Troianas, desloca o olhar para o sofrimento das mulheres troianas violadas e escravizadas durante a guerra. Nolan insere seu filme nessa mesma tradição: a de olhar para o mito fundador não para glorificar o império, mas para dissecar as suas contradições.
Não é por acaso que Nolan opta por uma abordagem estética ancorada em um semi-realismo, mesmo ao incorporar os componentes fantásticos da narrativa homérica, como o Ciclope Polifemo ou o canto mortal das Sereias. A constante recusa do diretor ao uso excessivo de CGI reforça essa abordagem: a presença imponente de Polifemo ganha vida por meio de uma marionete animatrônica de 18 metros instalada em uma caverna real, enquanto milhares de figurantes dão corpo ao exército grego em batalhas de escala épica. O peso material do mundo em cena é palpável.
Nessa linha, é interessante ver a forma como Nolan representou os elementos fantásticos tão marcantes da obra original, a exemplo dos deuses gregos. O filme não confirma nem nega a existência destes, mas traduz suas manifestações através da força da natureza. Não vemos, por exemplo, Poseidon, o deus dos mares, em sua forma antropomórfica, mas a tempestade devastadora que naufraga a frota é interpretada como sendo uma manifestação de sua fúria. A presença divina não aparece como um espetáculo sobrenatural, mas como a projeção da psique humana diante da força avassaladora dos elementos ou de suas ações. O maior exemplo disso é a representação da deusa da guerra Atena, interpretada por Zendaya, a qual surge mais como uma manifestação da culpa do protagonista do que como divindade (e a revelação do final só confirma ainda mais isso).
Também assinado por Nolan, o roteiro entrelaça ficção e elementos históricos, situando a trama durante o colapso da Era do Bronze, para criar uma alegoria crítica sobre o declínio dos grandes impérios, principalmente dos Estados Unidos. No filme, o exército grego é uma máquina militar que promove saques e genocídios por onde passa. Qualquer semelhança com a história do imperialismo estadunidense NÃO É mera coincidência. E trazer essa camada de discussão para uma obra como A Odisseia no contexto bélico e fascista da atual era Trump traz para a obra um caráter político contundente para nosso tempo.
Isso se expressa visualmente na mise-en-scène do filme. Os figurinos, por exemplo, distanciando-se do rigor histórico com relação à Era do Bronze (aqui os gregos usam calças), utiliza um código simbólico dos papéis de dominação. O exército grego veste armaduras negras, desenhadas para projetar sua natureza invasora e opressora. Em contrapartida, as armaduras dos troianos adotam tons claros e uma aparência de fragilidade, como se fossem de papelão, traduzindo visualmente a condição de um povo sitiado e fadado à ruína.
Por sua vez, as locações reais filmadas na Grécia, Itália, Marrocos, dentre outros lugares, exploram cenários áridos e em ruínas, transformando a geografia do filme em um espelho da decadência histórica. Assim, a paisagem se mostra não apenas como um mero pano de fundo, mas como expressão visual de uma civilização desgastada que testemunha o crepúsculo de sua própria era.
Para dar corpo a essa jornada de ruína e melancolia, Nolan reúne um elenco estelar. Matt Damon compõe Odisseu a partir de uma atuação mais contida, com um olhar frio e melancólico, que carrega o peso invisível de cada atrocidade presenciada e cometida. Tom Holland entrega uma performance madura no papel de Telêmaco, imprimindo de forma crível o conflito do jovem príncipe dividido entre a herança do pai ausente e a urgência de reivindicar seu próprio destino. Robert Pattinson convence como um vilão mesquinho e acovardado. Contudo, o grande destaque dramático pertence a Anne Hathaway: sua Penélope precisa constantemente sufocar emoções e desconfianças para manter a soberania de seu trono e de seu povo. Paralelamente, Samantha Morton rouba a cena na pele de Circe, retratada aqui não como a divindade homérica, mas como uma feiticeira marginalizada. Embora tenha pouco tempo de tela, a veterana atriz entrega uma das interpretações mais marcantes do longa.

O grandioso elenco conta também com nomes como John Leguizamo, Himesh Patel, Mia Goth, Jon Bernthal, Charlize Theron, além de vários outros. Dentre esses, destacam-se as presenças de Lupita Nyong’o como Helena de Troia e Elliot Page como o soldado grego Sinon, escolhas de elenco que moveram ondas de ódio ao filme na internet, principalmente em perfis de direita, acusando a produção de ser “woke“, conceito esse que não passa de um guarda-chuva para expressar racismo e transfobia. A tentativa reacionária de exigir uma pretensa “pureza histórica” em uma obra de origem mitológica ignora o próprio funcionamento do fazer artístico: toda obra de arte é uma expressão do tempo histórico no qual é produzida.
Contudo, A Odisseia não é um filme isento de problemas. Alguns dos segmentos da trama, como o confronto com os gigantes Lestrigões ou com o monstro Cila, acabam soando gratuitos em meio à narrativa, como se só estivessem ali por serem momentos marcantes da obra original, mas que não se inserem de modo orgânico na costura feita pelo roteiro. Além disso, é notório que Christopher Nolan ainda tem dificuldades em dirigir cenas de ação. Suas sequência do tipo continuam com uma edição problemática, com muitos cortes e planos muito fechados, a exemplo do confronto final de Odisseu em Ítaca, que perde força devido à confusão espacial em tela. Temos dificuldade de entender o que está acontecendo em tela.
Entretanto, no geral, A Odisseia é um grande filme, um dos melhores trabalhos de seu diretor até aqui, que consegue desmistificar o maior herói da Antiguidade, criando uma obra que dialoga de modo contundente com o seu contexto histórico e político. Um filme que recusa o espetáculo ufanista para nos lembrar de que nenhum império é eterno e que a barbárie que cometemos sempre retorna, mais cedo ou mais tarde, para cobrar o seu preço.
*Psicólogo formado pela Universidade Federal de Alagoas, especialista em Saúde Mental, militante de esquerda, cinéfilo, crítico de cinema, criador do canal do YouTube, podcast e página do Instagram Cinema em Movimento e colaborador do site TemQueVer.
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